Três perguntas: Gustavo Galo

por Marcelo Costa

“Enterrei meu coração numa praça, tomara que nasça”, canta Gustavo Galo em “Tomara”, faixa de abertura de “ASA”, sua estreia solo. A canção, parceria de Galo com o poeta arrudA, é uma pequena pérola perfeita para introduzir o ouvinte no rico universo musical deste compositor, que já lançou dois álbuns ao lado do grupo Trupe Chá de Boldo, integra um projeto de releituras de canções de Itamar Assumpção e Luiz Tatit (Doideca) e participou de “Tribunal do Feicibuqui”, grande disco de Tom Zé liberado gratuitamente em 2013 (a faixa título leva sua assinatura ao lado do parceiro Marcelo Segreto mais Tatá Aeroplano e Emicida).

“Apesar de ser um disco que leva meu nome, ‘ASA’ foi um trabalho extremamente coletivo”, apressa-se a explicar Gustavo, que credita o resultado final do álbum aos músicos com quem dividiu a gravação, assumindo: “Sou limitado musicalmente”. Liberado gratuitamente em seu próprio site (http://www.gustavogalo.com/), “ASA” agrega 11 canções e parte da ideia da “exposição da canção de maneira crua e direta”. Para exemplificar esse intuito, nada melhor que a poderosa versão “voz, violão e trompete” que Gustavo Galo fez para “Cama”, uma das grandes canções do repertório do Cérebro Eletrônico (influencia direta de Galo).

Com produção dividida entre Gustavo Ruiz e Tatá Aeroplano, “ASA” conta com um time representativo de participações especiais. Mauricio Pereira (ex-Mulheres Negras) participa de “Tomara” enquanto Lucinha Turnbull (ex-parceira de Rita Lee no projeto Cilibrinas do Eden) toca violão em “Um Garoto” (cuja letra conta a história de um garoto que vendeu seus vinis para ir a um show da Patti Smith). Já a faixa título conta com Juliana Perdigão (ex-Graveola) no clarinete e Ava Rocha nos vocais. A participação de Luiz Chagas (Itamar Assumpção / Tulipa Ruiz) foi marcante: “A gravação do lap steel de ‘Seresta’ foi decisiva e transformadora para o disco”, conta Galo, que fala um pouco mais sobre o disco abaixo:

Após dois discos em conjunto com a Trupe Chá de Boldo que, literalmente, é uma trupe, como é gravar um disco solo em que as decisões estão concentradas em você? Neste ponto, também, como foi o trabalho do Gustavo Ruiz na produção?
Apesar de ser um disco que leva meu nome, “ASA” foi um trabalho extremamente coletivo. A parte mais pessoal foi a invenção de algumas composições, a escolha do repertório e dos amigos com quem desejava trabalhar. Depois deste fogo inicial trabalhamos coletivamente na construção de parte dos arranjos como uma banda. Sou limitado musicalmente. E sem Zé Pi (guitarras), Meno Del Picchia (baixo), Peri Pane (cello), Tomas Oliveira (rhodes e piano) e Pedro Gongom não teria feito esse disco. O trabalho com Gustavo e Tatá veio logo em seguida. A partir daí eles passaram a conduzir a pré-produção no Teatro Rural do Busca Vida, em Bragança Paulista, e o trabalho posterior no estúdio. Gustavo e Tatá apararam algumas arestas e sugeriram vários percursos. Os dois sempre tiveram claro que “ASA” seria um disco de canções, um disco em que as canções estariam em primeiro plano sem abdicar do vigor do som da banda. Portanto, apesar de ser um trabalho assinado por Gustavo Galo, acredito que “ASA” é coletivo. Decidi muitas coisas. É um fato. Mas também conversamos muito pra chegarmos a este resultado final.

Há várias participações especiais no disco e gostaria muito que você comentasse como foi trabalhar com esse pessoal, especialmente Lucinha Turnbull e Luiz Chagas?
As participações foram vitais para o disco acontecer. Convidei pessoas por quem sou muito apaixonado. E todos eles toparam e se entregaram inteiramente. O Luiz Chagas foi, desde o início, uma unanimidade. Para além de ser um dos maiores guitarristas do Brasil, ele é muito próximo dos meninos da banda. A gravação do lap steel de “seresta” foi decisiva e transformadora para o disco. A partir dali o Zé Pi ficou muito animado e gravou guitarras incríveis. Lucinha Turnbull convidei por considerá-la uma grande artista e instrumentista e também por termos nos tornado amigos de uma maneira muito espontânea. Desde que nos conhecemos passamos a nos encontrar com frequência na casa onde moro, a “casabrasamora”. A Lucinha fez shows incríveis na sala de casa. Chagas e Lucinha são admiráveis e muito generosos. Ambos tem uma estrada linda relacionada à música e continuam abertos e trocando experiências com novos artistas.

Entre as canções do disco estão regravações de dois artistas que o influenciaram muito: o amigo Tatá Aeroplano (em “Cama”) e o ídolo Walter Franco (com “Feito Gente”). Por que eles e por que essas canções exatamente?
Tatá Aeroplano e Walter Franco são dois grandes compositores. Decidi gravar “Cama” por duas razões. Primeiro porque a acho uma pérola fina e depois porque quis fazer uma versão que apresentasse de maneira radical o meu principal desejo com “ASA”, a exposição da canção de maneira crua e direta. Por isso a escolha em gravá-la só voz, violão e trompete. “Eu Te Amei Como Pude (Feito Gente)” é um sonho antigo. Gosto muito do trabalho do Walter Franco. Considero “Revolver” e “Ou Não” grandes invenções. A composição entrou no disco por eu considerar Walter Franco um artista vital no presente e por admirar a afirmação da coexistência entre os contrários, uma postura um tanto heracliteana, presentes na letra. No processo de amadurecimento de “ASA” fui a faca e a ferida, a calma e a revolta, feito gente.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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2 thoughts on “Três perguntas: Gustavo Galo

  1. Eu até gosto dessa geração de bandas e compositores, mas tem um porém: São todos e todas muiiiiiiiiiito parecidos. Os tons e timbres de vozes, as batidinhas rockinho/mpb, as letras…às vezes fica até difícil distinguir quem é quem. Até no visual… As parcerias são sempre as mesmas, o jeito de compor…Falta mais inventividade, algum incômodo, provocação, rebeldia, sei lá…

  2. Todos parecidos? O que Gustavo Galo tem de parecido com Nevilton? com Marcelo Jeneci? com Giallos? com Karol Conka? com The Baggios? com Garotas Suecas? A lista segue.

    Lógico que ele está inserido em um grupo (Trupe Chá de Boldo, Cérebro Eletrônico) do mesmo jeito que Romulo Fróes e o Passo Torto estão em outro (e esse grupo tem particularidades), do mesmo jeito que a cena de Manchester tinha uma cara, uma linha que delineava aquelas bandas, do mesmo jeito que a diferença estética sonora de Caetano, Gil, Mutantes, Tom Zé, Bethânia e Gal praticamente inexiste.

    A coisa toda deveria girar em torno de: É bom? Sim ou não e por que?

    Dai entramos no mérito: “Poxa, não é bom porque parece Cérebro Eletrônico demais”. Ou “É bom porque acrescenta algo a tal coisa”. E por ai, vai. Acho que é uma geração passível de crítica sim (como qualquer outra), e é preciso critica-la tanto quanto enaltecer seus valores.

    Agora dizer que a geração toda é muito parecida? Se a gente fizer um recorte por nichos, sim, vamos encontrar coisas parecidas. Mas do mesmo jeito que você está falando, alguém estava falando em Seattle, 1991: “Puxa, essa cena inteira é muiiiiiiiiiito parecida”. Há diferenças, mas dai depende da boa vontade de cada um de ir atrás das coisas diferentes.

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