Três perguntas: Jair Naves

por Bruno Capelas

A voz pessoalíssima e as letras marcantes de Jair Naves fizeram de “E você se sente numa cela escura…”, seu primeiro disco cheio em carreira solo, um dos grandes momentos dos últimos anos da cena independente brasileira, com destaque para faixas tocantes como a canção dedicada à mãe do cantor (“Maria Lúcia, Santa Cecília e Eu”) ou as baladas sentimentais “A Meu Ver” e “No Fim da Ladeira, Entre Vielas Tortuosas”.

O trabalho, além de fazer o cantor rodar o País, rendeu a ele o prêmio de Revelação de 2012 pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) e inúmeros novos fãs, que não conheceram seu trabalho no Ludovic, uma das principais bandas paulistanas dos anos 00. “Tocar sozinho, só com voz e violão, foi uma das experiências mais transformadoras que eu tive até então”, conta ele na entrevista a seguir.

Agora, o cantor se prepara para lançar seu segundo trabalho, que ele pretende que seja financiado coletivamente pelo público. “Eu não teria meios de bancar outro trabalho por conta própria, especialmente porque esse deve ser um álbum mais trabalhoso. Entre as possibilidades, tentar um projeto de financiamento coletivo me pareceu a mais razoável”, explica Jair, que conta ainda que o disco deve ter participações de gente como Beto Meija (Móveis Coloniais de Acaju), Bárbara Eugênia e Camila Zamith (Sexy Fi). “São artistas com características diferentes das minhas, mas em quem eu percebo grande compatibilidade musical e facilidade de diálogo”, revela.

Para o disco de Jair virar realidade, R$ 28 mil precisam ser arrecadados em pouco mais de um mês até o fim do prazo, no dia 5 de abril (http://catarse.me/pt/jairnaves). Abaixo, o cantor fala mais sobre os planos para o futuro, independência e tenta mostrar porque merece seu apoio, com um passo por vez. Com a palavra, Jair Naves.

Você passou quase dois anos com o teu primeiro disco “cheio” na estrada, tocando em todos os cantos do País, tocando com banda e também sozinho, em formato acústico. Como foi esse período? Ele foi diferente da experiência de estrada que você teve com o Ludovic? E mudou alguma coisa na maneira como você vê o teu trabalho?
O período que se seguiu ao lançamento do meu primeiro disco solo, “E você se sente numa cela escura…”, foi marcado por muitas experiências até então inéditas para mim. Entre elas, essas apresentações que eu fiz sozinho, apenas voz e violão, foram algumas das mais transformadoras. Eu nunca havia feito isso antes, é algo completamente diferente do que eu fazia quando comecei a tocar, como você bem salientou. E embora os shows nesse formato sejam bem mais desafiadores, a conexão emocional que se estabelece com as pessoas quando tudo funciona bem é algo raríssimo de se conseguir em shows maiores. E esse vínculo é algo muito inspirador, forte, comovente. Quando penso no que eu quero atingir com as minhas novas composições, esse tipo de ligação com o ouvinte é a primeira coisa que me vem à cabeça. E isso acabou afetando o resultado das canções, deu origem a uma busca por uma clareza maior nos arranjos e nas letras.

Agora você está prestes a gravar o teu segundo disco, e pediu apoio ao público em um projeto de crowdfunding. Por que essa escolha, nesse momento específico da tua carreira, e o que esse tipo de proposta tem de interessante para um artista independente hoje? Em outras palavras: porque a preferência por esse modelo, no lugar de bancar o disco por conta própria ou buscar o apoio de uma gravadora ou um edital de financiamento?
Quando comecei a idealizar o próximo disco, levando em consideração a sonoridade que eu quero para essas músicas, a forma que me parece ideal de gravá-las e as pessoas com quem eu quero trabalhar, apareceu uma preocupação enorme com relação à viabilidade do projeto. O nosso último registro foi lançado há pouco tempo, menos de um ano e meio, e eu não teria meios de mais uma vez bancar a produção por conta própria – especialmente porque esse deve ser um álbum mais trabalhoso do que o anterior. Entre as possibilidades que se ofereciam, a opção de tentar um projeto de financiamento coletivo me pareceu a mais razoável.

Foi uma decisão arriscada, já que o processo de arrecadação é desgastante e não temos nenhuma garantia de que isso vai dar certo. Ainda assim, vale corrermos esse risco. Temos uma base de seguidores sólida, leal, que cresceu consideravelmente desde o lançamento mais recente. Nunca houve na minha trajetória um momento mais favorável do que o atual para uma iniciativa dessa natureza. Agora é trabalhar e torcer para que a gente alcance a meta estabelecida.

Algo que me chamou bastante a atenção no projeto do disco foi o anúncio que o disco terá participações de gente como a Bárbara Eugênia, o Beto Meíja (Móveis Coloniais de Acaju) e a Camila Zamith (Sexy Fi). Como rolou a conversa para eles contribuírem com o trabalho? E como está sendo para você receber essas pessoas, tanto pela diferença de som que vocês fazem, quanto pelo fato das tuas canções serem muito pessoas e íntimas?
Um dos fatores determinantes para que eu pensasse nesses nomes foi justamente o fato de serem artistas com características diferentes das minhas, mas em quem eu percebo grande compatibilidade musical e facilidade de diálogo. De certa forma, é o mesmo critério que eu utilizei para escolher os excelentes músicos da minha banda (Renato Ribeiro, Thiago Babalu, Rafael Findans e Felipe Faraco), que me acompanham passo a passo na finalização do novo repertório e cuja contribuição é simplesmente inestimável.

Sobre os convidados, fico muito feliz em poder contar com o apoio de pessoas tão talentosas. O Beto Mejia é um músico extremamente versátil e sensível. Além do trabalho com os Móveis Coloniais de Acaju, ele possui um belíssimo projeto solo, onde é possível notar mais ainda as muitas qualidades dele.

Já a ideia de convidar a Bárbara Eugênia e a Camila Zamith veio da vontade de contar com vozes adicionais em algumas das canções. O meu disco anterior não conta nem sequer com backing vocals, é apenas a minha voz o tempo inteiro – o que funcionou muito bem naquela oportunidade, mas dessa vez quero tentar algo diferente. Por isso em pensei em cantoras que tivessem timbres bem característicos, pouco comuns, e que funcionassem bem com a minha voz. Tenho certeza de que a colaboração delas e de tanta gente boa envolvida no processo enriquecerá demais o resultado das gravações.

Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista e assina o blog Pergunte ao Pop.

Leia também:
– APCA elege os melhores de 2012: Jair Naves, artista revelação (aqui)
– Três vídeos: Jair Naves ao vivo no Sesc Belenzinho (aqui)
– Top 5 do Festival LAB, em Maceió, 2012: Jair Naves, melhor show (aqui)
– Entrevista: “Gosto de trabalhar com imagens”, diz Jair Naves (aqui)

3 thoughts on “Três perguntas: Jair Naves

  1. Já tinha pego show (caótico) do Ludovic no tempo que o finado StudioSP era na Vila Madalena, mas a carreira solo do Jair descobri por aqui. Passar lá e fazer minha contribuição.

  2. Parece que rolou!! Dois projetos bacanas lá no catarse com nomes já comentados no blog são o Partiu Vinil !!! com Barbara Eugênia e Chankas em projeto para um som mais vintage e o terceiro álbum (duplo!!!) do Charme Chulo. Bora cooperar!

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