A neura em busca do gênio neurótico

por Mateus Ribeirete

“Se esse é um livro sobre futebol holandês, em algum momento você provavelmente vai se perguntar por que contém páginas e páginas sobre arte e arquitetura, vacas e canais, anarquistas, pintores de igreja, rabinos e aeroportos, mas quase nenhuma palavra sobre, por exemplo, PSV e Feyenoord.”

O passe de Pelé para o gol de Carlos Alberto na final da Copa de 70 é indistinguível de uma poesia de Rimbaud, defende Eric Cantona, ele mesmo um híbrido de ex-jogador, ator e protótipo de filósofo. Longe do francês ter inventado a relação entre futebol e arte, obviamente, e nós brasileiros o sabemos bem. Quando Oscar Cox trouxe ao Rio de Janeiro o balípodo nobre, essa estrangeirice, a alta sociedade só aceitou as pernas descobertas de seus participantes graças à interpretação de que aquilo era praticamente um balé – motivo pelo qual, por outro lado, futebolistas eram desprezados por remadores, já estabelecidos na cultura local. Fato é que, desde sempre, parece haver uma necessidade instintiva, natural e prazerosa em misturar futebol e arte, a sério ou de maneira descompromissada. Quem nunca adjetivou um gol como ‘pintura’ que atire a primeira pedra.

Deixemos de lado, por hoje, as diferentes seleções brasileiras que encantaram, campeões mundiais ou não, e a Hungria da década de 50. Uma metonímia de fronteira borrada entre futebol e arte pode vir do Ajax montado por Rinus Michels e conduzido pelo genial e genioso Johan Cruyff, uma equipe levada quase que inteiramente à Seleção Holandesa vice-campeã das Copas 1974 e 1978. Em “Brilliant Orange: The Neurotic Genius Of Dutch Football” (Bloomsbury, 2000, reedição 2010), o jornalista inglês David Winner parte desse objeto para relacionar a cultura futebolística da Holanda com fatores bastante intertextuais e absolutamente desvinculados do esporte. “Não é tanto um livro sobre futebol holandês quanto é um livro sobre a ideia de futebol holandês. Mais que isso, é um livro sobre a minha ideia de futebol holandês”, a introdução logo crava.

Em suas analogias, o autor procura associar Futebol Total e seus discípulos com a secular ideia de espaço do país, e aí surgem nomes como Johannes Vermeer e Pieter Jansz. Saenredam. Exibindo uma pesquisa aprofundada, Winner navega pela história de Amsterdam; aborda a colonização de Suriname; expõe arquitetura estruturalista e consulta a noção de democracia coletiva do povo, supostamente refletida na “Laranja Mecânica”, sempre em busca de respostas para suas teorias exóticas. Algumas resenhas na Amazon garantem que a obra agrada mesmo a quem não se interessa por futebol. Particularmente, não acompanharia com tanta paciência. Muito se perderia, principalmente em sua segunda metade, na falta de qualquer interesse pelo esporte, como a inevitável caça a uma dúvida recorrente da área: por que a Seleção Holandesa tanto pipoca? Partidas decisivas parecem aterrorizar os atletas laranjas, historicamente. A final da Copa do Mundo 2010, aliás, não fica de fora, em capítulo escrito para reedição.

Embora persiga soluções para seus mistérios, David Winner se assume passional na abordagem. No livro, não se cria a sensação de que há uma tese a ser forçada na cabeça do leitor. Pelo contrário, são apresentados vários pontos opostos à própria tendência, ou vício, de colar o futebol holandês no balé, na fotografia, na política nacional, na arquitetura, etc. As quase 300 páginas vão do Schipol, aeroporto de Amsterdam, ao judaísmo e à coreografia de Toer van Schayk, admirador confesso de Cruyff, a quem se refere como um artista de elegância inconsciente. “E elegância inconsciente é muito mais bela que a consciente”, confirma van Shayk. Por sua vez, Ruud Krol, um dos pilares da era Michels (e assíduo frequentador de museus), afirma que “futebol não é arte – mas há uma arte em se jogar bom futebol”. Forma-se uma base legal para o leitor matutar sozinho, enquanto as páginas de imagens no meio das 280 folhas de papel-jornal servem como cereja do bolo.

Acadêmicos, artistas, atletas, ex-atletas e treinadores contribuem com suas palavras, gerando pequenas entrevistas – com Dennis Bergkamp e Johnny Rep, inclusive -, e um número de citações ótimas. Destaca-se o fotógrafo Hans van der Meer, ele próprio interessado na percepção de espaço e sua consequente atribuição ao futebol. Sua obra, por sinal, não é o que o fã de futebol está habituado, aquilo de closes em celebrações ou em carrinhos entusiasmados. Entra aí o maior mérito de David Winner: mesmo que você não acredite em nenhuma de suas frenéticas intertextualidades, mesmo que suas teorias lhe pareçam absurdas, o livro acrescenta. Seja pelo levantamento histórico, seja pela devoção honesta ao tema. Se o futebol é arte, e se a Holanda, o Brasil, a Hungria ou qualquer gol dramático comprovam isso, cada um responde conforme sua neura.

Mateus Ribeirete escreveu sobre o livro “Ascensão e Queda do Britpop” para o Scream & Yell e integra a equipe do recomendadíssimo Defenestrando -> http://www.defenestrando.com

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