Três perguntas: Giallos

por Eduardo Henrique Lopes

Formado em 2010 como o projeto paralelo roqueiro de uma banda de jazz chamada Otis Trio, o Giallos faz um som que serviria facilmente como trilha sonora para filmes ultra violentos. As letras se confundem com roteiros cinematográficos e a sonoridade é suja e explosiva.

Na bagagem influencia dos dois mundos: música (The Jon Spencer Blues Explosion, The Cramps e o Grinderman) e cinema (Dario Argento, Tarantino, Romero). Na formação, veteranos da cena musical do ABC paulista, Cláudio Cox no vocal, Flávio Lazzarin na bateria e Luiz Galvão fazendo a guitarra. Sem baixista? É, sem baixista.

O primeiro disco, “¡CONTRA!”, foi lançado no final de 2013 – em formatos digital gratuito e vinil – e conta com 10 faixas assinadas pela própria banda (uma delas, “A Maldição do Velho Boca Rica”, em parceria com Edson Ikê) e uma cover do Inocentes, “Medo de Morrer”. Abaixo, Claudio fala mais sobre a banda:

Como é a relação da banda com o cinema? Há citações explicitas e implícitas de Tarantino nas letras das musicas, por exemplo. O Facebook de vocês informa que a banda tem influencias tanto de Jon Spencer Blues Explosion e The Cramps quanto de Quentin Tarantino e Dario Argento…
Dario Argento, Romero, Mario Bava. Ah… a gente gosta, cara. Umas das afinidades é o cinema. Eu e o Flávio frequentávamos o mesmo estúdio, antes de tocarmos juntos (ele também toca no Projetonave). Ele apareceu com uns filmes do Rob Zombie, e eu já tinha os dois (a saber: “Os Rejeitados Pelo Diabo”, de 2005 e “A Casa dos Mil Corpos”, de 2003). Então a gente começou a trocar ideia. Tanto que a banda dos caras chama Otis Trio por causa do personagem Otis (Driftwood), do “A Casa dos Mil Corpos”. O Flávio tem o Otis tatuado na perna! Foi assim que conheci ele e rolou essa afinidade. O Luís também gosta (desse tipo de cinema). Começamos a trocar filmes. O lance dos italianos eles não conheciam. E quem me introduziu nessa parada foi minha mulher, que manja pra caralho de cinema italiano. Eu meio que apresentei o universo italiano desgraceira pros caras. As trilogias do Dario Argento e tal. O nome da banda, Giallos, fui eu que sugeri. Aqui no Brasil as pessoas costumam se referir aos filmes violentos italianos como os “Giallos italianos”. A pronuncia certa é “djálos” (com sotaque italiano). Na verdade esse nome não existe. O certo é giallo (Amarelo em italiano), no singular. O plural de giallo em italiano é gialli, o “s” no final é abrasileirado. E uma coisa que é inegável é o Tarantino. O Tarantino introduziu todas essas paradas pro grande público.

Vocês acabaram de lançar um vinil. Por que vinil? Vocês acham que é o melhor jeito de vender o som hoje em dia? Algo que a galera possa realmente ter fisicamente falando.
Primeiro, assim, a gente é uma rapaziada mais velha. E assim, a rapaziada dessa nova geração é a rapaziada do single, né? Neguinho baixa disco, mas não se preocupa com o disco, só quer saber a musica de sucesso. A ideia nossa é assim: A obra, sabe? O disco fechado. Com tantas musicas e tal. Essa foi a primeira ideia. “A gente tem que lançar um disco!”. Já o lance do formato é uma coisa de paixão. Eu tenho coleção de disco, os caras também. E está rolando essa “facilidade” de prensar disco. É caro pra caralho prensar no Brasil. Lá fora o negocio está super popular. Qualquer banda independente não precisa baixar as calças pra fazer um disco. Então rolou assim: Vamos compor um álbum? Fizemos o álbum. Vamos gravar? Gravamos o álbum. Surgiu a história da coletânea “Cão Faminto“, e eu estava envolvido. Foi nosso primeiro registro oficial, com duas musicas, e era uma rapaziada mais velha querendo fazer uma coletânea. Pensamos: “Pô, vamos fazer em vinil?”. No final das contas a gente conseguiu a grana, foi lá e lançou. Daí deu aquela coisa no Giallos: “Precisamos lançar em vinil essa porra nossa também”. A gente lançou em vinil, mas ele está disponível para download grátis. Não é assim: “Vamos lançar o vinil e foda-se”. Pô, eu sou fã da tecnologia, acho maravilhoso o cara lançar um disco, eu acabar de ler, dar três cliques e baixar a porra do disco. Só que eu compro disco! É logico que baixo muito mais discos do que compro. Por questões financeiras, né? Mas compro disco. E o lance do vinil é exatamente esse. A rapaziada que está lançando disco em vinil é uma rapaziada que tem som mais… alternativo, eu não queria usar esse termo, mas é, alternativo. A música fora dos padrões. As bandas que a gente tem tocado junto tem disco (vinil). E esse foi um impulso. A gente trocou uma ideia com a rapaziada e eles disseram que vende. Tem um cara do Rio, Lê Almeida, com quem troquei uns discos. Ele lança todas as coisas dele em vinil. Assim, tem cdzinho que ele faz caseiro – acho que eu tenho todos da gravadora dele. Ele é um cara pobre, louco que nem a gente, que está na luta pra lançar vinil. Ele lança vinil porque o rolê é esse. A gente vai tocar e tem meia dúzia de gatos pingados. Mas é essa meia dúzia compra o disco. O lance do Giallos por exemplo: a gente lançou e a rapaziada da nossa convivência tudo vibrando: “Pô, eu quero o disco!”. Tanto que a gente liberou o download e o disco demorou pra chegar. Ele era pra chegar no final de outubro e chegou em dezembro. A rapaziada me mandava email: “E aí Cox, chegou o disco?”. E eu: “Não, não chegou. Tá atrasado.” Tem muita gente querendo o bagulho. E é mais ou menos essa a história. E sei lá, pelo lance artístico mesmo. O tamanho da capa…

A musica “El Santo Diesel” tem um potencial radiofônico. Como você vê as bandas independentes tocando nas rádios hoje em dia?
Cara, sou um puta fã de rádio, eu até tenho programa em webrádio. Fui criado ouvindo rádio. Sou duma época pré internet, pré MTV e o cacete, e o nosso veículo de comunicação era rádio. Ouvia a 97 aqui de Santo André, que ficava lá perto de casa. Depois a rádio virou “poperô” nos anos 90. Mas ela foi de grande influencia. A 89 no começo foi uma rádio foda. Fábio Massari trampava na 89, o Walcir Chalas. Sempre fui muito fã de programa específico. O do Massari era de bandas independentes, o do Walcir era de metal. Tinha o backstage com o Vitão na 97 que era de metal também. Então fui criado em rádio. Mas aí aconteceu o que aconteceu, né? Brasil 2000 agora virou web, talvez a gente toque lá. E o que está rolando é assim: não tenho mais contato com rádio comercial ou rádio de dial. Escuto webradio, programas, como na Antena Zero, onde tenho meu programa com minha mulher. É a semana inteira de programas específicos. Segunda feira tem programa de gótico, pós punk. Quarta feira é musica mais indie. Tem programa de ska, programa de rockabilly, programa de não sei o que. Webradio é o lance de agora. Rádio é concessão publica, é uma máfia do caralho. Essa volta da 89… eu fui fã da 89 no começo dos anos 90. Mas hoje não dá pra ouvir. Estou afastado de rádio faz um tempo. Porque tenho outras fontes de música. Mas a rádio é um puta veículo, como TV também é. “El Santo Diesel” é realmente nossa música popular, a gente brinca que é nosso hit. Mas ela tem uma parada louca. A música foi concebida como um jingle. É a nossa única musica que tem refrão. Dentro da história (do disco), “El Santo Diesel” é uma droga. E a música é a propaganda dessa droga. Outra ligação com o cinema: El Santo é um ator mexicano dos anos 60, um lutador mascarado, um dos atores mais populares do México. O cara é o Super Man do México. Tem estátua dele. É sério. E os filmes dele são de super-herói. Tem o filme “El Santo Contra os Monstros” (1970), que é ele contra Frankenstein, Lobisomen… É foda a parada. Na história do disco, um dos personagens é o Ramirez Santiago, que é nosso mentor. E a nacionalidade dele é mexicana. A gente colocou que a droga foi batizada de “El Santo Diesel” porque ele era fã do El Santo – na verdade sou eu que sou fã. E o Diesel é porque no futuro eu imaginei que tudo vai ser elétrico, carro elétrico, bla bla bla. E hoje, qual o ouro de hoje? O diesel, o petróleo, e essas coisas vão ficar obsoletas. Os carros não vão mais funcionar com gasolina. Vai ser com lixo, sei lá, tipo no “De Volta para o Futuro”. Coloca a casca de banana e funciona. E aí o cientista da resistência, que era uma parada do “¡CONTRA!”, que é uma organização que resiste ao regime, inventa essa droga com combustível. Que ela serve para os robôs e para o ser humano. O refrão é assim: “Olha o diesel, El Santo Diesel. Para motores e corações, El Santo Diesel”. É como se fosse um vendedor: “Hey baby, qual é o seu combustível?”. Você logo imagina uma propaganda de TV. É isso. É por isso que ela é um hit. Ela surgiu dessa ideia.

– Eduardo Henrique Lopes (Facebook) assina o blog Juventude Sônica

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