Entrevista: Sidney Gusman

por Leonardo Vinhas

Sidney Gusman é, possivelmente, o nome mais importante para o novo mercado de quadrinhos brasileiros, mesmo que ele seja relutante quanto ao rótulo. Sidney, ou Sidão, como é conhecido, é responsável pelo planejamento editorial da Maurício de Sousa Produções. Como tal, não interfere diretamente na linha infantil de publicações mensais, mas está diretamente ligado à estratégia e edição dos projetos especiais, o que inclui uma série de álbuns que publicaram, em escala nacional, artistas independentes que muitas vezes não tinham mais que um minúsculo público na internet ou em suas regiões origem.

A série “MSP 50” rendeu três álbuns com autores revisitando (e reimaginando) os personagens de Maurício de Sousa de modo bastante particular. E se nessas publicações havia nomes consagrados (Laerte, Angeli, Caco Galhardo, Gabriel Bá e Fábio Moon, dentre outros), abundavam também nomes como Mateus Santolouco, Mario Cau, Wander Antunes, Eduardo Medeiros, Márcio Coelho, André Kitagawa e muitos mais, gente que passava despercebida até pelos consumidores habituais de quadrinhos, que dizer do grande público. O projeto recolocou os leitores adultos na trilha da Turma da Mônica, e ainda teve a façanha de abrir um novo público para estes autores menos conhecidos. Como se fosse pouco, tornou possível a existência de outro projeto, Graphic MSP, em que estes mesmos artistas underground (vamos dizer assim, para facilitar o texto) puderam trabalhar os personagens de Mauricio de Sousa em graphic novels, ou seja, em histórias mais longas e com melhor tratamento editorial.

Foram quatro álbuns da Graphic MSP em 2013 – “Magnetar” (com o Astronauta, por Danilo Beyruth), “Laços” (Turma da Mônica, por Vitor e Lu Cafaggi), “Pavor Espaciar” (Chico Bento, por Gustavo Duarte) e “Ingá”, (Piteco, por Shiko) – e o sucesso comercial e de crítica foi tão grande que a série terá mais seis álbuns: continuações de “Magnetar” e “Laços” pela mesma equipe criativa dos primeiros, além de novos de Turma da Mata (por Greg Tocchini, Davi Calil e Artur Fujita), Penadinho (Paulo Crumbim e Cristina Eiko), Papa-Capim (Marcela Godoy e Renato Guedes) e Bidu (Eduardo Damasceno e Luis Felipe Garrocho), com a promessa de anunciar outros três ainda no primeiro semestre de 2014. A data de lançamento de todos esses volumes ainda não foi definida, e é provável que apenas três deles saiam em 2014, com o restante para 2015.

Além desses, Sidney criou outros projetos, como a “Coleção Histórica Turma da Mônica”, que republica as primeiras edições das revistas “Mônica”, “Cebolinha”, “Cascão”, “Chico Bento” e “Magali” com liner notes e agrupa cada volume em caixinhas especiais; “MSP Ouro da Casa”, em que o time de criadores da empresa teve a chance de tratar os personagens com os quais trabalham de forma autoral; e vários projetos customizados. Sidney também participa das decisões sobre criação de novos produtos, como as miniaturas estilo toy art Gogo’s Crazy Bones – Série Turma da Mônica. Portanto, não é exagero dizer que Sidão é um responsável direto por abrir novas searas num mercado no qual muitos participantes reclamam por mudanças, mas poucos fazem algo por elas. Vale dizer que ele faz questão de ressaltar que “sem o Maurício, nada disso teria acontecido”.

O insight para a criação de tantas novidades não vêm do nada: Sidney é jornalista, com passagem pela redação de vários grandes veículos de banca e pela editora Conrad. Foi um dos poucos jornalistas a seguir escrevendo sobre quadrinhos nos anos 1990, e foi um dos impulsores para o crescimento do site Universo HQ, desde sua criação (em 2000), a fonte mais ampla e confiável para notícias sobre comics no Brasil. Mas apesar disso e do conhecimento enciclopédico sobre sua paixão, não dá para dizer que Sidão é um nerd típico, e não só porque ele é um apaixonado pelo futebol (talvez mais pelo Corinthians que pelo esporte). Sidney Gusman tem o devido entendimento do mercado e de negócios para saber que a paixão é o impulso, mas o que mantém uma publicação impressa são estratégia, trabalho duro, contatos e disposição para mudanças. E estes foram os temas principais da conversa que ele teve com o Scream & Yell numa manhã terrivelmente quente de novembro.

Em entrevista para o Scream & Yell no final de 2013, o Gustavo Duarte declarou que “não existe mercado brasileiro de HQ” – baseado na ideia de que não há muitos que tirem seu sustento do trabalho para essa arte. Inclusive ele fez a ressalva: “fora a MSP, não existe mercado para o quadrinista brasileiro”. O que você acha dessa afirmação?
Discordo do Gustavo. A gente já falou sobre isso, eu e ele. O Maurício já é um mercado. Ele emprega pelo menos 150 artistas do traço que vivem do que fazem, e só do que fazem. Mas é que esses caras não estão fazendo quadrinhos autorais. Mas já dá para falar que há um mercado, sim. Não é grande, mas está em formação. Muitos [artistas de quadrinhos] fazem outras coisas, como freela para publicidade… Mas cara, eu sou jornalista e às vezes faço freela para a Abril, até hoje. Fazer freela não é problema . Estamos muito longe do ideal, que seria que todo mundo estivesse em banca, que estivéssemos lançando 60 livros por mês ao invés de 10… Mas a diferença é muito grande se a a gente pegar o cenário de 10 anos atrás. Antes era um quadrinho nacional a cada três meses, se tanto; hoje saem 10 ou 15 por mês, inclusive em livraria. Tem o Catarse [plataforma de financiamento coletivo]: não é um mercado de banca, é uma pré-venda, na verdade. Mas vai contribuir para uma formação do mercado mais forte.

As Graphics MSP contribuem para formar esse mercado, ou são apenas mais um produto de uma empresa bem estabelecida?
É muito isso, tem essa intenção de formar. Mas sempre falo que não adiantava nada eu bolar o projeto se o Maurício não quisesse fazê-lo. Ele é o principal responsável [pelo projeto das Graphics]. Ele podia muito bem ficar sentando em cima da Turma da Mônica, tipo “tô ganhando meu dinheiro aqui e não encham o saco”. Mas não, ele enxergou a possibilidade que isso abriria mais público para ele, que traria o público adulto de volta, e, ao mesmo tempo – e isso eu acho muito legal – ele tá botando na vitrine um monte de gente a quem ninguém tinha acesso.

Os quadrinhos nacionais ficaram fora do cenário por muito tempo. Depois da Chiclete com Banana [revista editada por Angeli e Toninho Mendes nos anos 1980, que chegou a vender mais de 3 milhões de exemplares], não houve mais nada que tivesse sucesso comercial. E para piorar, a Abril foi diminuindo a produção de seus estúdios de quadrinhos até parar de vez…
Exatamente! Depois da Chiclete foi um hiato de quase trinta anos sem ter quadrinho nacional em bancas! Fora a Holy Avenger [HQ criada por Marcelo Cassaro, Rogério Saladino e J. M. Trevisan], que durou 42 números e foi uma iniciativa muito bem sucedida, não teve mais nada que durasse. Por isso que digo que todo mundo que trabalha com quadrinhos tem um caminho a percorrer, tem a missão de tentar melhorar esse mercado. Sempre falo em minhas palestras que gostaria sinceramente que a Abril, a Globo, a Escala – as editoras que trabalham com venda em banca – começassem a investir em graphic novels nacionais. Está cheio de autores bons precisando publicar, e eles têm coisas boas. As editoras estão numa posição de “sabe, vamos esperar”… Esperar o que?! Ache um caminho. Tente!

A distribuição é uma das questões mais delicadas para esse mercado: nós vivemos em um país de 200 milhões de habitantes, e continua sendo muito caro você distribuir para todo o território nacional. É possível pensar também em mercado brasileiro de quadrinhos que fuja do eixo sul-sudeste?
Esse é o grande desafio. Quando bolei o projeto Graphic MSP, a única coisa que eu falei para o Maurício que era imprescindível – e tive que brigar por isso também com a Panini – foi que o projeto tinha que ir para a banca também, não podia ser só livraria. É legal estar na livraria, é do cacete e tal, mas a gente só vai formar leitor na banca. E rolou! E foi do caralho! A venda aumenta muito e você começa a receber “muito obrigado” do interior de Sergipe, de Goiás, do interior de São Paulo. São Paulo tem sei lá quantas livrarias, mas e no interior? Você vê que o projeto é forte porque ele deu certo nas bancas, e foi lançado em um momento péssimo para elas! As bancas diminuem no Brasil ano a ano, de maneira assustadora. No ano passado [2012] caiu de 30 e poucos mil pontos para 19 mil.

Acredito que existem cidades que nem tem. Morei em Foz do Iguaçu entre 2005 e 2008 e lá tinha UMA banca, mesmo com mais de trezentos mil habitantes.
Exatamente! Estão fechando! Não só as bancas, mas os pontos de vendas – tem supermercado que vende quadrinhos. O mercado passa por um espasmo, mas é o que você falou: é impossível com as tiragens atuais atingir o país inteiro, como atingia nos anos 80. Nessa época, uma revista Abril de super-heróis cancelava se tivesse 35 mil de vendas… Vendas! Hoje não tem tiragem desse número! O público se foi, não se renovou. A dimensão do país é um desafio assustador! A gente não tem a prática tão bem enraizada de compra na internet por causa dos fretes, que são um problemaço para nós. Então a formação do mercado passa sim por uma melhor distribuição, e estamos basicamente na mão de duas empresas – que na verdade viraram uma, a Dinap e Chinaglia são agora [na verdade, desde 2007] a Trilog, e fica difícil, pois não existe uma alternativa [de distribuidor].

Mas essa redução dos pontos de vendas implica também na questão dos preços, o que é outro problema enorme. O cara que comprava HQs quando adolescente ainda é o que compra hoje, agora adulto e com maior poder aquisitivo – justamente porque, como você disse, não houve renovação de público leitor. Então as editoras partem do princípio de que este sujeito tem dinheiro e disposição para gastar, e lançam “edições de luxo”, com capa dura e afins, para produtos que não precisavam desse tratamento caro e refinado…
Sim, tem coisas que não precisam de capa dura mesmo.

Claro. Você não precisa lançar um “Kick-Ass” exclusivamente em capa dura…
(risos) De jeito nenhum!

… e cobrar 60 reais por ele, só para aproveitar o embalo da adaptação para o cinema. Como você vai falar em expandir o mercado se só trabalha um nicho dele?
Aí não tem jeito, é matemática: se a tiragem for alta, consegue um preço bom. Quanto menor a tiragem, mais alto o preço. Fode né? E aí você vai lançar um material desconhecido com uma tiragem alta? Não dá. O desafio do editor, mais do que pensar em baratear, é pensar em como transformar as histórias. Especialmente a Panini, com as capas duras, investe no nicho do nicho, na elitização do cara que tem grana. Eu, como editor, penso da forma contrária. O meu objetivo pode ser utópico, mas quero que quadrinhos infanto-juvenis e adultos voltem a ser meios de comunicação de massa. É por isso que estou fazendo as Graphics MSP. Isso significa fazer um produto que seja palatável para todas as faixas etárias, no qual os personagens sejam apresentados de uma maneira eficiente para quem nunca os leu – como o público da Europa, para quem também vendo meus álbuns. Esses álbuns foram pensados assim, desde o começo. “Magnetar” foi enviado para quatro países. Você tem que pensar fora da casinha. Concebi o projeto para ser publicado fora também e parece que estamos indo no caminho certo. Então hoje, o papel do editor tem que ser esse. Não tem mágica. Mas a equação é difícil. Veja só: imagine que eu e você fizemos um quadrinho. Somos dois desconhecidos, mas temos grana, ganhamos na Mega Sena, temos bala para pagar 30 mil de tiragem e vamos à distribuidora… Ela não distribui! Vão dizer que precisamos ter “X” produtos, cinco ou seis outros produtos. Mas como, se estamos lançando o primeiro?! Às vezes, mesmo com dinheiro, não rola. Então, realmente é difícil. É um limbo do mercado editorial, mesmo quem está nele há tanto tempo não o conhece profundamente.

Mesmo com tudo isso, se for comparar com o que a gente viveu na metade dos 90, que foi um período bem ruim, dá para dizer que o mercado brasileiro está bem melhor hoje, não?
Nos anos 90, a gente não estava nas livrarias! Pô, hoje tem livraria que tem espaço só para quadrinhos. Tem coisas até que eu questiono… (Por exemplo), não curto a ideia da Geek [famosa loja de quadrinhos no Conjunto Nacional, em São Paulo, que é um braço da Livraria Cultura exclusivo para quadrinhos, games e outras “nerdices”]. Não curto tirar os quadrinhos da principal livraria, a Cultura, por onde passam todos os leitores, não só o leitor de quadrinhos. Não quero fazer quadrinho só para leitores de quadrinhos, quero fazer para todo mundo. Essa é minha preocupação maior na MSP.

Em entrevista para outra publicação no final de 2012, o Pedro Herz [presidente do Conselho Administrativo da Livraria Cultura] me contou que a venda de quadrinhos aumentou com a criação da loja segmentada. Um crescimento de mais de 40 %, segundo ele.
É mesmo? Que bom! Tomara então que eu esteja errado. Mas nós temos que olhar também para o cara que entrou na loja para comprar outro livro. Tem HQ para todos os públicos, até para quem nunca leu quadrinhos. Por isso que só dou quadrinhos como presente de aniversário. Mesmo para quem não é leitor. Dá um “Retalhos” [do Craig Thompson] para uma mulher, um “Sandman” [do Neil Gaiman] para um cara que gosta de ler… Você vai fisgar a pessoa, é inevitável. O caminho é justamente esse: expandir o mercado de quadrinhos para quem não é leitor. E com as Graphics eu tenho sentido isso. Muita gente nunca tinha lido uma graphic novel na vida, pois só tinha lido… Maurício de Sousa!

Outra coisa que sobressai nas Graphics MSP é o quanto o direcional “politicamente correto” está ausente. Digo isso porque a “Coleção Histórica Turma da Mônica” traz os comentários do [jornalista e autor de quadrinhos] Paulo Back, sempre pontuando coisas como o linguajar e as atitudes dos personagens com observações do tipo: “isso nunca aconteceria hoje”, “hoje em dia isso não pode ser feito”. E muitas vezes “isso” se refere a coisas inofensivas, como uma criança tomando banho ou usando uma panela sem a supervisão de um adulto.
E “isso” infelizmente vai se repetir, não tem jeito, é um “policy” [política interna] que a gente precisa ter.

Por isso que fiquei tão surpreso com cenas como o Jotalhão abduzido quase em crucifixão em “Pavor Espaciar”, ou com a agressividade das crianças que antagonizam a Turma da Mônica em “Laços”.
Na primeira graphic (“Magnetar”), minha revisora desceu na minha sala com a prova na mão. Perguntei o que tinha acontecido: “Sidney, o Astronauta está pelado!”, ela disse. Falei que sim, ele está pelado, é uma metáfora. E ela: “Mas vai aparecer o pau dele”! Sim, vai aparecer… “Mas, mas, mas… escuta! Ele tá falando ‘droga!’ Nos gibis não pode falar ‘droga’”. Aqui vai falar! Por isso que defendo a sacada do Maurício, ele sabe que isso é vital para buscar o público que ele tinha perdido. No “Ingá” tem uma morte, um feiticeiro é esmagado por um tigre gigante. Então o Mauricio sabe que é necessário a gente soltar algumas amarras. Quanto à “Coleção Histórica”: infelizmente nós fomos muito, mas muito vigiados por ONGs que não têm o que fazer da vida, por uns carolas que ficam gritando: “Tá vendo?! Tá vendo?!” para um quadrinho do Maurício que mostre alguém com um revólver. Somos literalmente vigiados por algumas instituições. Há uns dois anos, o Maurício foi denunciado no Ministério Público por uma ONG queria que o Maurício “ressarcisse todas as pessoas a quem ele prejudicou nos últimos 40 anos com a publicidade dos personagens da Turma da Mônica”. Todas as publicidades da Turma da Mônica passam por mim: a gente não usa imperativo, você nunca vai ver “veja”, “compre”, ou coisas como “só você não tem” numa publicidade da Turma da Mônica. Nunca! Mas para elas (ONGs), basta que tenha publicidade. Então é um policiamento o tempo inteiro. Os leitores não sabem disso. O Maurício fala em uma ou outra entrevista, eu estou falando nessa aqui, mas é um cuidado extremo que a gente toma… Não tem nem “visite o nosso site”, está lá apenas www.monica.com.br. Nenhuma propaganda nossa é voltada para criança, nenhuma vai ter “peça para o papai”. Acho que a publicidade infantil deve ser regulada, mas acho que a criança também tem que conviver com isso. Parece que os pais não sabem falar “não” para os filhos. Cansei de ouvir “não” do meu pai e meus filhos cansaram de ouvir “não” de mim. Por isso digo: é um tempo muito chato esse que estamos vivendo , chato pra cacete!

Virou um mundo bunda-mole, não? As pessoas se ofendem com qualquer coisa, e fica difícil criar algo mais solto.
É um saco! Hoje eu não posso colocar de jeito nenhum o Cascão na lata de lixo. Entendo, só que, cara, eu li isso minha vida toda, você deve ter lido. E você alguma vez se enfiou em uma lata de lixo? Não, né?! Caralho! Nós estamos vivendo um tempo muito chato! Só que, na boa, para cada chato desse, tem um milhão de pessoas muito legais! Que adoram, que curtem e sabem o valor cultural que o trabalho do Maurício tem. É para esse pessoal que a gente tem que trabalhar.

Acho que esse feedback apareceu muito depois do primeiro “MSP 50”, não? E é um feedback tão importante quanto o aumento das vendas.
Com certeza. Mas claro que a continuidade do projeto passava pela venda, não tinha jeito.

É que em certos meios “artísticos” ou “criativos”, há pessoas com problema para admitir que ganhar dinheiro é necessário…
Nossa! Tem gente que acha que é um pecado ganhar dinheiro! Cara, não é problema! O Mauricio me trouxe para cá para trazer dinheiro para ele, e acho que estou trazendo. Só que ele me permitiu também ajudar o mercado, o que eu sempre fiz como jornalista! Hoje tenho o melhor dos mundos! Outro dia o Fabio Yabu disse para mim que sou “o maior editor indie do Brasil”. Eu disse pra ele parar com isso, mas ele me perguntou quem publicou mais independentes que eu nos últimos quatro anos. E cara, é verdade! Não parei para pensar nisso! Eu publiquei 150 caras! Tá lá o Ziraldo, mas tá também o Vítor Caffagi, o Mario Cau, o Danilo Beyruth. Tava uma galera! Dali que saiu todo mundo. Quando propus o projeto para o Maurício, “50 caras desenhando seus personagens no estilo deles”, ele, o Mauricio, entra naquela sala, se debruça naquela cadeira e pergunta: “Você vai cuidar bem dos meus filhos?” (risos). Eu digo: “Vou cuidar como se fossem os meus. Vou editar, falo com os roteiristas e com os autores”. E lembro direitinho: quando começaram a chegar as artes, mostrei a história do Samuel Casal para ele, e ele falou, “Caraca, meu, que é isso?! De onde essa cara teve essa ideia a partir do meu personagem?”. E eu respondi: “Maurício, seus personagens são a base desses caras como quadrinistas, todos leram você e estão pirando com a oportunidade de fazer alguma coisa”. Ele começou a se encantar, disse que fiz ele se sentir desenhista de novo com esse projeto… (pausa). Quase chorei, velho! Pô, sensacional o que ele falou! Não nego mesmo, tenho um puta orgulho de ver várias pessoas que estão lançando álbuns e olha, “Publiquei em um dos MSP 50”. Todo mundo coloca, virou currículo. Tem autor que me liga e fala, “Quem eu tenho que matar para estar nesse livro?” (risos). E aí, isso eu confesso, não foi uma coisa que eu previa… Eu previa que ajudaria o mercado, que seria um sucesso de vendas, o que eu não previa que isso fosse ser um gatilho que o projeto fosse dar para o Maurício, no mercado de quadrinhos, a importância que ele merecia. Pois muitos autores diziam assim: “O Maurício nem gosta de quadrinhos”, “ele não está nem ai para o mercado”, “o Maurício está pouco se fodendo”, “ele quer saber só dele”… E eu sabia que o Maurício gostava de quadrinhos, que era leitor de quadrinhos, mas ele estava escondido como empresário aqui dentro.

Ele ainda aprova tudo que é produzido pela MSP?
Os roteiros de todas as mensais, mais de mil páginas por mês.

Uma das lendas sobre o Mauricio é a de que ele não deixa ninguém escrever nem desenhar o Horácio. É verdade?
Não, não… Para as graphics, o Maurício me pediu para segurar o Horácio um pouquinho, já que é uma coisa muito autoral dele. Mas não é verdade que ele não deixe ninguém mexer. Tanto é que há alguns anos teve um autor que fez uma história do Horácio e o Maurício aprovou. Era o Estevão Ribeiro, que é autor da (tira de HQs) “Passarinhos”, ele tava colaborando [para a MSP] e fez uma história linda! Tanto é que o Maurício disse “que difícil, alguém acertou o meu timing do Horácio”!

Saindo um pouco da Mauricio de Sousa e indo para o Universo HQ. Você não foi o criador, mas teve muito envolvimento para deixar o site como ele é hoje. Porém, temos pouco espaço para os quadrinhos fora desse nicho de pessoas que leem e escrevem sobre. O que seria preciso para ter uma coluna com a abordagem do Universo HQ em uma revista, em um jornal, como parte integrada da pauta?
Quando comecei a escrever sobre quadrinhos, todos os grandes jornais de São Paulo tinham uma pagina semanal ou duas de crítica. Na Folha era Rogério Campos e André Forastieri, e no Estadão Marcel Plasse e Marcelo Alencar. Escrevi pro Estadão, JT, Folha da Tarde e todos eles tinham [espaço para reportagens sobre HQs]. E era vital, se falava de quadrinhos para quem não era leitor de HQs. Durante muitos anos escrevi, fiquei inventando matérias de quadrinhos em revistas que não falavam disso. Eu fiz “Jornalistas dos Quadrinhos”, na Revista Imprensa, analisadas segundo o código de ética da profissão. Destruí o Super-Homem, Homem Aranha… Fiz “os Comilões dos Quadrinhos” para a revista Gula, “os Cientistas dos Quadrinhos” na Superinteressante, “Motoqueiros dos Quadrinhos” na Revista Duas Rodas, “os Heróis Também Transam” na Sexy, eu ficava inventando essas matérias, justamente para levar quadrinhos para o público. O melhor dos mundos seria hoje a gente voltar a ter um espaço de quadrinhos nos grandes veículos, só que as redações dos jornais estão cada vez mais enxutas, hoje quadrinho vai brigar com cinema, teatro, com tudo. Acho que a chance de mudar é justamente com as gerações que estão vindo, uma enorme geração de nerds no jornalismo, quem sabe isso não consiga arrastar mais espaço. A gente tem que voltar a fazer esse trabalho de formiguinha que eu fiz, e já não enxergo mais isso. De verdade. Botei um portfólio embaixo do braço, visitei todas as redações, conversei com todos os caras que editavam quadrinhos, até conseguir minha primeira matéria, que foi na editora Globo, com o Leandro Luigi Del Manto [hoje na editora Devir] na HQ Press, depois emplaquei em vários jornais e nunca mais parei de escrever sobre quadrinhos. Mas hoje o cara te manda um e-mail: “E ai, você pode publicar um texto meu?” A molecada não sabe nem abordar [um editor] hoje! Não sai batendo nas portas, se apresentando, trazendo ideias…

É um saco falar sempre nisso, mas é inevitável: para o grande público do nosso país, HQ ainda é coisa de criança. De onde vem essa associação nefasta? Porque, claro, existe o quadrinho infantil, como existe o cinema, a música, o teatro infantis. Mas não é só isso.
Acho que é especialmente pelo formato. O “formatinho” não é usado no resto do mundo [para HQs]. A gente tem a edição do [personagem] Ronaldinho Gaúcho em várias línguas, e todas em formato americano. Na Europa, a cultura é você começar a ler no álbum. E o “Gibi” [publicação brasileira pioneira de HQs da década de 1950] era um menino né? Então as pessoas falavam (afinando a voz) “gibi”, “gibi”, então isso vem de muito tempo, vai demorar para desarticular esse negócio. Mas tenho visto cada vez menos. Tenho uma historia ótima: uma vez eu fui dar uma entrevista para o SBT no Shopping Plaza Sul, e eu sabia o que ia vir. A primeira pergunta da repórter: “Quadrinhos não é coisa para criança?”. Eu tinha levado “O Perfume do Invisível”, do Milo Manara, abri na cena em que o cara está invisível e come o cu da menina (gargalhadas). Mostrei e perguntei: “Você acha que isso é para criança?”. Ela gritou: “Corta!” (risos). Eu falei: “Agora você não precisa fazer mais essa pergunta!”. Tem quadrinho para todos os públicos.

Você consegue imaginar a MSP fazendo quadrinhos para todos os públicos?

Guardadas as devidas proporções, a gente já faz. Tem coisas que você sabe que não vão aparecer, mesmo nas Graphics. Não vai ter cena de sexo, não vai ter ninguém cortando a cabeça de ninguém. Posso mostrar alguém morto, mas não preciso mostrar o sangue espirrando, essa coisa meio “Preacher” [HQ ultraviolenta de Garth Ennis e Steve Dillon].

Claro. Até porque existe uma coisa chamada “linha editorial”.
Exatamente! No MSP 50, eu falei: “Aqui tem uma regra. Como leitor posso até não gostar, mas como editor, a regra é essa”. Não tem jeito!

E nem é tão cheio de pudores assim, tem aquela história do Ed Benes, com as meninas adolescentes de biquíni na praia…
Lembro que brinquei com ele: “Ed, só não enterra o biquíni na bunda delas” (risos). Eu como leitor adoraria ver, mas como editor… E os autores são supertranquilos. Elas continuam bonitas, sensuais, mas estão dentro da nossa linha editorial. Tem cara que me pergunta: “Mas não vai ter HQ pornô da Tina?”. Não, pô! Dia desses, o Maurício teve uma sacada espetacular. Era uma palestra, auditório lotado, e perguntaram: “Maurício, é a Turma da Mônica Jovem, eles são adolescentes, o Cebolinha e a Mônica não transam?”. A resposta dele foi: “Não sei o que eles fazem entre um gibi e outro”. Fenomenal! (risos) Alguém já viu o Homem Aranha comendo a Mary Jane, o Superman comendo a Lois Lane? Não! Porque não precisa, gente! Pô, que puta fetiche! Quer ver? Então faz um quadrinho pornô! Só não vamos publicar, claro. Mas isso sempre existiu. Outro dia, achei em um site uma HQ pornô da Tina. Cara, o desenho era muito bom! Se eu soubesse quem desenhou, contrataria o cara pra cá.

Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell

Ilustrações e fotos do texto:
– Imagem 1: Arte de Daniel Zeppo para o livro “Sidney Gusman – Ilustrado”, que Sidney ganhou no FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos, e reúne diversos quadrinistas o homenageando.
– Imagem 3: Dois volumes da série “MSP 50”
– Imagem 4: Sidney Gusman e Gustavo Duarte
– Imagens 5 e 6: Novos lançamentos da Maurício de Souza Produções.
– Imagem 7: Sidney Gusman e Mauricio de Souza no palco do 25º HQ Mix, numa foto tirada por Cecília Laszkiewicz.

Leia também:
– Entrevista: Gustavo Duarte -> “A livraria não sabe o que é quadrinho” (aqui)
– “Astronauta – Magnetar”, de Danilo Beyruth, conquista pelo traço detalhista (aqui)
– “Laços”, dos irmãos Vitor e Lu Cafaggi, faz releitura emocional e delicada (aqui)
– “MSP Ouro da Casa”: personagens de Maurício de Sousa ganham releitura (aqui)

12 thoughts on “Entrevista: Sidney Gusman

  1. Caros, ótima entrevista! Sidão sempre rende altos papos e expectativas!
    Estou feliz de ele ter citado um momento importante da minha carreira, a aprovação da hq do Horácio pelo Mauricio.

    Abraço
    Estevão Ribeiro

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