Três CDs: Humberto, Wander e Nei

por Marcelo Costa

“Insular”, Humberto Gessinger (Stereophonica)
Vinte e oito anos após surgir com os Engenheiros do Hawaii num pau de sebo (a coletânea “Rock Grande do Sul”, da finada RCA), Humberto Gessinger estreia solo retomando o contrabaixo e soando como sempre soou numa carreira em que, independente do acompanhamento (Engenheiros, Pouca Vogal, HG Trio), sua personalidade forte sempre saltava aos ouvidos e ditava o tom. Desta forma, é possível destacar faixas avulsas deste “Insular” e distribuir em sua discografia pregressa. “Bora” poderia estar no grande “Varias Variáveis” (1991), ainda que abaixo do nível do álbum, enquanto as gauchescas “Recarga” e “Milonga do Xeque Mate” remetem à fase “Gessinger, Licks e Maltz” (1992). A ótima “Tudo Está Parado” e também “Plano B” parecem outtakes do bom “Surfando Karmas & DNA” (2002) e o Prêmio “Parabólica” (inspirado na pior letra de toda carreira de Humberto) aqui vai para “A Ponte Para o Dia” e seu infame refrão: “Atravessar a travessia”. Vários convidados marcam presença entre as 12 canções, da última formação dos Engenheiros até Bebeto Alves, Rodrigo Tavares, Luis Carlos Borges, Frank Solari e Neil Young, que “empresta” a frase mítica de “Hey Hey My My” – “It’s better to burn out, than to fade away” – para “Segura a Onda, Dorian Gray”, em que Humberto (acompanhado de Nico Nicolaiewsky, do Tangos e Tragédias) admira o personagem de Oscar Wilde enquanto percebe: “Caralho, como estou ficando velho!”. Está, mas continua exatamente o mesmo. Para o bem e para o mal.

Nota: 7
Preço: R$ 35 (no http://www.stereophonica.com.br/)

Leia também:
– Três CDs do Engenheiros do Hawaii, por Marcelo Costa (aqui)
– “Acústico MTV Engenheiros do Hawaii”, por Marcelo Costa (aqui)

“Mocochinchi Folksom”, Wander Wildner (Fora do Lei)
O bardo punk folk está de volta e seu sétimo disco solo reúne oito canções inéditas compostas no verão porto-alegrense e gravadas por um time de luxo. Iluminada, divertida e matinal, “O Breakfast do tio Dylan” abre o lado A do vinil exibindo um Wander Wildner em paz com o mundo, catando laranjas caídas no chão enquanto ouve vinis e observa o sol no cabelo da garota sob um arranjo que traz Jimi Joe na guitarra, Pedro Borghetti no cajón e Arthur de Faria se dividindo entre acordeon, tiple requinto, derbaks e glockenspiel. “Com o Vento ao Seu Favor” é um punk rock acústico movido a pandeirola enquanto “Folksom” – que traz bandolim, gaita e acordeon – e “Enquanto a Terra Girar” são as típicas canções que só Wander mesmo poderia cantar: a primeira avisa que o bardo está caminhando e vivendo “como um Rolling Stone, como um Beatleson, como um Kings of Leon e como um Bat Masterson” enquanto a segunda cita Elvis Costello, Jimi Joe, o show de Joan Jett no Lollapalooza, Robert Shelton e Johnny Rotten. No lado B, “Mocochinchi” (bebida tradicional boliviana) relembra o mítico discurso de David Choquehuanca, ministro de Relações Exteriores da Bolívia – que dizia que 21 de dezembro seria uma data perfeita para deixar de beber Coca-Cola e passar a beber Mocochinchi, marcando, assim, “o fim do capitalismo e o começo da cultura da vida” – enquanto Hique Gomes (do Tangos e Tragédias) toca violino em “O Homem Que Caminha a Noite Toda”. Lançado em vinil, CD e disponível virtualmente, “Mocochinchi Folksom” flagra um compositor meio punk, meio folk, meio hippie, mas totalmente Wander Wildner.

Nota: 7
Preço: R$ 25 o CD, R$ 75 o vinil (no http://www.wanderwildner.com.br/)

Leia também:
– Entrevista (2007): “Não sou cantor. Estou cantor”, diz Wander Wildner (aqui)
– Entrevista (2001): “O futuro continua sendo Vortex”, diz Wander Wildner (aqui)
– Discografia comentada: Wander Wildner, por Marcelo Costa (aqui)

“A Vida Inteira”, Nei Lisboa (Independente)
Financiado em projeto de crowdfunding bancado por 889 apoiadores, “A Vida Inteira”, décimo álbum de Nei Lisboa, quebra um silêncio de sete anos sem discos oficiais do compositor – “Vapor da Estação”, de 2010, circulou apenas em edição limitada para divulgar a turnê em questão – e o flagra como observador crítico do mundo, posição que ele já havia tomado no álbum que o projetou nacionalmente, o excelente “Carecas da Jamaica” (1987), e também no bom “Cena Beatnik”, de 2001. Em “A Vida Inteira” entra em cena um mundo dominado por “telas, as mais novas e as mais belas, em tabletes e janelas, a um toque dos seus dedos para o seu maior prazer”, como adianta a canção que abre o disco (e uma das melhores do álbum), “No Boleto ou no Cartão”. Nei não se mostra à vontade em um mundo em que tudo está à venda “em cem vezes pra pagar” e o cenário também embala “Mãos Demais” (que crítica o mercantilismo da religião) e a levada jazzy da ótima “Publique-se a Versão”, com letra ferina que diz que “todos os demais dissidentes, hoje estão contentes de ajudar, sócios de uma rede social, loucos por um capital”, mas abre espaço para uma delicada canção escrita para a filha de 10 anos, “Dona do Seu Nariz”, e os tradicionais relatos de amores perdidos, como a bluesy “Bife” (“Eu bebo pra lembrar que te amei como um jogo de azar”, diz a letra) e a sarcástica “Por Um Dia” (“Você é uma chata, mas é linda, você é o sol, mas chove ainda”) que destacam uma volta que deve ser comemorada.

Nota: 7
Preço: R$ 30 (no http://www.avidainteira.com.br/)

Leia também:
– Entrevista (2013): “Gostaria de não ser tão rançoso a essas modernidades”, diz Nei (aqui)
– “Cena Beatnik” traz canções que são um belo atestado de independência (aqui)

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Leia também:
– Top 24 filmes de 2013 no Brasil, por Marcelo Costa (aqui)

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