Cinema: Um Toque de Pecado

por Marcelo Costa

China, o mais populoso do mundo, com mais de 1,3 bilhão de habitantes, cerca de um sétimo da população da Terra. Uma república socialista governada pelo Partido Comunista da China sob um sistema que censura o discurso político e a informação, mas, após as reformas econômicas de 1978, apoiada na industrialização, fez do país a nação que mais cresceu economicamente nos últimos 25 anos reduzindo a taxa de pobreza de 53% (em 1981) para 8% (em 2001), embora atualmente enfrente problemas na distribuição de renda.

É um fragmento deste imenso gigante superpopuloso que o cineasta chinês Jia Zhang Ke busca retratar em “Um Toque de Pecado” (“Tian Zhu Ding”, 2013), um grande filme que saiu premiado de Cannes como Melhor Roteiro e se porta como um violento ataque ao capitalismo que tomou o país após a reforma econômica. Na verdade, quatro fragmentos, já que Jia Zhang Ke filma quatro histórias (que se cruzam, embora não se influenciem diretamente) reais retiradas de páginas policiais sobre pessoas em diferentes regiões do país afetadas pelos desvios do modelo econômico.

“Um Toque de Pecado” começa de forma chocante emulando Tarantino: um homem admira uma cena caótica (um caminhão de tomates capotado em uma estrada) enquanto outro, em uma moto, passa por ele após se livrar de uma tentativa de assalto em que ele fora cercado por três jovens na estrada, mas se livrou facilmente metendo uma bala em cada um. O destino destes dois personagens, retratos de uma China que não se vê nos noticiários internacionais, será traçado conforme a história se desenrola.

Na primeira delas, um minerador furioso se revolta contra a corrupção dos líderes de seu povoado. A mina que movimentava a cidade foi vendida ilegalmente, e a situação do povoado é descrita assim: o diretor da empresa que coordena a mina acaba de comprar um avião, e os empregados que forem recebê-lo no aeroporto ganharão um quilo de trigo como recompensa. Revoltado, ele começa a importunar os chefões, até levar um “corretivo”, ir parar no hospital, onde irá ser subornado para ficar calado.

No entanto, nosso amigo não é lá tão corruptível, e, entre o caminho do bem e o caminho do mal, opta pelo segundo: já que não é possível conseguir justiça pelo Governo, que a justiça seja feita pelas próprias mãos. “Vou ser pior que ele”, promete para uma pessoa de família, e sai com uma 12 em punho manchando de ketchup o pacato cenário local. É a redenção pela violência, e Zhang Ke não titubeia ao mostrar seu serial killer, ensanguentado após estourar os miolos do chefe, sorrindo para a câmera com a sensação de dever cumprido.

Há muito mais violência (não tão) ”gratuita” (assim) em “Um Toque de Pecado”, mas suas passagens mais chocantes são aquelas que não necessitam de tinta vermelha, como a história da recepcionista de uma casa de massagem que é assediada por um cliente que, ante a negativa da moça, bate nela com um maço de dinheiro, e, principalmente, a do garoto pobre que pula de subemprego em subemprego até encontrar um de recepcionista em um bordel de luxo, apaixonar-se por uma jovem garota de programa, e perceber que não há futuro na China.

Uma das várias cenas emblemáticas de “Um Toque de Pecado” mostra a população de uma vila montando um pedágio para cobrar dos caminhões que seguem para a construção de um aeroporto aquilo que os governantes não fazem: “Os caminhões estão destruindo as ruas”, diz o responsável pelo pedágio. Após muita insistência, o motorista (um funcionário da empresa) decide pagar, e pede um recibo. “Recibo? Deem o recibo para ele”, orienta a quatro homens, que partem pra porrada contra o motorista do caminhão. É o capitalismo criando suas regras.

Filme obrigatório , “Um Toque de Pecado” soa como um manifesto ao mostrar quatro personagens interessantes que sofrem com a falta de regulação de um sistema econômico, e, por isso, caminham a margem da sociedade até se transformarem (e transformarem outras pessoas) em estatística. Devorados pela corrupção, eles são levados ao pecado, embora o pecado seja muito mais mérito de um sistema em que a vida de uma pessoa vale pouco comparada ao dinheiro do que deles mesmos.

“Os deuses são os culpados”, acusa um dos personagens em certo momento da história sem perceber que os culpados somos nós mesmos. De forma genial, Zhang Ke flagra o homem sendo devorado por sua própria ganância e falta de humanidade num filme essencial.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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