Três perguntas: Stela Campos

por Marcelo Costa

Stela Campos lançou quatro discos em 10 anos (”Céu de Brigadeiro”, 1999, “Fim de Semana”, 2002, “Hotel Continental”, 2005, e “Mustang Bar”, 2009 – todos liberados para download aqui), mas seu lado de compositora compulsiva nunca tinha vindo à tona, até agora, momento em que a cantora lança “Dumbo”, um disco de canções órfãs de várias fases de sua carreira, retrabalhadas em estúdio em 2012 ao lado de canções novíssimas na companhia de Diogo Valentino (que assumiu a produção), Mancha Leonel e Filipe Giraknob.

“Mostrei 33 músicas no primeiro encontro”, ela conta. “Na verdade, tenho várias caixas de fitas K-7 que ainda não foram exploradas e tampouco digitalizadas”, avisa. Do Baú da Stela saíram 11 canções para “Dumbo”, que está sendo lançado em vinil: “Ainda tive a vantagem de poder pensar o lado A e lado B, um exercício criativo extremamente prazeroso”. Quatro faixas que ficaram de fora vão se transformar em um EP a ser lançado em breve. Já o restante do material poderia, segundo ela, render um “Dumbo 2, 3 e 4”…

Além de dois integrantes do Supercordas (Diogo e Filipe) e Mancha Leonel, “Dumbo” conta com participações de Lulina, Juliana R., Laura Wrona, Leo Monstro, Bernard Symon, Clayton Martins e Guri Assis, responsável pela guitarra solo em “Unkind”, uma das faixas novas, “além da palhinha ultra-especial do meu filho Vitor (de 9 anos)”, em “Candy Shop Fire”. Abaixo, três perguntas mais um faixa a faixa de “Dumbo” comentado por Stela:

Como foi a adaptação a essa formato de gravação, em que a Stela Campos instrumentista, mais presente nos discos anteriores, ficou observando / admirando o trabalho dos músicos em estúdio? Como é essa sensação, que soa nova pra você?
Foi um processo bem diferente mesmo. Saí de férias, deixando as vozes guias e as bases de violão para os meninos, quero dizer o Diogo Valentino, Mancha Leonel e o Filipe Giraknob, começarem a ir viajando por cima, com a intenção de começar o trabalho de verdade na volta. Uma semana depois, na praia, recebo um e-mail com uma primeira leva de canções praticamente prontas. Poderia ter pensado “como assim? Quero tocar também!”, mas ficou tudo tão bom que só pude ficar feliz pelo disco estar em boas mãos. E, afinal, a razão de eu ter chamado o pessoal para a produção foi o fato de o Supercordas ser uma das minhas bandas favoritas da atualidade. Deu tudo certo: eles entenderam bem o espírito das demos, respeitaram minhas ideias, alguns pré-arranjos que eu tinha feito e deram um grande “improve” no material. Tive muita sorte de trabalhar com eles.

Como rolou a decisão de lançar “Dumbo” em vinil? Na última conversa nossa (2010) você tinha meio que desistido da mídia CD e chegou a disponibilizar alguns lançamentos (EPs e singles) para download gratuito. Onde entra o vinil nessa história toda?
Particularmente, não tenho nada contra CDs. Como mídia física, o CD ainda tem suas vantagens: é mais prático, não risca fácil e, sobretudo, custa bem menos. Tanto em termos de consumo, quanto de prensagem. Mas sabemos que é uma mídia muito desvalorizada hoje em dia, a ponto de não valer o investimento. No entanto, sou uma colecionadora de discos à moda antiga e sinto falta da edição física. Assim, o vinil veio como uma opção natural. Está rolando um revival muito bem vindo da velha mídia, que sempre achei superior. Especialmente quanto ao impacto visual. Me lembro o quanto ficava hipnotizada olhando as capas dos meus primeiros LPs. Esta imersão sensorial meio que se perdeu com o CD. Quando eu vi o quanto tinha ficado linda a arte de “Dumbo” (da Juliana Pontual), me convenci de vez que precisava prensar em vinil. Assim ainda tive a vantagem de poder pensar o lado A e lado B, um exercício criativo extremamente prazeroso. Na verdade, tive também que deixar umas quatro músicas de fora devido à limitação de tempo do vinil, que só comporta 40 minutos. Mas acho que no fim ter feito um disco mais enxuto foi muito bom. As músicas que sobraram vão virar um EP bem bacana, em breve.

“Dumbo” é uma coleção de canções órfãs de várias épocas: como foi para você dar uma unidade a um repertório de composições feito em um espaço de tempo mais esparso? E além de “Mogli”, ficou muita coisa ainda no Baú da Stela?
A unidade vem de dois fatores. Primeiro, as canções redescobertas se integram ao meu estado de espírito atual e ao tom das novas composições (“Work”, “Unkind”, etc). Segundo, todas as letras foram feitas ou completadas às vésperas da gravação do disco. Eu nem sinto o “Dumbo” como uma coleção de canções antigas, embora seja (em maior parte). Faixas como “Be a Bad Son”, rascunhadas em 1996, 1997, soaram como uma completa novidade para mim. Eu não me lembrava de jeito nenhum de ter feito elas.

Quanto ao baú, sim, tem mais coisas. A ideia era fazer um disco duplo, mas ficaria muito caro. No primeiro encontro com o Diogo e Filipe, mostrei junto com o Luciano Buarque, meu marido e parceiro em todos os discos, mais de 33 músicas. Na verdade, tenho várias caixas de fitas K-7 que ainda não foram exploradas e tampouco digitalizadas. O material desse disco (e do que sobrou) veio de apenas dois tapes. Acho que poderíamos fazer o “Dumbo” 2, 3, 4, mas o próximo passo é maturar as canções em português que temos juntado desde “Mustang Bar”. Vamos ver…

“Dumbo”, Faixa a faixa (por Stela Campos)

– “Be a Bad Son” – Eu já tinha o repertório de “Dumbo” pré-selecionado, mas resolvi vasculhar uma caixa de cassetes antigos. Logo na primeira fita que peguei, encontrei dúzias de esboços que eu nem imaginava que existiam. “Be a Bad Son” é uma dessas faixas. Um folk rock nervoso, com certeza composto sob a influência da PJ Harvey.

– “Candy Shop Fire” – Nos meus discos anteriores, prevaleciam pequenas crônicas, histórias sobre personagens fictícios ou não. “Dumbo” muda esse padrão: todas as letras são confessionais, a maioria composta em primeira pessoa. O Luciano Buarque compôs esta nova canção, aproveitando um refrão antigo meu: o “pa pa pa” onde se ouve as vozes de Lulina, Laura Wrona e Juliana R, além da palhinha ultra-especial do meu filho Vitor (de 9 anos).

– “She’s Leaving Town” – Esta eu compus em meados de 2004 e pensei em inclui-la no “Hotel Continental” e, depois, no “Mustang Bar”. Demorou a sair da gaveta, mas ficou etérea e rústica como eu queria. É uma das minhas favoritas – e também uma canção-pivô deste projeto.

– “Traveling Man” – Outra que eu não lembrava que existia, recuperada de um programa que fiz na TV pernambucana. Tem um feeling de estrada, ensolarado; meio George Harrison. Adoro os slides e os timbres de clavinete que o Diogo Valentino usou.

– “Unkind” – Uma das novas. Minha demo era mais intimista, só voz, violão e delays. O Diogo fez essa completa reinvenção, inserindo beats e texturas intricadas – e eu aprovei totalmente.

– “Are You Mad At Me?” – Diferente dos meus outros discos, em “Dumbo” eu não toquei muitos instrumentos – ou melhor, quase não toquei. Gravava as bases e quando voltava ao estúdio, os meninos (Diogo, Mancha e Felipe) já haviam viajado um monte em cima das músicas, sempre com resultados irretocáveis. Em “Are You Mad At Me?”, no entanto, eu quis preservar o tom lo-fi da minha demo original. Gravei o 2º violão e os synths, exatamente do jeito que costumo fazer em casa.

– “I Walk Alone” – “Dumbo” seria um álbum duplo, porém tive que abortar a ideia para não encarecer o projeto. Parte do material que acabou não entrando era mais tenso, pesado – deveria aparecer num segundo disco que apelidamos de “Mogli”.  Já testada em alguns shows, a antiga “I Walk Alone” (de 1997) é uma das que sobreviveram ao repertório final.

– “Red Alert” – Tirada da mesma fita onde enconrei “I Walk Alone” – na verdade, a “Red Alert” do k7 também vinha logo na sequência. Era um folk bem rústico, lírico, mas voltou em versão turbinada com Diogo e companhia.

– ‘Take Me Back To Planet Earth” – Uma das músicas do Luciano Buarque selecionadas para o já comentado “Mogli”. O Clayton Martin apareceu no estúdio, tocou bateria e criou aquele interlúdio inusitado que soa como o momento de redenção do personagem da canção – a seção “dos anjos”, como chamamos internamente.

– “Dumbo” – o título engloba o conceito das canções “órfãs”, por isso a escolha. Da mesma safra de “She’s Leaving Town”, soa como um mantra espacial. Léo Monstro colaborou com teclado; Lulina, Laura Wrona e Juliana R se juntaram ao coro psicodélico.

– Work – Outra favorita. Foi uma das últimas que fiz para “Dumbo” e traz um dueto com Juliana R. Tem um clima perfeito de encerramento, na minha opinião.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Leia também:
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