Stoner brasileiro: Que barulho é esse?

por Eduardo Henrique Lopes

O Brasil vem se revelando um grande talento para o Stoner Rock. São diversas bandas de diversos estados fazendo esse som que mistura guitarras texturizadas e distorcidas por pedais fuzz, uma atmosfera que é ao mesmo tempo psicodélica e densa, e principalmente com muito peso. Sem esquecer do uso do hipnótico riff de guitarra, que é a cereja do bolo para o Stoner Rock.

Influenciados pelor rock dos anos 70 de bandas como Black Sabbath, Budgie, Hawkwind e por nomes da cena norte-americana do final dos anos 80 como Melvins e Mudhoney, o rótulo nasce com uma banda do sul da Califórnia chamada Kyuss, que contava com os futuros membros da banda – mais mainstream do Stoner – Queens of the Stone Age, Josh Homme, Nick Olivieri e Alfredo Hernandez (os dois últimos, hoje ex-QOTSA). O nome do Queens nasceu de uma piada com o rótulo Stoner, o qual tanto o Kyuss quanto o Queens sempre rejeitaram. Eles são as “rainhas da era do Stoner”.

O Kyuss se formou em 1987 e era famoso por fazer shows/festas no deserto, as chamadas Desert Parties, onde a banda tocava para um público “legalize” que “viajava” ao som da banda. Simplesmente porque não havia casas de show na região onde a banda pudesse tocar. Talvez tenha sido daí que veio o termo Stoner Rock, traduzido para o português macarrônico como Rock Chapante.

Numa definição pessoal, Stoner é uma viagem psicodélica através da distorção gerada pelos amplificadores. Há varias bandas responsáveis pelo nascimento do estilo como o próprio Black Sabbath, o Pentagram ou o Melvins, mas o rótulo em si nasce com o Kyuss. O termo, no entanto, faz fronteira com diversos outros estilos. A galera que era mais pesada virou Doom Metal, os que iam um pouco mais rápidos viraram Stoner Metal, os que iam absurdamente devagar viraram Drone Metal.

Alguns confundem Stoner com Grunge, e de fato os dois se parecem bastante. O primeiro álbum do Nirvana tem cara de Stoner e muitas músicas de Soundgarden e Alice in Chains tem a pegada das bandas do sul da Califórnia. O que acontece é que são duas cenas musicais que têm influencias parecidas, mas uma se encontra em Seattle (onde chove o tempo inteiro) e outra na Califórnia (onde o tempo é quente e seco, um deserto). Pode-se dizer também que o Grunge está mais pro Punk e o Stoner tende mais ao Metal.

Segundo Jack Endino, produtor de algumas das maiores pérolas musicais da cena de Seattle nos anos 80/90 – como o primeiro álbum do Nirvana, “Bleach” – Stoner nada mais é do que o rock dos anos 70 continuado. O que ele quis dizer é que o rock dos anos 70 estava seguindo numa direção de “peso”, até que o progressivo dominou a cena trocando o peso pela técnica, em canções longas e bastante trabalhadas. Diferente do Grunge, o Stoner poucas vezes chegou ao público de massa.

Está mais que comprovado que o Black Sabatth é o pai do metal, mas à medida que o estilo foi crescendo e evoluindo se afastou de suas origens. E só nos anos 90 o Stoner veio para retomar essa sonoridade inicial do metal: cadenciado, obscuro, denso. Herdeiros legítimos do Sabbath.

No ensolarado Brasil a primeira banda a receber o rótulo de Stoner Rock foi o Evil Motor, banda carioca formada no ano de 1994. As influencias são basicamente as mesmas das bandas norte-americanas, além de incluir as próprias (Kyuss, Fu Manchu). Há muita polemica em torno do título “Primeira banda do Stoner Rock brasileiro”, mas o Evil Motor nunca ligou para isso, nunca quis carregar esta bandeira.

Ainda nesta primeira leva de bandas Stoners surge o MQN na cidade de Goiânia, em 1997, para se tornar uma das maiores bandas do underground nacional, parte por seus discos pesados e de alta qualidade, parte por seus shows explosivos onde há uma grande interação com a plateia – com direito a banhos de cerveja em quem estiver mais perto do palco – e seu som pesadíssimo. Os goianos são peça fundamental na criação de um cenário musical na cidade, arrebatando milhares de fãs e servindo de influencia para praticamente todo músico que é adepto do rock na região. É muito comum os músicos de Goiânia dizerem que começaram a tocar por causa dos shows do MQN.

O MQN encerrou as atividades após 15 anos de banda, em 2012, mas não por conta do desgaste dos integrantes, como é mais comum, e sim porque o baterista da banda iria morar nos EUA. Ao invés de recrutar alguém para substituí-lo, decidiram acabar com a banda (pelo menos por enquanto). As pessoas da cidade brincam que a data do ultimo show do MQN deveria virar feriado.

Em 2003, o Queens of the Stone Age lança “Songs for the Deaf”, disco elogiado que conta com Dave Grohl (Nirvana / Foo Fighters) na bateria e Mark Lenegan (Screaming Trees) dividindo os vocais com Josh Homme, entre outros, que aumenta a fama que a banda havia conseguido com o multiplatinado “Rated R”, lançado em 2000. Finalmente o Stoner havia saído do underground (e do deserto) e sido apresentado para milhões de pessoas. Na votação de Melhores Discos dos Anos 00 do Scream & Yell, “Songs for the Deaf” foi o quarto álbum mais votado (ficando atrás de Arcade Fire, Wilco e Strokes, um quarteto de respeito).

O sucesso alcançado pelo QOTSA serviu de ponto de partida pra quem gostou do estilo da banda e teve vontade de conhecer outras com sonoridade parecida. Isso fez com que viesse toda uma nova geração de bandas influenciadas pelas guitarras lindamente timbradas de Josh Homme e outros pilares do Stoner, como Monster Magnet, Truckfighters, Sleep e Orange Goblin. Inclusive aqui no Brasil.

Entre os vários nomes brasileiros, um que surgiu no meio dessa onda foi o Black Drawing Chalks, banda conterrânea / pupila do MQN, que alcançou fama nacional e internacional, participando de grandes festivais ao redor do mundo. Parte da fama veio por conta do excelente clipe de “My Favorite Way”, produzido e desenhado pela própria banda, onde todos os integrantes são designers. A canção, inclusive, foi eleita música do ano pela revista Rolling Stone Brasil.

O clipe de “My Favorite Way” é uma animação lisérgica que lembra o clipe “Go With the Flow”, do QTOSA. Com ele, o Black Drawing Chalks ganhou prêmios, destaque na Mtv Brasil e no cenário nacional. Hoje em dia, o grupo não se identifica apenas como uma banda Stoner. Com o lançamento do álbum “No Dust Stuck on You”, a banda mostrou uma nova gama de influencias, que acrescentou e fez crescer o som da banda, tornando-se uma das referencias nacionais na categoria som pesado.

Outra banda interessante são os mato-grossenses do Fuzzly. Com um andamento musical mais lento e um som mais denso do que os Black Drawing, a banda está por aí desde o começo dos anos 2000. Tem três álbuns lançados e uma coleção de turnês na bagagem, inclusive chegando a morar na Argentina durante um tempo, de tão boa que foi a aceitação da banda na terra dos “hermanos”.

Nome recente no cenário Stoner nacional, o Far From Alaska vem arrebatando público após ganhar, via concurso, o direito de tocar no Festival Planeta Terra 2012. Parte do hype da banda vem de um elogioso comentário que Shirley Manson, vocalista do Garbage, fez sobre eles no Facebook, tempos depois da banda entregar um CD para a cantora no Planeta Terra. Ela ouviu, gostou e elogiou. O assunto repercutiu valorizando uma banda que vem do Rio Grande do Norte e trás na bagagem influencias das mais variadas, como a banda norte-americana experimental/progressivo The Mars Volta, e o grupo de Jack White junto com a vocalista do The Kills, Dead Weather, que faz com a banda percorra por diversos campos na hora de fazer seu som. E não soe apenas como Stoner.

É interessante notar que diversas bandas do Stoner Brasileiro também vem do deserto. Só que neste caso é o deserto nordestino. Seria o Stoner o som do deserto? Independente disso, o fato é que existem as mais diversas bandas de Stoner tocando pelo Brasil, apesar de que a maioria não se rotula apenas como Stoner Rock, o que levanta a questão: há uma sensação de limitação no próprio som? Incomoda soar como um subproduto norte-americano? Ou ainda a mesma sensação de fazer Grunge e não vir de Seattle, de não pertencer àquela determinada cena? Se até o criador do estilo recusou o rótulo…

O importante é que o estilo já faz parte do nosso repertorio musical, e está em nossas referencias na hora de fazer um som. Não é mais privilégio apenas dos norte-americanos saber/sentir o que é Stoner Rock. No final de 2013 foi fundado o selo/ distribuidora / produtora de shows chamado Stoned Union Doomed, que tem o intuito de promover o Stoner / Doom Metal Brasileiro. Para 2014 eles estão planejando lançar duas coletâneas com bandas de norte a sul do país. Diversos nomes já marcaram presença.

Abaixo uma lista de algumas bandas que podem ser consideradas Stoner do Brasil:

Mad Grinder (RN)
Saturn (SP)
Black Drawing Chalks (GO)
MQN (GO)
Necronomicon (AL)
Evil Motor (RJ)
Fuzzly (MT)
AMP (PE)
Far From Alaska (RN)
Walverdes (RS)
Fat Divers (SP)
Grindhouse Hotel (SP)
Carro Bomba (SP)
Hellbenders (GO)
Monster Coyote (RN)
Dalva Suada (PB)
BillyGoat (RJ)
Into The Dust (DF)
Son of a Witch (RN)
Cocaine Cobras (CE)
Letters From (RJ)
Spiritual Void (RJ)
Duowolf (BA)
Witching Altar (PE)
Mondo Bizarro (PE)
Flaming Moe (SP)
Saturndust (SP)

E também um documentário sobre o estilo que vale muito a pena:

– Eduardo Henrique Lopes (Facebook) assina o blog Juventude Sônica

24 thoughts on “Stoner brasileiro: Que barulho é esse?

  1. Acrescentaria as bandas (algumas ainda na ativa e outras nao) de SP a lista: Vincebuz, Agua Pesada, Fusarium, Projeto Trator, Asterdon e Caimbra.

  2. No dia que Far from Alaska for “Stoner”, Black Sabbath é Death Metal. É tipo aquelas tentativas de juntar um monte de bandas num mesmo contexto por que elas estão num atendência, como o grunge. Bem fraca essa matéria, o estilo já existia bem antes que Kyuss.

  3. Valeu galera por lerem o texto!
    Muito importante a adição dessas bandas que vocês estão falando.
    Percebe-se que tem muita gente fazendo e muita gente interessada pelo Stoner Rock brasileiro.

  4. Temos uma page no facebook sobre Stoner rock
    Há quase uma semana compartilhamos essa materia da scream and yell

    Curtam a page, tentamos nos focar nas novidades sobre as bandas nacionais e priorizar o underground! Ideias e sugestões são bem vindas, o importante é a música.
    se tem banda, contate-nos!

    http://www.facebook.com/stonerheadrock.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *