Boteco: Quatro cervejas com fruta na receita

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por Marcelo Costa

A Binding-Brauerei surgiu em 1870 em Frankfurt, e se notabilizou por ser a primeira cervejaria a fabricar boa Weiss fora da Baviera. A Schöfferhofer Hefeweizen-Mix Grapefruit, porém, é uma versão diferenciada da casa porque une 50% da Schöfferhofer Hefeweizen mais 50% de suco de Toranja. Com 2.5% de graduação alcoólica, a Schöfferhofer Hefeweizen-Mix Grapefruit exibe uma coloração alaranjada e uma espuma de média formação e curta permanência. No aroma, a união do cítrico da Toranja com o malte de trigo remete a… Fanta Laranja, em notas que remetem não só a toranja, como também a tangerina e acerola. O paladar levíssimo faz parecer que estamos diante de um refrigerante de laranja, com uma leve sugestão de lúpulo, que quase passa imperceptível diante da força cítrica. O final é cítrico e alaranjado enquanto o retrogosto traz frutas cítricas e resfrescância. Muito boa no que se propõe, que é ser um refrigerante de cerveja.

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A cerveja Radler, sucesso em vários países da Europa, é uma bebida que, a grosso modo, surge da mistura de cerveja pilsen com suco de limão resultando em uma bebida de baixo teor alcoólico (apenas 2% nesta versão da Kaiser) e bastante refrescância. A Heineken vem investindo pesado na popularização do estilo, e neste ano lançou no mercado português uma boa representante, a Sagres Radler, que além de limão traz laranja, lima e acerola. No caso da versão brasileira, a receita da Kaiser Radler une água, malte estilo pilsen, açúcar e suco concentrado de limão (numa proporção de 40% de cerveja e 60% de suco). De coloração esverdeada, a Kaiser Radler apresenta uma espuma branca de baixa formação e pouca permanência. No aroma, notas cítricas (notadamente, limão) dominam o conjunto com quase nenhuma percepção do malte pilsen. O paladar acompanha o aroma, mas nele é possível perceber a cerveja tanto quanto o açúcar. O final é cítrico e refrescante enquanto o retrogosto reforça o suco de limão.

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Hoje integrante do império Anheuser–Busch InBev, a Belle-Vue Brewery é uma cervejaria de Bruxelas fundada em 1913 e especializada na produção de lambics, cervejas de fermentação espontânea, adocicadas em quatro estilos: Belle-Vue Gueuze, Kriek Classique, Kriek Extra e Raspberry. A Belle-Vue Kriek Classique é a uma Gueuze que, após ser envelhecida por três anos em barris de carvalho, recebe extrato de cerejas e continua maturando por mais um ano (o que a diferencia das duas radlers anteriores, já que elas recebem a adição do suco da fruta após a cerveja estar pronta, enquanto a kriek recebe adição de cerveja no meio do processo). De coloração vermelha, a Belle-Vue Kriek Classique exibe um creme com feixes avermelhados, de boa formação e permanência. A cereja domina o perfil aromático com notas frutadas e adocicadas que remetem à fruta, mais acidez moderada (remetendo a limão). O paladar reforça o que aroma anuncia, ainda que o dulçor seja mais elevado do que a expectativa. O final é ácido, frutado e adocicado enquanto o retrogosto traz uma cesta de frutas vermelhas.

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Uma das melhores cervejarias nacionais, a Wäls vem apostando em misturas inusitadas, seja uma farmhouse ale com caldo de cana (Saison de Caipira), seja uma witibier com baunilha de Madagascar e alfarrobas (Wäls 65 Anos Pão de Açúcar), as duas dividindo opiniões. A nova aposta dos mineiros tira os olhos da Europa (pero no mucho) e mira nos EUA criando uma Belgian IPA com levedura belga e adição de doce de abóbora, lançamento especial para o Dia das Bruxas do clube Have A Nice Beer. Há aqui uma confusão de estilos: toda cerveja que recebe fruta durante a fabricação pode ser considerada uma fruit beer, mas as ramificações ajudam a definir melhor o perfil de cada grupo (Radler, Kriek). Em 1994, com o sucesso da Dogfish Head Punkin Ale, a Brewers Association decidiu incluir o verbete Pumpkin Ale em seu manual porém, uma Pumpkin Ale é uma cerveja que recebe adição de abóbora, mas a base pode ser a mais variada possível. No caso da Wäls, é uma Belgian India Pale Ale, que deve ser apresentada como uma Belgian Pumpkin IPA.

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De coloração acobreaba com feixes alaranjados, a Wäls Abróba exibe um creme bege de ótima formação e longa permanência. No aroma, o duplo dry-hopping distribui uma cacetada sensacional de lúpulo cítrico, com sugestão de laranja e acerola. Ainda é possível perceber notas herbais (pinho e resina) e uma base caramelada de malte, e, muito levemente, o doce de abóbora. O paladar, por sua vez, traz os lúpulos cítricos comandando o primeiro ataque com bastante frutado (laranja, acerola, mamão), sensação de acidez, picancia e amargor elevado (não a toa, são 93 de IBU e 9% de álcool). Assim que as papilas se acostumam com a porrada é possível sentir o caramelo do malte, o doce de abóbora (ainda que tímido) e uma sugestão herbal (novamente pinho e resina, principalmente do meio para o final). O final é maltado, cítrico, levemente amargo e com um toque de abóbora (é o momento em que ela mais aparece na receita) enquanto o retrogosto traz amargor, amargor, amargor e malte. Talvez decepcione quem esperava por uma Pumpkin Ale, mas vai agradar lupulomaniacos em geral.

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Balanço

Uma das boas surpresas do curso de sommelier que fiz no primeiro semestre de 2013, a Schöfferhofer Hefeweizen-Mix Grapefruit não é considerada cerveja na Alemanha (a Reinheitsgebot não permite), mas sim um mix, ou um drink de cerveja. No curso, fizemos uma harmonização dela com pão na chapa e melão, e foi um sucesso. É uma Radler indicada para o café da manhã ou mesmo para refrescar em dias de sol forte. Já a Kaiser Radler, representante nacional de um estilo que faz sucesso em alguns países da Europa, é uma aposta interessante da Heineken, que pode se destacar no mercado. A rigor, ela parece um pouco inferior à versão portuguesa, Sagres Radler, mais saborosa, mas cumpre o que promete: refrescancia (vai do bebedor escolher entra uma cidra, uma Smirnoff Ice, um refrigerante ou uma Radler). A Belle-Vue Kriek Classique, por sua vez, tem como semelhança única com as duas cervejas anteriores levar fruta (no caso, cereja) na receita, mas enquanto a cereja é misturada com a cerveja no meio do processo (com a fruta envolvendo-se na elaboração do perfil da cerveja), na Radler, o suco é adicionado no final do processo, como se você pedisse um copo com metade chopp e metade Sprite (ou Fanta) – isso, aliás, é comum na Grécia, e se chama Shandy. Outra diferença é a graduação alcoólica, 5,1% da Belle-Vue Kriek Classique contra menos da metade nos exemplares Radler. A questão polêmica em torno da Belle-Vue Kriek Classique é a adição de açúcar, que a distância das lambics originais (puristas acusam: a lambic mais vendida do mundo não é uma lambic). É uma cerveja excelente para sobremesa. Já a Wäls Abróba é muito mais uma Belgian Double IPA do que uma Pumpkin Ale. O amargor intenso e persistente acaba relegando a abóbora à posição de coadjuvante, mas o saldo final é uma Belgian Double IPA de muita responsa, talvez uma das melhores cervejas que a Wäls produziu desde a Petroleum. Se você é fã do estilo, como eu, arranje uma maneira de conseguir uma garrafa (seja se associando ao Have A Nice Beer, seja batendo ponto no Empório Alto de Pinheiros, seja encomendando com algum amigo), porque é uma das mais belíssimas cerveja da safra nacional 2013.

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Schöfferhofer Hefeweizen-Mix Grapefruit
– Produto: Radler
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 2,5%
– Nota: 2,21/5

Kaiser Radler
– Produto: Radler
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoóica: 2%
– Nota: 1,94/5

Belle-Vue Kriek Classique
– Produto: Lambic Kriek
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 5,1%
– Nota: 2,96/5

Wäls Abróba
– Produto: Belgian Pumpkin IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 9%
– Nota: 3,75/5

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– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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