Blog do Editor: Entrevista para a Revista Bula

Entrevista concedida a Carlos William Leite (outubro de 2006)

Marcelo Costa é uma lenda entre blogueiros e zineiros. Editor do site Scream e Yell, um dos fenômenos da história dos zines no Brasil, ele concedeu uma divertida entrevista a Bula. Com respostas telegráficas e certeiras, falou sobre música, cinema, internet com uma auto-estima que parece ser inquebrantável.

Onde começa sua genealogia?
Tem de tudo no meu sangue. Muito de alemão, do meu tataravô, que saiu da Alemanha para engravidar uma índia na Bahia. Daí em diante entra um pouco de sangue espanhol e francês, e o baiano do meu bisavô. Uma mistura brasileira, digamos.

Como surgiu o Scream & Yell, o mais famoso zine Brasileiro?
Obrigado pelo “mais famoso”. Da junção de gostos de um cara que era a discoteca musical da turma (eu) com a de um outro que amava Metallica e Engenheiros do Hawaii nas mesmas proporções. E mais: num dia de natal. Era em papel, numa época que hoje até dá saudade. Era muito bacana postar via correio os zines, fazer papelotes com endereço e apresentação do S&Y, todo dia chegando coisa em casa, de todos os lugares do país. Mas, numa resposta direta, o zine surgiu para suprir a necessidade de se falar de coisas que não se falavam na época.

Por que mesmo os projetos antigos, com prestigio e grande números de acessos, conseguem viabilidade financeira na internet?
Primeiro: Porque jornalistas não são vendedores de anúncios. Sabemos escrever, argumentar em palavras no papel (seja real ou word mesmo), mas somos uma grande negação quando precisamos vender o próprio peixe. Muito porque ou se escreve, ou se vende anúncio. Quando tentamos fazer as duas coisas, nunca dá certo. Segundo: cultura não é viável no Brasil. Monta um site de sexo que você verá como será mais fácil ganhar dinheiro.

Quem é o gênio da raça na terra brasilis?
Tenho pensado muito nisso. Uma vez o The Guardian fez uma matéria dizendo que Morrissey era o maior inglês vivo. E o The Guardian é o jornal mais respeitado das ilhas. Desde então fiquei pensando nisso em relação ao Brasil. Chico Buarque é um nome forte. Além de ter uma história absolutamente genial, ele ainda produz tanto livros quanto discos. Se fosse pra escolher um nome só, agora, seria ele.

E o chato?
Caetano Veloso. Ele tem o mesmo passado do Chico, mas usa de forma com que as pessoas o odeiem. Gostei do disco novo, por exemplo, mas cada vez que Caê abre a boca tenho calafrios. Ele é um pesadelo ambulante.

Quais músicas compõem a sua trilha?
São tantas, mas tantas, mas tantas. Porém, dia desses fiz um CD com as músicas que eu mais gostava de ouvir sempre. Entrou “Rust” do Echo & The Bunnymen, a versão lenta de “Disco 2000” do Pulp cantada pelo Nick Cave, “Lucy” do Divine Comedy e “Everyday Is Like Sunday”, do Morrissey com o Colin Meloy, vocalista do Decemberists. As canções sempre voltam. Amo, por exemplo, “O Fundo do Coração”, d’Os Paralamas do Sucesso, mas não a ouço faz um tempo. “Working Man Blues Nº 2” , nova do Bob Dylan, deve fazer parte de uma trilha futura.

Quais livros povoam a sua estante?
A maioria é sobre música, e algumas biografias. E alguns romances, claro. Tem Aldous Huxley, responsável pelo meu livro predileto de todos os tempos (“O Macaco e a Essência”), tem Paul Auster (meu livro recente preferido: “Achei Que Meu Pai Fosse Deus”), tem as biografias ótimas do Marlon Brando e do Billy Wider, livros de música como o ótimo “Eu Não Sou Cachorro Não”, do Paulo César de Araújo, e o “Mate-me Por Favor”, do Larry McNeil e da Gilliam McCain. E Shakespeare, que eu amo. É muita coisa, mas nada tanto assim (risos).

A vida é curta para não ser pequena? como diria o Chacal.
Sim. Ou como diria Woody Allen: “É assim que eu vejo a vida: cheia de solidão, miséria, sofrimento e tristeza, e acaba rápido demais”. Não dá para se lamentar muito, né.

Cinema, literatura ou música?
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh… risos

Um filme brilhante?
Um não, três: “A Trilogia das Cores”, do Krzystof Kieslowski.

Um filme chatíssimo?
“Chicago”… ou “Moulin Rouge”

O blog do século?
O do compadre Inagaki. Quer nome melhor prum blog do que “Pensar Enlouquece, Pense Nisso”?

Machado de Assis ou Glauber Rocha?
João Gilberto

O que é pior que música sertaneja?
Filhos de cantores sertanejos se transformando em artistas pop.

Qual o maior escritor brasileiro vivo?
Lygia Fagundes Telles

Qual a grande revelação da música brasileira?
Violins, de Goiânia, uma banda que merece atenção.

Um rock raro?
“O Disco dos Mistérios ou 3 Diabos e 1/2 ou Sexplícito Visita o Sítio do Pica-Pau Amarelo ou Tributo a H.Romeu Pinto”, dos mineiros do Sexo Explicito, de 1991. Como item raro poderia vazar a versão de “Purple Rain” que eles gravaram para esse disco, mas que Prince não liberou. Se chamava “Sem Ninguém”.

Um pobre rock?
Qualquer disco do Strokes com exceção do “Is This It” .

A pior banda de todos os tempos?
São tantas…

Pra que serve o ECAD?
Para calar o canto dos sabiás.

Dizem que na música e na literatura existem várias igrejas, em qual delas você reza?
Na Assembléia Hippie Punk Popular.

Um blogueiro chato?
Marcelo Costa, ele vive reclamando e têm a vida que pediu a Deus…

Gilberto Gil: uma mistura de desastre com populismo pop ou um grande ministro e um cara legal?
Um grande músico em um grande circo.

E o PT?
Um sonho que nos apresentou a realidade: não existem sonhos!

Já pensou em acabar com Scream & Yell?
Já acabei com ele, e voltei. Já abandonei ele por meses, e voltei. Agora ele caminha ao meu lado, na camiseta que visto, no CD que ouço, no Champagne que bebo, no calmante que me faz dormir. Mas um dia ele vai acabar. Espero.

É possível sobreviver sem a internet?
Como nos vivíamos sem internet é a pergunta. E eu não sei te responder (risos)…

Qual o futuro do livro?
Os livros sempre vão existir… já os discos…

E das gravadoras?
Elas vão fazer a ponte entre o artista e o mercado até que os artistas descubram o caminho por si só. Então fim. Será mesmo?

O que te motiva atualmente?
Bob Dylan, Patti Smith, Scarlett Johanson, jornalismo e Liliane Callegari.

O que existe além das estrelas?
Um menino jogando cristais na via-láctea.

O que fazer quando o inferno astral não passa?
Rir de si mesmo.

Se existir o céu, o que gostaria que deus te falasse na chegada?
“Foi engano, senhor Marcelo Costa. Por isso, você voltará agora mesmo e viverá mais alguns bons pares de anos com esse mesmo corpo além do que lhe era previsto. Cortesia da casa pelo inconveniente.”

Que epigrafe te define?
O ato mais sublime é colocar outro diante de ti, WB.

Onde está a melhor música do mundo?
Hoje em dia, no terceiro mundo. É uma música que tem ginga e tristeza.

O que sobrou dos anos 80?
A certeza do quão bregas éramos.

Concorda que os anos 90 foi a década da desilusão?
Hummm, acho que foi a década em que a molecada virou adulta e bundona.

Existe algo, além de dinheiro, na cabeça dos executivos de gravadoras?
Vinho e vento.

Por que a música brasileira vive de ciclos?
Porque a vida vive de ciclos.

Pagode pode ser considerado uma espécie de distribuição de renda, como o futebol?
Claro, assim como o senado e a câmara federal.

Por falar em futebol, qual o seu time?
Corinthians, mas faz tempo, acho que foi em 1910.

Artesanato é arte?
Qualquer coisa hoje em dia é arte, menos Woody Allen.

Funk quebra barraco é música?
Nem funk quebra barraco nem rolê de bonde. São a mesma coisa: nada. Mas o mundo precisa do nada para ocupar o tempo na falta de algo melhor.

Quem mandaria para Marte?
Pensei no Paulo Maluf, mas seria maldade com os marcianos. Então mandaria a Daniella Cicarelli. Assim ela não mata todo mundo de desejo e inveja aqui na Terra.

Dez anos a mil ou mil anos a dez?
Mil anos a mil.

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