Cinema: Diana

por Marcelo Costa

Dezesseis anos após morrer tragicamente, Diana Frances Spencer, conhecida mundialmente como Lady Di, a Princesa de Gales, retorna ao imaginário popular com “Diana”, uma cinebiografia romanceada que flagra os últimos dois anos de vida da então mulher mais famosa do mundo, e mais parece um novelão com roteiro de Stephen Jeffreys inspirado no best-seller “Diana: Her Last Love”, de Kate Snell, publicado em 2001.

Como o título do livro sugere, o que a biografa (não autorizada) de Kate Snell defende é o impacto que o último amor da princesa teve em sua vida pessoal e pública, e aqueles que acompanhavam Diana à distância irão se surpreender ao descobrir que este último romance da princesa não foi o milionário egípcio Dodi Al-Fayed, com quem ela viveu seus últimos minutos, mas um cirurgião paquistanês, Hasnat Khan.

Interpretada com caracterização caprichada por Naomi Watts, Diana é apresentada como uma mulher preparada politicamente para o poder, mas beirando o infantil emocional quando o assunto é o amor. Os maneirismos da atriz reforçam esse lado humano e plebeu da Princesa de Gales, sugerindo uma mulher de discursos fortes e atitudes muitas vezes radicais, mas de coração frágil, simples e pouca profundidade intelectual.

A direção de Oliver Hirschbiegel, responsável pelo excelente “A Queda – As Últimas Horas de Hitler” ( 2004) e pelo dispensável “Invasores” (filme de 2007 com Nicole Kidman e Daniel Craig), começa provocante, simulando o estilo invasivo de um paparazzi num interessante plano-sequencia que não foca o personagem, mas seus atos, e que irá ser deixado de lado após alguns minutos para valorizar o formato novelístico tradicional.

É nesse momento que o roteiro introduz o cirurgião Hasnat (o ótimo Naveen Andrew, da série Lost), e pinta o filme de cor-de-rosa, com a princesa usando perucas como disfarce para encontrar seu hipotético amante (Hasnat nunca confirmou seu envolvimento com a princesa) e sendo chamada de “gostosa” na rua por pessoas que não a reconheciam (opção exagerada do roteiro para mostrar quanto Diana podia ser uma pessoa comum, se quisesse).

Toda a trama romanceada de “Diana” é tão clichê quanto qualquer história de amor simplória: o casal se encontra, se apaixona, vive dificuldades para ficar juntos, se separa, volta, fazem loucuras para ficar juntos e enfrentam a resistência da família dele, que não vê com bons olhos ter a “mulher mais famosa do mundo” em seu clã modesto. Acrescente ao copo de água com açúcar um item particular, o assedio público, e temos uma história de amor conturbada.

O que “Diana” sugere, porém, é que a princesa tem parte da culpa em sua própria mitificação como fonte para paparazzis, já que, segundo o filme (e o livro) tinha um jornalista como contato, e o usava quando de seu interesse. Em “Diana”, os paparazzis são usados pela princesa para divulgar seu romance com Dodi Al-Fayed, um milionário utilizado como joguete para provocar ciúmes no cirurgião paquistanês, “o verdadeiro amor de Diana” (para a biografa Kate Snell).

Ao final, trágico, “Diana” bate e assopra o personagem que o inspirou. Ao mesmo tempo em que exibe uma mulher independente presa em uma corte real e capaz de fazer muitas coisas pelo homem que ama, retrata uma princesa infantil que vive num conto de fadas, e que quer apenas fazer o bem para a humanidade. Entre as duas, alguns fragmentos talvez revelem uma Diana real, mas a sensação é de que a Diana que poucos conheceram ainda não foi desvendada. Será? A única certeza é de que “Diana”, o filme novela, é muito pouco para Oliver Hirschbiegel e Naomi Watts.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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