Entrevista: Eriberto Leão

por Hugo Oliveira

Um pouco antes de subir ao palco da 10ª edição da Festa Internacional de Teatro de Angra (FITA), onde iria apresentar o musical “Jim” a um público estimado em mil pessoas, o ator Eriberto Leão arrumou um tempo para conversar com o Scream & Yell. Era domingo, 6 de outubro. A entrevista aconteceu ao final da tarde, durante a passagem de som da banda que acompanha o intérprete de João Mota, um fã do grupo norte-americano The Doors que, em crise existencial, precisa acertar as contas com o falecido vocalista do quarteto, Jim Morrison.

O espetáculo estreou em julho deste ano, no Teatro do Leblon, no Rio de Janeiro e, ao ser dirigido por Paulo de Moraes, Eriberto, acompanhado da atriz Renata Guida e dos músicos Felipe Barão (guitarra), José Luiz Zambianchi (piano e baixo) e Rorato (bateria), parece dedicar tudo de si ao texto de Walter Daguerre, assumindo a corajosa missão de levar outra faceta de Jim Morrison ao grande público. Tudo sonorizado por clássicos criados pelo “Rei Lagarto” e seus companheiros de banda.

“Jim” não é uma peça teatral sobre a trajetória do The Doors, um dos grupos de rock mais importantes da segunda metade dos anos 60. Está mais para uma “DR roqueira fantástica” entre um fã de meia idade e um ídolo morto em circunstâncias misteriosas, que acabaram tornando a história ainda mais mítica.

Após a morte de Morrison em julho de 1971, aos 27 anos, vieram reportagens elogiosas e biografias. Os discos da fase áurea do conjunto continuam vendendo (até hoje). Em 1991, a cinebiografia “The Doors”, realizada pelo diretor Oliver Stone, retirou o que parecia ser o último prego do caixão do cantor, e desde então chegam às lojas CDs, documentários e relançamentos. Jim e sua banda estavam mais vivos do que nunca – ainda que o tecladista do quarteto, Ray Manzarek, também tenha partido para outro plano em maio deste ano.

Vestido de forma simples – jeans, tênis e uma camisa vermelha dos Beatles – e sentado numa cadeira dentro do camarim da FITA, Eriberto parecia ansioso antes da apresentação no Palco SESC. Ele justificou o sentimento durante a entrevista, através de uma comparação que fornece pistas sobre a dedicação do ator em “atravessar para o outro lado”, adentrando o universo de Jim Morrison com conhecimento de causa. “Antes era como se estivéssemos tocando no Whisky a Go-Go; agora estamos no Hollywood Bowl”.

Numa das entrevistas que você cedeu à imprensa para falar sobre a peça, há uma menção a um acidente de carro que o levou a ver as coisas de “um jeito diferente”. É no mínimo curioso saber que um episódio na infância de Jim Morrison, envolvendo índios e um desastre automobilístico, seria descrito pelo próprio como o momento mais importante da vida dele. Como você enxerga esta coincidência?
É mesmo uma grande coincidência. No acidente que presenciei, pessoas saíram do meio do nada com foices, facões e retalharam uma vaca. Já era ator, mas ainda muito moleque, com 19 anos. Eu estava numa viagem de que eu poderia ser ele – Jim Morrison. Depois do acidente, foi como se a morte falasse para mim: “É isso que você quer?”. Foi ali que começou a minha virada. Antes eu gostava do filme. Pra caralho. Mantinha aquele Jim na cabeça. Acabei me afastando, mas aí, por outras coincidências, os livros que ele lia caíram em minhas mãos. Coisas de Nietzsche, Rimbaud, Baudelaire e Blake, pinçadas na biblioteca mesmo, já que não havia internet naquela época.

Quais foram os capítulos seguintes da história Eriberto/The Doors?
Depois do acidente, da descoberta quanto às influências de Jim Morrison e da minha própria revisão relacionada à obra dele, coloquei na cabeça que um dia iria fazer uma grande homenagem ao cantor, defendê-lo perante os detratores apaixonados (risos). Sim, porque, por mais incrível que possa parecer, os que mais erram a respeito de Morrison são as pessoas que o amam. “Jim” é um musical que vai à contramão de todos os outros que nós temos no Brasil. Você não vai ver a história de Morrison no palco, mas sim a trajetória de um cara que entendeu o cantor de uma forma errada, e que vai ao túmulo dele pronto para fazer uma merda. Ele tem a redenção no final, e ela só é possível através do vocalista do Doors. Morrison dizia que cada um deve lutar pelo direito de sentir a sua própria dor. E vencê-la. A grande mensagem da peça, que o personagem João Mota entende, é esta: precisamos experimentar a nossa dor. O que todos querem é que fujamos dela. O povo brasileiro é o que mais foge da dor coletiva. Somos roubados há séculos. Somos o país mais poderoso e rico do mundo, e mesmo assim, somos pilhados diariamente. O futebol, a cerveja e a televisão são a nossa anestesia.

De que jeito o musical foi tomando forma? Qual foi a “Venice Beach” onde você, Walter (texto) e Paulo (direção) cantaram “Moonlight Drive” e resolveram montar uma peça?
Não sabíamos como ia funcionar. Desde o início o Paulo falou que a peça tinha que ter banda. Ela foi concebida a seis mãos. A nossa Venice Beach – famosa praia onde o Doors se formou – foram os encontros que tivemos, onde eu contava porque sou tão ligado a ele. Tenho um amor por Jim Morrison que transcende a tudo.

E você acredita que foi este amor que ajudou a peça a ganhar algumas resenhas elogiosas da crítica?
Acho que sim. Ele fez com que eu atraísse para o meu projeto os profissionais perfeitos para criar, pois não tenho talento para dirigir como o Paulo e nem para escrever como o Walter. Já havia trabalhado com os dois na peça “A Mecânica das Borboletas”, que foi um espetáculo muito vitorioso. O amor atrai amor.

Já que você falou sobre “A Mecânica das Borboletas”, peça onde interpretava um escritor beatnik, também não é difícil encontrar declarações suas sobre gente como Beatles e Bob Dylan. Podemos esperar mais algum projeto diretamente ligado a símbolos da contracultura do final dos anos 50 e da década de 60?
Não sei qual vai ser o período desse projeto, mas tenho planos de sair do país com “Jim”. Estou lidando com algo muito poderoso que é o universo do The Doors e da contracultura. De qualquer forma, optei por estrear o espetáculo num formato alternativo porque não acredito num rock’n’roll que já começa no mainstream, que já é preparado para ser sucesso. O rock é sucesso quando ele sai das garagens e dos pubs. Acho que o autêntico se perdeu hoje em dia, com essa coisa montada de pegar um produtor, montar uma banda e fazer um Restart da vida. Com todo o respeito, pois nem sei se a história deles é esta. Se não for, peço desculpas.

O que o público procura com mais intensidade na peça: Bertold Brecht, cabaré ou rock?
Acho que o rock’n’roll (risos).

“Jim” estreou justamente no ano em que o tecladista do The Doors, Ray Manzarek, faleceu, causando uma grande comoção entre os fãs. Como você enxerga a importância dos músicos da banda na criação da identidade sonora do conjunto americano?
Para você ter uma ideia, o tecladista que está comigo no palco, Zé Luiz Zambianchi, é um dos maiores músicos brasileiros. Ele chegou ao primeiro ensaio vindo de São Tomé das Letras, onde ele mora. Nesse dia, meu diretor, que estava em Portugal, mandou uma mensagem dizendo que o tecladista do Doors havia morrido. Mais uma coincidência. Voltando ao assunto, um dos motivos do sucesso da peça é a absurda fidelidade da banda em relação às canções do conjunto. Temos uma relação de grupo mesmo, e estou sempre muito conectado com eles em cena.

Existe outra mensagem relacionada à peça? O espetáculo é uma tentativa de reviver um grande ícone de uma época ou, ao contrário, serve para constatar que as palavras de Jim Morrison estão mais vivas do que nunca?
Um ícone só pode ser chamado assim se for eterno. Jim é um monumento que sempre vai ser atual. Todos os caras que deram a vida por um ideal morreram para que nós não morrêssemos do mesmo jeito. Sou um ator. Quero chegar ao maior número de pessoas com coisas que eu acho que poderão engrandecê-las. O grande mérito da peça é a autenticidade e a originalidade de contar uma história que apresenta Jim Morrison de uma forma nada óbvia.

– Hugo Oliveria (Facebook) é jornalista e um dos responsáveis pelo blog Talk About The Passion. Reúne seus textos sobre cultura no https://www.facebook.com/jornalistahugooliveira

Leia também :
– “Live At The Bowl ‘68”, The Doors: raras imagens da banda ao vivo (aqui)
– “Os Provérbios do Inferno”, de William Blake (aqui)
– “L.A. Woman – 40Th Anniversary”, Jim Morrison continua bem vivo (aqui)
– “Live in Boston 1970″, The Doors: para quem procura história (aqui)

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