Entrevista: Gru

por Tiago Agostini

“Welcome Sucker to Candyland” é, provavelmente, o melhor disco lançado no Brasil em 2013 que você não ouviu. Pudera: lançado no começo de maio, o álbum teve apenas um show de lançamento em Porto Alegre, antes de Gabi Lima, ou melhor, Gru, viajar para Los Angeles para um curso de produção sonora de um ano. Antes disso, ela deixou um disco tão grudento quanto bala 7 Belo – mas com um leve amargor dos chicletes azedinhos. Afinal, como ela mesmo diz, doce é algo.

Gabi saiu de Pelotas para Porto Alegre antes de se mudar para Los Angeles. Lançou antes deste disco outros dois, um de covers (“Loneliness Keeps Company”), inspirado por um término de relacionamento, e “Kitchen Door”, que já mostrava sua veia de compositora talentosa. Gravou praticamente todos os instrumentos do disco para fazer soá-los como queria, e não possui uma banda fixa de apoio porque este é “um trabalho solo, não um grupo de amigos apostando em algo”. Assim, imprime completamente seu DNA em cada uma das canções.

Produzido por John Ulhoa (Pato Fu), “Welcome Sucker To Candyland” levou dois anos para ficar pronto. O disco foi gravado no 128 Japs, o estúdio nos fundos da casa de John e Fernanda Takai, durante feriados que Gabi conseguia ir até Belo Horizonte. A parceria com o guitarrista, que toca em diversas faixas e co-assina músicas como “Sidecar” e “Can’t Fool Me”, surgiu naturalmente: em 2007, Gabi passou a acompanhar o Pato Fu na estrada como fotógrafa e videomaker e as afinidades dos dois foram aflorando. Daí para a parceria musical foi um pulo. “Acho que ela tem um universo bem próprio de referências e sonoridades”, explica o guitarrista. “Gosto de produzir quem me traga esse tipo de personalidade pronta, e isso já parecia bem claro desde as primeiras gravações caseiras que ouvi dela, que com pouquíssimos recursos conseguia resultados ótimos, e mereciam uma produção mais apurada.”

“Welcome Sucker to Candyland” traz referências mil do indie guitar dos anos 1990, incluindo a participação especial de Chris Colbourn, baixista do Buffalo Tom (banda favorita de Gabi) na baladinha declaração de amor perfeito “The Sweetest”. Mas as arestas do estilo, no entanto, se escondem sob produção e melodias pop, buriladas com cuidado pela cantora – fã declarada do Hanson e suas melodias vocais. Faixas como “Sidecar” e “If It All Works Out” são perfeitas para sair assobiando por um dia de sol. Ou então “Not Done”, que fecha o disco, num leve crescendo que atinge o ápice da intensidade no refrão, tal qual um pôr-do-sol no Guaíba.

E há também “Bad Plot”, uma dessas espécies de pop perfeito encapsulados em três minutos de harmonia e melodia. Gabi diz que às vezes não entende uma coisa e aparece uma música que explica exatamente o sentido. Ouvir “Welcome Sucker to Candyland” é encontrar respostas para diversas questões do coração, explicadas pelas melodias e letras sensíveis de uma garota do sul do Brasil que canta em inglês para fazer sua própria música americana. John Ulhoa recomenda o álbum “porque é bom” e, abaixo, você conhece um pouco mais da Gru.

Foram dois anos gravando o disco. O que dificultou o processo e atrasou o lançamento? Você morava em Porto Alegre, mas gravou a maior parte do disco em Belo Horizonte. Não ter o John como produtor foi uma hipótese em algum momento?
Passei um bom tempo acompanhando o Pato Fu na estrada como fotógrafa e videomaker. Uma vez estávamos em BH e eu e o John decidimos gravar uma música que fizemos juntos, a “Sidecar”. Depois, outras vezes em que eu estava em BH, a gente aproveitava e ia gravando outras musicas. Eram apenas dois amigos com interesses em comum (tanto de influências quanto de produção) gravando música. Nunca foi decidido: vou fazer um disco produzido pelo John Ulhoa. Quando a gente se deu conta, já tinha material pra metade do disco. Fomos fazendo mais músicas e completando. Demorou tanto pra gravar, pois eu trabalhava em Porto Alegre e o estúdio do John é em BH, então eu aproveitava os feriados para ir lá gravar. Os ajustes a gente fazia pela internet. Depois que já tínhamos metade do disco gravado, nunca pensei em buscar outro produtor pra produzir o resto do disco. Até porque continuávamos compondo músicas juntos. Algumas poucas coisas foram gravadas em Porto Alegre ou em Pelotas. Estávamos com o disco praticamente todo gravado no fim do ano passado. Levamos um tempo decidindo onde masterizar e optamos NY. Leva um tempo também para prensar, e eu me encarreguei de fazer a arte do disco. Daí foi lançado em maio, tentando fazer as coisas o mais rápido possível, já que agora (em 6 horas! – a entrevista, por e-mail, começou em julho, quando Gabi se mudava para LA) estou embarcando para Los Angeles, e queríamos também fazer um videoclipe (antes do lançamento) e montar um show para o lançamento em Porto Alegre.

Você toca praticamente de tudo no disco. Por quê? E como é montar uma banda depois para fazer um show?
Gravar as músicas foi o único jeito que consegui de deixar elas do jeito que eu queria que soassem, pois nunca consegui montar uma banda pra tocá-las da forma como eu as imaginava. E na gravação posso ser uma banda de cinco, seis ou mais pessoas. Faço as harmonias vocais comigo mesma. Ah, e o “por que”. Eu já tinha os arranjos na cabeça, e sabia tocar os instrumentos, então ia lá e gravava. Quando o John tinha alguma ideia e eu estava longe, ele gravava. Mas a maioria das guitarras do John arranjamos juntos (eu não sou boba, ele toca melhor do que eu, mesmo sendo o meu riff).

Doce é uma coisa tão importante na vida quanto música?
Doce é tão importante quanto música, mas por razões opostas: a música serve pra expressar aquilo que, pelo menos eu, não consigo expressar de outra forma. Às vezes não consigo entender algo (ok, a maioria do tempo e a maioria das coisas) e aparece uma música que explica pra mim. Já o doce, disse o Charlie Bucket, “não tem que ter um sentido, por isso que é doce”. O doce não serve para ser saudável ou natural ou orgânico ou qualquer outra coisa. Ele só tem o único propósito de ser o que é: doce. E se é doce, é bom. Não é genial? Algo que só serve exclusivamente pra satisfazer.

Explica essa sua relação com o John e o Pato Fu. Quando você começou a acompanhar a banda mais de perto e quanto excursionar com eles te ajudou musicalmente e na carreira?
Em 2007 comecei a acompanhar o Pato Fu como fotógrafa e videomaker. Essa parceria rendeu um material bem vasto, como várias fotos no site e nas redes sociais da banda, e vários vídeos que foram parar num DVD chamado “Extra Extra”. Fiz documentário, fiz até um mini seriadinho que foi parar na MTV. Fiquei 5 anos acompanhando eles. Durante esses 5 anos, desenvolvi uma amizade com o John, pois descobrimos que tínhamos muitas coisas em comum, desde as influências musicais (Aimee Mann e Elvis Costello) até andar de skate e falar bobagem. Nunca usei o Pato Fu como trampolim para minha carreira musical, mas o interesse do John na minha música e nossa afinidade foi o que levou à gravação desse disco. Também aprendi muito com ele sobre produção, que é a área onde atuo profissionalmente. Ele é o culpado!

Pop ou indie guitar anos 90?
Os dois! Uma coisa não exclui a outra. Adoro Motown, melodias pop, harmonização vocal desde Beach Boys até Hanson. Aprecio muito um POP bem feito. POP hoje em dia parece um termo para algo ruim, algo de plástico, falso, mas é apenas um gênero, onde habitam muitas bandas competentes. E admiro quem consegue escrever uma boa música pop, feita com coração e alma, e bem executada. O rock alternativo dos anos 90 foi o que mais ouvi, se você for olhar minha coleção de discos em casa. Tenho tudo do Buffalo Tom, Everclear, Letters to Cleo, adoro Lemonheads, Dinosaur Jr… Mas ao mesmo tempo ouvia Ben Folds Five, que era alternativo, mas tinha uma pegada POP bem forte. As pessoas acham que pop é o contrário de rock, mas acho que não precisa ser. Não tenho medo do pop, não acho que só o rock é valido. Gosto dos dois. E gosto de pop rock. E também gosto da Neko Case que é country e não tem nada a ver, e me influencia bastante.

Você já abriu show pro Hanson. Qual a sensação de tocar antes de um ídolo?
Abrir o show do Hanson foi uma das coisas mais legais que já fiz. Nunca achei que eu ia chegar tão perto deles… E mesmo perto, tinha segurança demais na volta dos meninos. Mas consegui conversar um tanto com o Taylor e conheci o Zac. Eu já era fã da banda, mas quando tive o privilégio de os ver passando o som, fiquei impressionada com a habilidade técnica deles tocando. Eles são muito técnicos, cada um em seu instrumento, e a harmonização vocal deles ao vivo é impressionante, chuta a bunda de qualquer grupo pop autotunado. E o público foi ótimo, muito receptivo à minha música, uma das melhores plateias para a qual já toquei.

Você dificilmente saía do RS pra fazer shows. Porto alegre ainda é longe demais das capitais?
Como eu não tinha de fato uma banda ativa, não saía para tocar em festivais em outros estados. É muito difícil receber uma proposta que sustente financeiramente você ter uma banda. Até porque esse é meu trabalho solo, não é um grupo de amigos apostando em algo. Eu não teria como pagar músicos para tocarem comigo, pelo menos nunca recebi propostas que sustentassem isso. Então eu fazia o que podia em Porto Alegre.

Ao mesmo tempo, o Rio Grande do Sul sempre pareceu, pelo menos aos olhos de quem cresceu em Santa Catarina, como eu, ter uma cena estadual forte, com lugares e público para as bandas médias locais tocarem em todo estado. Como isso se reflete no mercado independente? Ou não quer dizer nada?
Vejo algumas bandas que tocam bastante dentro do estado, mas todo mundo que eu conheço dessas bandas tem um trabalho diário, que não a banda.

O jornalista Marcelo Ferla fala no release que “Bad Plot” lembra Video Hits. Eu consigo ouvir ecos de Wonkavision na mesma música. As duas bandas são de uma época, no começo dos anos 2000, que parecia que o rock gaúcho – inclua a Bidê na conta – ia estourar nacionalmente. Quanto essas bandas te influenciaram ou foram importante para você?
Não ouvi muito as bandas gaúchas, exceto Graforreia Xilarmônica, mas tem um conexão até mais direta: a faixa “Feel Like Running” foi escrita em parceria com o Mike Vontobel, que era o batera e co-compositor da Video Hits e chegou a ser batera da Bidê ou Balde por um tempo. Tenho um dueto com o Frank Jorge, que pra mim é o ícone do rock gaúcho. E conheci a Grazi do Wonkavision por ela também ser fã do Buffalo Tom. Ela está aqui em LA também e ontem fomos ao show do Ben Folds Five 🙂

Você já tinha lançado outro disco, “Kitchen Door”, em 2009. O que mudou de lá para o “Welcome Sucker to Candyland”? Musicalmente, pessoalmente e em termos de carreira.
Acho que o “Kitchen Door” era muito concentrado no rock alternativo dos anos 90, minha maior influência. Mas eu também tenho grandes influências fora dessa categoria, como Elvis Costello, Ben Folds Five, Aimee Mann, Neko Case, Hanson. E no “Welcome” eu tive a oportunidade de explorar mais essas influências e fazer um trabalho um pouco mais diversificado, com a ajuda da visão do John. E também porque ele tinha as ferramentas e o conhecimento pra me ajudar a chegar a resultados melhores. Já fui me acostumando mais a gravar vocais, e tinha alguém agora para me dirigir, então acho que os vocais melhoraram bastante de um disco para o outro. E o disco foi acontecendo numa época que eu resolvi sair da minha cidade natal no interior e ir pra capital trabalhar com produção musical, o que me adicionou mais experiência e conhecimento, e também possibilitou que eu conhecesse as pessoas que fazem participações no meu disco. Mesmo sem eu conhecer o Chris, do Buffalo Tom, pessoalmente, eu já tinha mais coragem de convidar ele para uma participação.

Essa é meio clichê, mas bora lá: por que cantar em inglês? Compor em português é mais difícil?
Música é música, e falar é falar. Canto o que eu não consigo falar. E 90% da música que eu ouço é em inglês, então me acostumei com a estrutura da língua pra me expressar musicalmente. O “certo” seria eu cantar em português, mas pra mim seria errado, pois não é o modo natural em que a “musa” se apresenta pra mim. Eu já penso a música em inglês. E que diferença faz, se o povo consome tanta música norte-americana? Essa é a minha música norte-americana.

Quanto tempo você fica em LA e o que é esse curso que você foi fazer?
Fico aproximadamente um ano em LA estudando engenharia de áudio e som ao vivo.

Quais os planos futuros de carreira?
Lancei o disco no Brasil… e fui embora. Não tinha muita esperança em fazer shows, então não fazia diferença ficar pra promover. Não tenho planos, estou em LA pra ver o que acontece. Eu gravei as músicas para que as pessoas pudessem escutar. Meu único plano, que não depende de mim, é que as pessoas ouçam. Adoro a Tracy Bonham, adoro a Imani Coppola, ouço elas o tempo todo e nunca fui num show.

Você se mudou de Pelotas depois do “Kitchen” sair (certo?). Agora sai de Poa para LA logo depois do “Welcome” ser lançado. Mudanças são um bom combustível para a criatividade?

Engraçado, não tinha me dado conta disso. Saí de Pelotas quando o “Kitchen Door” foi lançado, porque uma produtora de áudio na época viu que eu tinha composto / produzido / gravado / tocado / mixado todo o disco e tinham recebido a indicação através do fotógrafo Raul Krebs (que também é músico). Depois de um pouco mais de três anos trabalhando como produtora musical em Porto Alegre, optei por uma formação profissional em produção, e me programei pra vir pra LA. Mas como o disco já estava em processo adiantado de gravação, decidi lançar o disco antes de vir pra Califórnia.

Explica o nome Gru. De onde surgiu?
Gru vem da personagem “Groo” do cartunista Sérgio Aragonés. Gru é um guerreiro que sempre enfia os pés pelas mãos e… bem, eu ganhei esse apelido (risos), virou meu nickname na internet na época do mirc e ficou. Uma vez a Nina, filha do John e da Fernanda, perguntou: “Por que vocês às vezes chamam a Gru de Gabi?!” Eu tive várias bandas, e em todas elas carregava minhas músicas próprias, então resolvi que, independente dos outros membros da banda, seria sempre Gru, porque eu e minhas músicas éramos o elemento constante. Tipo o Evan Dando e seu Lemonheads, ou o Nine Inch Nails do Trent Reznor. Posso estar com banda ou só com meu violão, continuo sendo Gru.

Você já tinha outro disco antes do “Kitchen Door”?
Antes do “Kitchen Door” eu gravei um disco só de covers, chamado “Loneliness Keeps Company”, praticamente em uma semana, utilizando apenas o microfone embutido do iMac como fonte pra captar o som. Tinha brigado com o namorado na época, e decidi que ao invés de ficar chorando, ia fazer algo criativo. Acho que isso é o que impulsiona 50% dos artistas. A outra metade é da linha Paul McCartney, mas não eu. Arriscaria dizer que nós, os agoniados, talvez sejamos a maioria. O pessoal feliz que faz música feliz raramente prende meu ouvido (por mais que seja pop e PAREÇA feliz, eu presto atenção nas letras).

Tiago Agostini (@tiagoagostini) é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2006

Informações:
– Facebook: https://www.facebook.com/grumusic
– Ouça: https://onerpm.com/#/album/454907284 e http://gruband.bandcamp.com/

4 thoughts on “Entrevista: Gru

  1. Eu não sei,mas acho que é um certo desperdicio cantar em inglês e não saber explorar isso. Ai a moça fica um ano lá fora com um puta disco com um puta cara que é o John, que normalmente custaria caro fazer o disco e ir embora. Enquanto que outras bandas não tem dinheiro pra essa oportunidade. É complicado isso. Tem uma banda psicodelica muito boa chamada Boogarins, de Goiânia que canta em português e vão ser lançados pelo Fat Possum (Yuck, Band of Horses). Em português! Enfim, esse negocio de cantar em inglês no Brasil é bobagem de quem pode financeiramente fazer isso.

  2. Fernando, ouça o disco do Rubs Trol (ex-parceiro do John no Sexo Explícito), também produzido pelo John, o Rubs canta em português 🙂
    Inclusive eu canto em uma faixa, você pode me ouvir cantando em portugues. Abraços!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.