Show: Beach House em São Paulo

Texto por Fernando Silva
Fotos por Fabricio Vianna
Vídeos por @FazAmor

Enquanto os três integrantes do Beach House se acomodavam em seus lugares, e o início de “Wild” começava a ecoar, a penumbra tomava conta do palco do Cine Joia. Sim, o escuro poderia ser entendido como uma falha na iluminação, mas ali estava talvez a chave para entender – ao menos, em parte – a banda e sua apresentação. Na estreia no Brasil, a francesa Victoria Legrand e sua voz grave logo mostrariam que não estavam de brincadeira.

Era nítido que a “cold wave” do grupo de Baltimore (EUA) já havia dominado o ambiente da casa (aliás, em perfeita sintonia com os 10° C que os paulistanos enfrentaram na noite de 28 de agosto). Com sua jaqueta de couro, Victoria encarnava uma compenetrada selvagem atrás do teclado, e Alex Scally (guitarra) e Daniel Franz (bateria) construíam uma obra gélida e minimalista em “Walk in the Park”.

A precisão da música, no entanto, foi afastando qualquer desconfiança em relação ao clima do show. E aos poucos, a ficha caiu: a apresentação não teria rodeios. Se a vocalista interpreta “Troublemaker” como se estivesse no fundo de um bar na beira da estrada, “Lazuli” ganha contornos quase religiosos. E se o caráter intimista do local a permitia encarar a plateia, ela solta um “É legal vê-los”, e segue com o jogo.

A receita do Beach House inclui artistas como Velvet Underground (e Nico claramente é uma influência para Victoria), Cocteau Twins, David Bowie, Joy Division e My Bloody Valentine, e o resultado da mistura surge mais pesado ao vivo. “Other People” é bom exemplo disso, sem deixar de ser um som ao mesmo tempo espontâneo e dramático. Mas uma estreia não é fácil e sempre traz surpresas.

De repente, Victoria coloca as duas mãos no rosto e para. Ela diz que é a primeira vez da banda no Brasil e na América do Sul e que a “noite é muito importante” para eles. E sorri. Quando soam então os primeiros acordes de “Zebra”, algo muda. O público se comove e grita, as luzes iluminam o ambiente; parece que agora nos é revelado o outro lado da moeda. A canção marca o início de uma nova fase do show, uma segunda etapa.

Conforme o tempo avançava, ficava mais claro, como se tivesse surgido um sol repentino por detrás das nuvens, sabe? A partir dali, tornava-se mais difícil escolher os melhores momentos. “Wishes” vira um hino de arena (indie) e “New Year”, um hit (classudo) de programa da madrugada em rádio FM. Victoria até se livra da jaqueta preta e continua a apresentação com um casaco dourado.

E o ataque segue embalado, sem vacilar. Numa ponta, Franz acrescenta pegada à “Used to Be” e na outra, Scally dá seu show de dedilhado e distorção na bela “10 Mile Stereo”. No bis, a banda entrega ainda uma grande versão de “Irene” e a voz de Victoria Legrand – já vestida novamente de preto – brilha de maneira cristalina.

Rotulada como Dream Pop, a música do Beach House ganha frescor e força ao vivo. E o show no Cine Joia foi tão “sonhático” quanto real. Foi como um dia gelado, daqueles nos quais somos surpreendidos pelo sol que teima em aparecer. E que nos faz sorrir algumas vezes com a insistência.

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