Disco do Ano: Carol Nogueira

Discos do Ano #05
“The Next Day”: Emocional
por Carol Nogueira

Artista – David Bowie
Álbum – “The Next Day”
Lançamento – 08/04/2013
Selo – Iso/Columbia

Para quem cresceu nos anos 90, como eu, a imagem de David Bowie era algo tão distante quanto qualquer artista antigo que tivesse morrido ou parado de produzir há décadas. Não que esse fosse o caso dele. Pelo contrário, Bowie lançou seis álbuns entre 1993 e 2003 – mal recebidos pela crítica e com pouco sucesso comercial, portanto, sem apelo algum para mim na época. Mas, a medida em que passei a me interessar por música, na adolescência, comecei a entender a importância de Bowie, e conheci o seu legado aos poucos. Ouvi “Heroes” em algum filme. Descobri “The Man Who Sold the World” pela versão do Nirvana. Escutei “Let’s Dance” e “Rebel Rebel” nas pistas de dança. Li sobre “Ziggy Stardust”. Quanto mais eu conhecia e escutava suas músicas, mais me surpreendia em encontrar, toda vez, um artista diferente em cada uma delas. Ainda assim, nada me havia feito criar tanta empatia por Bowie quanto o seu último disco, “The Next Day”, lançado em março deste ano.

Novamente, o que mais me surpreendeu foi encontrar, no mesmo álbum, várias sonoridades diferentes. Era Bowie referenciando quase tudo o que ele já havia produzido algum dia na carreira, quase como se este fosse o seu trabalho final (e pode ser, mesmo). Mas, desta vez, admirei também a coragem de Bowie em cantar sobre a velhice e os anos durante os quais ficou recluso, após sofrer um princípio de infarto enquanto fazia um show, em 2004. Em uma época em que se sabe tanto sobre a vida ensaiada das celebridades, é preciso muita, mas muita coragem para se expor de verdade. E Bowie o fez pela sua ótica – muito mais interessante do que qualquer especulação. É a opinião dele mesmo sobre ter ficado à beira da morte e, depois, esquecido.

A primeira faixa do disco, também chamada “The Next Day”, fala sobre isso. “Here I am, not quite dying” (Aqui estou, não exatamente moribundo), canta Bowie. Já “The Stars (Are Out Tonight)” traz uma provocação sobre os anos de sumiço. “Stars are never sleeping/Dead ones and the living” (As estrelas nunca dormem/Nem as mortas nem as vivas). “Love Is Lost”, que tem a melhor letra do álbum, fala sobre o amadurecimento, o fim da ingenuidade e, finalmente, a dor de viver. “Say goodbye to the thrills of life/ Where love was good, no love was bad/ Wave goodbye to the life without pain” (Diga adeus às alegrias da vida/ Onde o amor era bom, nenhum amor era ruim/ Diga adeus para uma vida sem dor), canta Bowie. Ele fecha o disco dizendo: “I don’t know who I am” (Eu não sei quem eu sou), em “Heat”. As referências a assuntos como morte e esquecimento estão por todo o disco, emolduradas por belas melodias dark.

Melodias que, aliás, não deixam nada a desejar. Em “Dirty Boys”, por exemplo, uma das melhores do disco, Bowie convoca um climão de cabaré que faz lembrar Tom Waits (mas a referência é o compositor alemão Kurt Weill, de quem ele é fã). Em “Valentine’s Day”, consegue ser pop sem ser fútil, com uma canção bastante melódica, com coro de vozes femininas. Em “I’d Rather Be High”, é psicodélico. Em “(You Will) Set The World On Fire”, é anárquico. Há, também, muitas referências sonoras às fases de sua carreira, especialmente os anos que passou em Berlim, entre 1976 e 1979. É assim com faixas como “If You Can See Me” (a cara do produtor Brian Eno), “How Does the Grass Grow?” (que lembra “Boys Keep Swinging”) e “You Feel So Lonely You Could Die” (que termina com as mesmas batidas de “Five Years”).

Mas aí entra outra questão. O disco não traz nada muito diferente do que Bowie já fez na carreira. Ele sempre teve uma queda pelo drama. E, essencialmente, “The Next Day” foi feito pelas mesmas pessoas com quem ele sempre trabalhou – o produtor Tony Visconti, seu fiel escudeiro, com quem trabalha desde “Space Oddity” (1969), o guitarrista Gerry Leonard e o baterista Sterling Campbell. Então, o que torna o álbum especial? Para mim, é o elemento que também está presente em “Random Access Memories”, do Daft Punk. As músicas pop de hoje em dia, grosso modo, são tão pasteurizadas, tão sem alma, que o trunfo de Bowie foi exatamente conseguir construir algo que realmente emociona – que é, e sempre foi, a função primordial da música, e da arte, em geral.

Em maio passado, estive no Victoria & Albert Museum, em Londres, para ver a exposição “David Bowie Is”, que virá ao Brasil no ano que vem. Verdade seja dita, a exposição não é lá tão incrível para quem conhece a história do músico, a menos que você seja muito fã e queira ver de perto as roupas usadas por ele e algumas composições escritas em papel, na caligrafia dele. Mas uma parte dela me pegou. No fim, o visitante para em uma sala cheia de telões gigantes, que vão do chão ao teto, e ficam passando vídeos de apresentações antigas de Bowie, em fases diversas. Por trás dos telões, é possível ver as silhuetas de alguns de seus figurinos de cada época, quase como se ele estivesse lá. É de chorar. Porque, no fim, é a isso que se resume a música.

Carol Nogueira (@carolnogueira) e escreve sobre música, cinema e cultura pop na Veja Online

Semanalmente teremos um convidado no Scream & Yell escrevendo sobre o disco do ano

Especial Melhores de 2013:
– Disco do Ano #1: “Fade”, do Yo La Tengo, por Cristiano Castilho (aqui)
– Disco do Ano #2: “Random Access Memories”, do Daft Punk, por Rodrigo Levino (aqui)
– Disco do Ano #3: “…Like Clockwork”, do QOTSA, por Mariana Tramontina (aqui)
– Disco do Ano #4: “Shaking the Habitual”, do The Knife, por Tiago Ferreira (aqui)
– Disco do Ano #6: “Nocturama”, de Nick Cave & The Bad Seeds, por Gabriel Innocentini (aqui)
– Disco do Ano #7: “Dream River”, de Bill Callahan, por João Vitor Medeiros (aqui)
– Disco do Ano #8: “Foi No Mês Que Vem”, de Vitor Ramil, por Thiago Pereira (aqui)
– Disco do Ano #9: “Tooth & Nail”, de Billy Bragg, por Giancarlo Rufatto (aqui)
– Disco do Ano #10: “13″, do Black Sabbath, por Marcos Bragatto (aqui)
– Disco do Ano #11: “Estado de Nuvem”, de Bruno Souto, por José Flávio Júnior (aqui)

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