Cinema: Flores Raras, Bruno Barreto

por Marcelo Costa

“Flores Raras”, 19º longa-metragem de Bruno Barreto, é daqueles filmes que alguns vão odiar admirar. Primeiro porque tem o padrão Globo de cinema zona de conforto, ainda que a trama seja sobre o romance entre duas mulheres. Segundo porque Bruno Barreto, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por “O Que é Isso, Companheiro?” (1997) e responsável pela maior bilheteria da história do cinema no Brasil, aproximadamente 12 milhões de espectadores com “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), não inspira confiança cinematográfica (hoje em dia, muito pelo contrário).

Ainda assim, “Flores Raras” tem méritos. Esqueça a direção burocrática, por vezes senil, de Barreto, que insiste em planos óbvios (em “Amor Pleno”, Terrence Malick mostra que é possível filmar em um cartão postal – no caso, Paris – sem ser dolorosamente óbvio) e concentre-se no roteiro (escrito a seis mãos: Carolina Kotscho, Julie Sayres – parceira de Barreto em outros filmes internacionais – e Matthew Chapman), que mesmo sem ser brilhante ou engenhoso, consegue criar uma atmosfera e dar material para que duas grandes atrizes brilhem.

Se há algo para ser admirado em “Flores Raras”, Glória Pires e Miranda Otto merecem crédito, pois são elas que conseguem fazer com que o filme respire. Glória assume o papel da decidida Lota de Macedo Soares, uma mulher forte, autoritária, que divide a cama com outra mulher no Rio de Janeiro dos anos 50 (a norte-americana Mary – Tracy Middendorf) assim como o maço de cigarros com os trabalhadores da obra que comanda em sua casa, em Petrópolis – mesmo sem ter frequentado universidade, Lota foi reconhecida como arquiteta autodidata e paisagista.

Ao menos é isso que o roteiro busca mostrar nos primeiros minutos do filme, enquanto outra história paralela se desenvolve: a chegada ao Brasil da poetisa norte-americana Elizabeth Bishop (Miranda Otto), que, amiga de Mary na faculdade em Nova York, se instala na casa de Lota e, em poucas horas, vê seu universo melancólico desabar frente ao jeitinho carinhoso do povo brasileiro, que abraça, beija, pede poema na mesa do almoço e fica constrangido se não é atendido, painel batido, ainda que interessante, de um drama de costumes. Bishop chegou para passar duas semanas, e ficou 17 anos.

É neste pequeno fragmento de choque cultural (usado para reforçar a disparidade da personalidade das duas moças) que reside boa parte do mérito de “Flores Raras”: em uma cena, a poetisa recebe vinis de jazz e blues (Miles Davis em destaque) e abandona a bossa nova que, em período pré-Golpe Militar, já não a representava tanto quanto não representava o país. Em outro momento questiona como alguém pode ficar feliz após um Golpe Militar: “Quando Kennedy foi assassinato, nós (o povo norte-americano) sofremos. Vocês tiveram um Golpe Militar, que lhes tirou a liberdade, e foram jogar futebol na praia. Eu vi da janela”.

São dois momentos reluzentes em um filme bonitinho e ordinário, que coloca paletó e gravata em um intenso relacionamento amoroso entre duas personalidades emblemáticas. Em certo momento da trama, a frágil Bishop se apaga frente à decidida Lota. Enquanto a poetisa enxuga garrafas de uísque, e escreve “North & South — A Cold Spring”, livro com o qual seria agraciada com o prêmio Pulitzer, a arquiteta se envolve em um grande empreendimento, o projeto do Parque do Flamengo, que o roteiro mais confunde que explica.

A ideia de se criar um grande parque na área do aterro do Flamengo é atribuída à Lota, amiga de Carlos Lacerda, antes mesmo de ele ser eleito governador do estado da Guanabara, mas o projeto paisagístico é de um dos maiores nomes que já pisou a terra desta República cheia de árvores e gente dizendo adeus, Roberto Burle Marx. O espectador desavisado sairá da sala de cinema acreditando que Lota é a única responsável pelo parque, tremendo desserviço cultural a título de dar mais ênfase ao personagem de Glória Pires, um pecado imperdoável.

A grande sorte do roteiro é que uma das duas personalidades flagradas no filme escreveu alguns dos melhores textos de todos os tempos em língua inglesa, e é impossível não se emocionar ao ouvi-los na sala de cinema tanto quanto não se surpreender com o desfecho trágico do romance. Em seu quinto filme em língua inglesa, Bruno Barreto consegue algo que tentou (e não conseguiu) em “Bossa Nova”, de 2000: fazer cinema hollywoodiano no Brasil. “Flores Raras” tem todos os cacoetes do cinemão norte-americano, para o bem e para o mal, e, apesar de seus deslizes, merece atenção por chocar duas personalidades interessantíssimas. Está longe de ser o melhor filme do ano, mas é digno.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Leia também:
– Terrence Malick aposta demasiadamente na subjetividade em “Amor Pleno” (aqui)

2 thoughts on “Cinema: Flores Raras, Bruno Barreto

  1. Vou tentar descobrir, Ester. Lembro que a cena começa com Tom Jobim, e quando chega os vinis ela retira um deles do pacote (talvez um Miles Davis) e coloca, mas é bem rápido.

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