Entrevista: Luiz Valente, Vinyl Land

por Marcelo Costa

Após ter sido considerado morto e até enterrado por alguns, principalmente entre o final dos anos 90 e a metade dos anos 00 no Brasil, o disco de vinil renasce retomando a paixão dos consumidores de música, que nos últimos cinco anos voltaram a se dedicar ao bolachão. Alguns, como o DJ mineiro Luiz Valente, foram além: como ele não encontrava em vinil as coisas que gostava, decidiu ele mesmo montar um selo e lançar os discos.

Assim nascia em 2008 a Vinyl Land (http://www.vinyllandrecords.com/), com sede baseada em Londres, e que já contabiliza cerca de 25 lançamentos em vinil, entre compactos e álbuns de 12 polegadas de gente como Tulipa Ruiz (“Efêmera”), Karina Buhr (“Eu Menti Pra Você”), Do Amor (o primeiro álbum homônimo), Curumin (“Arocha”), Flávio Renegado (“Minha Tribo é o Mundo”), Lê Almeida (“Mono Maçã”) e Apanhador Só (“Paraquedas”), entre outros.

Apaixonado por música, Luiz Valente acompanha de perto a nova cena musical mineira, e foi dessa proximidade que surgiu “Collectors Choice BH 2013”, coletânea dupla em vinil 180 polegadas que reúne 21 novos nomes e radiografa com perfeição o excelente momento musical do Estado, de Transmissor a Iconili, de Constantina a Pequena Morte, de Graveola ao coletivo Família de Rua, de Flávio Renegado a Dead Lovers Twisted Heart, e muitos outros.

“Não é só a música”, avisa Luiz em entrevista ao Scream & Yell. “Tem toda uma história acontecendo em BH, que a gente fica torcendo para que o resto do Brasil descubra”. Ele cita o episódio da Praia da Estação (vale muito ler esse texto, de Nunno Mana), se anima com o ressurgimento do carnaval na cidade (outro texto que merece ser lido, de Guto Borges) enquanto faz planos de gastar o dinheiro que está conseguindo com os discos que vende no lançamento de muitos outros discos. Abaixo, o bate papo na integra.

A Vinyl Land está lançando uma coletânea em vinil com bandas mineiras. Você acompanha a cena?
Sim, sim! Sou de Juiz de Fora, mas moro em Belo Horizonte há muito tempo, e me sinto completamente ligado a esta geração (de bandas mineiras) – desde o início do selo. Cinco anos atrás, um dos primeiros lançamentos da Vinyl Land foi o Dead Lover’s Twisted Heart, um compacto branco. Saiu junto com um compacto dos Autoramas. Era uma edição bem limitada, de 200 cópias. Depois chegamos a lançar Graveola, Flávio Renegado e Zymun, e está pra sair agora um vinil do Pequena Morte. Quero lançar um do Transmissor, mas ainda não rolou.

Como surgiu a ideia de registrar essa cena em vinil?
Desde o inicio do selo tenho essa ideia de fazer uma coletânea porque, para DJ e colecionador, é um material sempre legal, um trunfo, porque você separa o disco e já tem um monte de coisa legal para discotecar. É um recorte interessante. Claro, é um pouco difícil lançar porque é preciso fazer contato com todas as bandas e raciocinar o corte para que não fique uma coisa muito dispare. É um trampo. A primeira “Collectors Choice” que fiz foi a do Lucas Sant’Anna, com músicas retiradas dos quatro primeiros discos dele. Mantivemos o nome “Collectors Choice” agora porque tem essa pegada, é algo para colecionador mesmo.

Como foi o processo para chegar nessas 21 bandas, 21 músicas?
A ideia era ter 20 músicas, mas consegui fazer uma mágica de matemática trocando faixas de lado para aproveitar o espaço de 20 minutos do vinil, e encaixar mais uma, que é o MC Buru com a música “Paz Pros Camelôs”, que tem a participação de uma galera – MC Yuri BH, MC Dodo, Bó De Catarina, vários DJs – e é um funk de protesto que tem a ver com a história da movimentação política (que vem acontecendo em Belo Horizonte nos últimos anos), a Praia da Estação, todo um contexto interessante. Além que é importante mostrar algo além das bandas indies e alternativas, e escolhi o funk, o rap e o hip hop. Por exemplo, o Yuri BH, que é um menino de 15 anos, é um fenômeno no Youtube. Ele tem vídeos com mais de 5 milhões de exibições. É uma cena muito maior do que a gente imagina.

Então, de certa forma, foi simples fechar as 21 músicas?
Em muitos casos foi mais difícil escolher a música do que a banda. Costumo dizer que as primeiras 12 ou mesmo 15 foram fáceis, porque são coisas que eu não podia deixar de fora, são músicas que gosto, que eu ouvia há algum tempo. Já as demais foram sendo encaixadas em torno desse primeiro recorte. Então, algumas coisas que eram um pouco anteriores a essa geração, acabaram ficando de fora. Da mesma forma, coisas muito novas, que chegaram para mim quando eu estava fazendo a seleção, também não entraram.

É praticamente um mapeamento 2012/2013…
Isso. Acho que a mais antiga é “Meu Canto”, do Flávio Renegado (que é de 2008), porque como eu já tinha lançado o segundo LP dele, “Minha Tribo é o Mundo”, escolhi uma música do primeiro disco. Há essa regra oculta (risos) de não repetir lançamentos, afinal, o espaço no vinil é tão limitado que se é pra colocar, que seja coisa inédita (no formato).

De quanto costumam ser suas tiragens?
Normalmente é de 500 cópias – e eu nunca reprensei nada, e a ideia é não reprensar tão cedo, caminhar pra frente. Esse “Collectors Choice BH 2013” tem uma tiragem especial de 1000 cópias. É um vinil duplo de 180 gramas, com capa gatefold (que se abre como um livro). Tivemos apoio da Lei de Incentivo da Cultura Municipal…

Você não costuma prensar os vinis no Brasil, certo?
Não. Esse “Collectors Choice BH 2013” foi o primeiro que fiz no Brasil porque o selo Vinyl Land é baseado em Londres, os discos (fora esse feito aqui) estão lá, no estoque. Algumas pessoas não entendem porque são duas lojas (Brasil e UK), mas é simples: a compra é feita do mesmo jeito, chega pelo correio, normal, provavelmente pelo mesmo preço que seria pago no Brasil, mas os vinis vêm da Europa. Porém, como tive a oportunidade de ter o apoio da Lei de Incentivo para lançar esse “Collectors Choice BH 2013”, achei coerente que esse dinheiro ficasse no país, e também quis apoiar a Polysom. A fábrica está lá, pra gente usar, e eles já estão com uma qualidade muito boa. Gostei demais do trabalho. O investimento para se fazer um disco no Brasil é um pouquinho mais caro. Se a gente comparar o valor por cópia, a diferença não é tão grande assim, mas a quantidade mínima faz com que a paulada inicial seja grande. Eu, como selo, fiz a opção nestes cinco anos de lançar mais discos em menores quantidades. Querendo ou não, o retorno acaba sendo mais lento, afinal os discos estão na Europa e isso faz com que eles sejam mais difíceis de vender. Esse “Collectors Choice BH 2013” – que está sendo vendido na loja brasileira da Vinyl Land – faz com que a gente comece a cogitar (fazer mais coisas aqui no Brasil). Só tem a Polysom, e eles são a única fábrica da América do Sul. É preciso buscar algum jeito de conseguir uma isenção especial para eles, quase um subsidio, para que isso facilite o preço, afinal eles tem concorrência de fora.

Já pensou em um Volume 2 desta Collectors Choice BH?
Daria para fazer agora outra coletânea com outras 20 bandas tranquilamente, só com música de boa qualidade, mas estou pensando em produzir uma coletânea mais temática, apenas com marchinhas de carnaval de Belo Horizonte. Minha ideia é registrar esse momento de revival, isso que vem acontecendo dos últimos três anos pra cá, um movimento espontâneo que traz várias reflexões. Algo semelhante ao “Collectors Choice BH 2013”. Não é só a música, sabe. Tem toda uma história acontecendo em BH, que a gente fica torcendo para que o resto do Brasil descubra.

O Carnaval de blocos em São Paulo foi muito bacana neste ano, mas ainda assim não temos um campeonato de marchinhas como o que ocorre em Belo Horizonte…
O Troféu é uma homenagem ao saudoso Mestre Jonas, sambista de Belo Horizonte falecido em 2011 que está representado na “Collectors Choice BH 2013”: a música “Samba Mudo” é uma parceria do Tiago Delegado com o Mestre Jonas. Estou muito empolgado com BH.

E com o vinil, você está empolgado?
Demais! A Vinyl Land está completando 5 anos…

E no começo você teve que desbravar…
Sim. A Polysom estava fechada na época, e teve aquela leva de compactos da Monstro Discos, que chegou ao mercado nesse hiato (entre 2002 e 2008). Comecei a Vinyl Land quando a Monstro parou. Lancei Dead Lover’s, Autoramas, Lê Almeida, Rock Rocket e Canastra. Depois vieram Graveola, Curumin, Lucas Sant’Anna, Tulipa Ruiz… Estamos lançando agora o “Sintoniza Lá”, do B. Negão e os Seletores de Frequência. Já são quase 25 discos no catálogo.

Conheço lojistas que começaram a trabalhar com música nos anos 80, e eles tinham vinil na loja. A coisa foi extinguindo até chegar um momento, no final dos anos 90, que era só CD. E até alguns anos atrás era assim: você entrava numa loja e só tinha CD pra vender. Agora, 2013, muitas destas lojas não só voltaram a ter vinil, como tem mais vinil do que CD para vender…
Acho que foi a ressaca causada pelo MP3, que acabou causando um movimento oposto formado por pessoas que valorizam o tempo, o sossego de chegar e colocar o vinil para tocar, olhar a capa… São pessoas que vão a uma feirinha e, com R$ 50, compram três discos, e chegam a casa e vão ouvir esses discos, não vão fazer como com o MP3, que fica numa pasta esquecido. Não vão ouvir no meio do trabalho: essas pessoas criam um tempo para ouvir música. É outra relação. Claro, também há modismos…

O Guardian publicou uma reportagem em julho que, entre outras coisas, fazia uma comparação: no ano passado, a indústria da música vendeu 12 milhões de vinis, e esse número vem quase todo das lojas pequenas. Porque a cada 250 vendas numa megastore, uma é de vinil. Em lojas pequenas, a cada 7 vendas, uma é de vinil. Pra mim, essa retomada também é uma revalorização das pequenas lojas, da música como agregadora. A pessoa vai à Feira de Vinis e fica lá conversando. Tudo bem, não dá para comparar o Brasil com o Reino Unido…
A maneira como a indústria brasileira acabou com as fábricas de vinil foi muito cruel. Foi completamente intencional. Existiam várias fábricas no Brasil com máquinas de corte, máquinas de prensa, e foi tudo sucateado de propósito. Pessoas dessa época contam várias histórias. Outro dia me contaram que teve gente (de gravadora) que jogou máquina no mar! Isso sem contar àquelas peças que foram vendidas pelo preço do peso, para se livrar mesmo.

Visando impulsionar a fabricação e proliferação de CDs…
Para que ninguém usasse a tecnologia (e fizesse mais vinis)! Isso está acontecendo novamente, agora com a película. Os projetores estão sumindo! Você ouve falar de um cinema que agora está com projetor digital, e vai perguntar do outro projetor, o que aconteceu, e a pessoa não sabe dizer. Sumiu. Estão sucateando também. Porque um projetor desses nas mãos do cara certo vira um cineclube, e tem gente que acha que é concorrência. No caso das fábricas de vinil, eles queriam que a transição para o CD fosse mais rápida, e que o público começasse a comprar tudo novamente. Então se você tinha o “Álbum Branco”, dos Beatles, em vinil, ia ter que comprar novamente em CD.

Até porque os toca-discos pararam de ser fabricados! Havia muita gente que tinha o vinil, mas não podia ouvir, porque o aparelho quebrou, e era mais “barato” comprar um aparelho de CD do que arrumar o toca-discos antigo.
Aconteceu em outros lugares do mundo também, mas não foi tão cruel como aqui. As cenas dance e rap, por exemplo, nunca pararam de prensar vinil lá fora. Nós, no entanto, perdemos o bonde da história.

Mas tem vários selos surgindo…
De dois anos para cá a coisa melhorou muito. Tem muita gente lançando discos no Brasil, mas também há muita gente bobeando. O pessoal do Móveis Coloniais de Acajú, por exemplo. Na banca deles tem chaveiro, camiseta, pôster, CD, pendrive, mas não tem vinil. Se tivesse, eles venderiam fácil.

Voltando ao “Collectors Choice BH”. Será que rola uma versão 2014?
Se dependesse de mim, eu fazia uma coletânea por ano, todo ano. Mas é preciso verba. No entanto, eu tenho vontade de fazer um “Collectors Choice Brasil” mesmo, um recorte da cena atual. Há muita coisa boa. Gostei muito dos discos novos do Porcas Borboletas e do Gabriel Muzak. Queria lançar, por exemplo, um vinil do Wado! Ele já está no sétimo álbum, é talentoso, já cheguei a rascunhar uma coletânea de canções dele, e teria que ser dupla para contemplar o melhor dos sete discos. Mas ficaria caro. (Trabalhar com discos no Brasil) é uma coisa meio de guerrilha, e eu torço para que o cenário no Brasil melhore, seja sustentável, para que eu possa lançar cada vez mais discos. A ideia é essa.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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