Boteco: Na Holanda, arte e cerveja em Delft

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por Marcelo Costa

Em 2007, visando recuperar uma tradição cervejeira que estava se perdendo em sua cidade natal, Aad van der Hoeven lançou o livro “Delft, stad met een vergeten bierhistorie” (Delft, Uma Cidade com uma História Esquecida de Cerveja). Delft, cidade neerlandesa cortada por canais (que lhe valeu o apelido de Mini Amsterdam) e situada a 9 km de Haia e 18 km de Rotterdam, é mais conhecida por ser a casa do segundo pintor holandês mais famoso da história, Johannes Vermeer (autor de quadros como “Mulher com Brinco de Pérola”), mas o livro de Aad van der Hoeven (e, posteriormente, o site) colocou a cerveja da cidade em pauta. Sem nenhuma cervejaria na cidade para refazer as receitas antigas, a Klein Duimpje (Pequeno Polegar), da cidade de Hillegom, a 40 minutos de Delft, assumiu um cardápio que, hoje, conta com oito rótulos históricos. Em 2013, veio a grande ideia: unir duas famosas tradições da cidade, Johannes Vermeer e Delft Beer. Abaixo, dois exemplares adquiridos na loja sobre Vermeer na praça central de Delft (7 euros por duas garrafas de 330 ml).

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A Vermeer Mueselare Bier traz em seu rótulo o quadro “A Leiteira” (“The Milkmaid”), pintado por Johannes Vermeer em 1657. A receita da cerveja, porém, é ainda mais antiga, datada de 1550, um período em que quatro cervejarias diferentes de Delft começaram a produzir uma Tripel intensa para exportação. De coloração amarelo palha e espuma majestosa que marca as laterais da taça, a Vermeer Mueselare Bier traz no aroma lúpulo e levedura trabalhando em conjunto e dispersando notas cítricas (que remetem a casca de laranja e maracujá), sugestão de especiarias (semente de cravo e coentro) e trigo (pão e feno). A primeira sensação do paladar é suave com acidez, amargor, adocicado e salgado em perfeito equilíbrio (sensação de limão siciliano, pêssego e banana). Na sequencia, especiarias, levedura e lúpulo dão um toquezinho amargo com leve sugestão de mel. O final é seco e cítrico enquanto o retrogosto pastoso remete a trigo e massa de macarrão. Um tripel meio exótica.

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A Vermeer Gruyt Bier traz em seu rótulo uma réplica do quadro “Garota de Chapéu Vermelho” (“Girl with a Red Hat”), pintado em 1666. Assim como a Vermeer Mueselare Bier, a receita é mais antiga que o quadro, e data de 1330, período em que as propriedades do lúpulo ainda não eram conhecidas, e para temperar a cerveja era usado uma mistura de ervas locais e folhas (chamada Gruyt). No caso da Vermeer Gruyt Bier, a receita une malte, trigo, aveia e seis tipos de ervas diferentes (como a erva de São João e a Lady Woodruff) – há uma quantidade mínima de lúpulo, segundo a cervejaria, na tentativa de retomar os velhos tempos. A coloração é dourada é a espuma pequena e de baixa permanência. No aroma, notas herbais e maltadas se sobressaem com leve percepção de trigo, condimentos e notas frutadas (banana) e cítricas (limão) além de um leve amanteigado. O paladar é condimentado, simples e levíssimo, com acidez, amargor, adocicado e salgado equilibrados. O final é suave com sugestão de cítrico e o retrogosto reforma essa sensação. Uma cerveja interessante.

Vermeer (Delft) Mueselare Bier
– Produto: Tradicional Ale
– Nacionalidade: Holanda
– Graduação alcoólica: 7,5%
– Nota: 3,25/5

Vermeer (Delft) Gruyt Bier
– Produto: Tradicional Gruyt Bier
– Nacionalidade: Holanda
– Graduação alcoólica: 5,5%
– Nota: 2,95/5

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Leia também
– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)
– Europa 2013: Um passeio cervejeiro (aqui)
– O conto de duas cidades (holandesas) (aqui)

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