Para entender: Cold War Kids

por Andressa Monteiro

A Califórnia será continuamente lembrada por abrigar em seu berço grandes artistas e bandas da história da música, entre eles The Doors, Red Hot Chili Peppers, The Breeders, Creedence Clearwater Revival, Crosby, Stills & Nash (and Young), Bad Religion e The Beach Boys, apenas para citar alguns.

Em 2006, com o lançamento de “Robbers & Cowards”, o Estado acabou revelando mais um grupo de músicos talentosos e promissores: o Cold War Kids, californianos que entraram no radar de grandes produtores e do público alternativo com o sucesso de duas canções – “We Used to Vacation” (que traduz a vida de um trabalhador lutando por sua sobriedade e família) e “Hang Me Up To Dry” (que conversa com uma sonoridade caótica e confusa narrada por uma voz potente e aguda – que remete ao cantor Jeff Buckley).

Ambos os hits já eram o suficiente para conquistar uma grande parcela de fãs. Porém, o que muitos não sabiam é que o Cold War Kids não era apenas uma banda de músicas pop e grudentas. O resto do álbum provava e apontava para um trabalho bem mais evoluído, e que com o passar dos anos exibiria moldes experimentais e surpreendentes, principalmente com a chegada do segundo disco “Loyalty to Loyalty” (2008).

O grupo, até então formado por Matt Aveiro (bateria e percussão), Matt Maust (baixo), Jonnie Bo Russell (guitarra, piano e vocais) e Nathan Willett (vocal, piano e guitarra), anunciava no início de 2010 a saída de Russel para que Dann Galluci (ex-Modest Mouse) assumisse as guitarras no que seria o terceiro álbum de estúdio da banda, “Mine is Yours”. Na época, eles já tinham aberto shows e saído em turnê com gente grande como Muse, White Stripes e Death Cab for Cutie.

Com quatro registros (o último deles, “Dear Miss Lonelyhearts”, chegou ao mercado em abril de 2013), a banda ainda divide opiniões, elogios e críticas se tratando da qualidade, das escolhas e das decisões musicais do grupo. Tal questão se acentua devido ao fato do primeiro álbum ser tão diferente do resto da obra criada, dando a sensação de que a formação inicial nunca mais “seria a mesma”.

De qualquer forma, a fusão do rock alternativo, do blues setentista e do eletrônico ao menos merece mais do que uma rápida audição para ser verdadeiramente contemplada e notada, por mais que não agrade a todos os ouvidos atentos.

Podemos dar a eles o benefício da dúvida e do esforço (pois não é toda banda que tem coragem de mudar e de sair de sua zona de conforto) ao conseguir criar uma discografia única, reconhecendo e renunciando referências e influências pessoais de cada membro do grupo. Tomara que eles consigam deixar sua história e sua marca registrada ao logo dos próximos trabalhos e que também continuem em transição constante.

Preferências à parte, deixamos aqui uma pequena descrição de cada obra do acervo musical da banda e a sua evolução durante estes sete anos de estrada. O mais importante a salientar é que, no final das contas, o Cold War Kids nunca fez um álbum previsível, o que representa mentes e criações em permanente movimento e singularidade.

Robbers and Cowards (2006) – Apresentação e identificação

O timbre potente e excepcional de Willet, misturado com as notas distorcidas vindas do piano e das guitarras de “Robbers and Cowards”, primeiro disco do grupo, lançado em 2006, é fascinante, pois a mesma sonoridade que consegue ser agressiva e direta é, também, muito bem arranjada no meio do que alguns podem definir como confusão, barulho e gritaria.

Nos elementos instrumentais, notamos a união das guitarras e dos solos de blues se confundirem com as notas doloridas de outros instrumentos, recortando a canção em pedaços para depois agregar vocalizes agudos e melódicos, juntamente com curvas e aspectos do gospel presentes no disco como um todo.

Quando uma banda consegue descrever com tanta naturalidade sobre rotas e estradas que levam a caminhos desconhecidos, apostas e jogatinas misturadas com problemas de alcoolismo e outros complexos familiares e amorosos, cria-se um conjunto de artefatos modernos, mas que ainda sim soam como clássicos influenciados por artistas como Bob Dylan.

Assim como rappers ao estilo de Kayne West, que vangloriam o nome de Deus em suas canções e que ainda assim não podem ser considerados artistas e bandas cristãos ou de cunho religioso, o Cold War Kids segue a mesma linha, principalmente em seu disco de estreia.

Você pode perceber isso nas principais canções: “Hospital Beds” onde Nathan canta: “Put out the fire on us”, simbolizando uma espécie de batismo ou de redenção que se repete na música “Saint John”: “All us boys on death row / We’re just waiting for a pardon” – descrevendo uma sentença de morte seguida por perdão divino. Definitivamente, a teologia é um tema bastante presente no disco.

“Robbers and Cowards” é o trabalho que fará com que você se apaixone ou odeie definitivamente o lado soul e desordenado pelo qual a banda até o presente momento pode ser definida.

Loyalty to Loyalty (2008) – Introdução à fase sombria e experimental

As letras narrativas que tratam de temas políticos e filosóficos em “Loyalty to Loyalty” são mais carregadas de tristezas e de frustrações gerando um tom nebuloso. O álbum teve seu título retirado de um trabalho do filósofo Josiah Royce (“Loyalty to Loyalty: Josiah Royce and the Genuine Moral Life”), que fala sobre a descentralização das massas populacionais e a união de comunidades locais ao invés de tornar o ser humano um ser individualista e solitário.

A primeira faixa do álbum, “Against Privacy”, explica melhor as ideias de Willet com origem no livro de Royce: “Forget ex-girlfriends / We want little governments / We tell stories / We want to get you to join in / Call us optimistic / We get the meanest looks / We are bar stool romantics / History books will show / History books will show”. As canções “Welcome to the Occupation” e “Mexican Dogs” também trazem um acento político.

Em “Every Man I Fall For”, com certeza meninas e meninos irão gostar da parte em que o vocalista canta: “Every man I fall for / Works The graveyard shift / He kiss me softly / To wake me up / Then takes my place in bed”. O frontman conta que escreveu essa letra considerando a visão que a mãe tinha sobre o que era amar.

O segundo disco abraça novos temas e diz adeus ao culto de questões e sermões religiosos. Ele também se aproxima de pontos mais comportamentais e engajados. Quando pensávamos que o Cold War Kids era uma banda potente, com um quê de agressividade e de hits fáceis, o segundo disco vem e quebra esse paradigma. Dessa forma, muitos podem concluir que “Loyalt to Loyalt” nada mais é do que uma etapa que deve ser esquecida, abandonada, deixando de considerar que o correto é contemplar o álbum imergindo nas dores e ideais da banda.

Mine is Yours (2010) – Volta ao soul e as faixas pop

Lançado em janeiro de 2010, “Mine is Yours” aposta em uma pegada mais comercial e que deixa todas as questões filosóficas e políticas de lado para questionar os relacionamentos amorosos, dignos de serem ouvidos e compartilhados por casais apaixonados ou que enfrentam crises no relacionamento.

Além do natural foco na soul music, há uma perceptível aproximação da banda com o pop e com a celebração à vida, em canções ensolaradas e típicas de bandas nascidas nas praias da Califórnia (leia-se Best Coast e derivadas).

Destaque para as excelentes “Skip the Charades”, “Cold Toes on The Cold Floor”, “Bulldozer”, “Louder Than Ever”” e “Flying Upside Down”, que destaca o trecho: “Ambition and she looks good on you tonight / She holds your hand and runs / Your lungs are burning bright / Morning comes like it almost always does / You want to hold her but you know you can’t keep up.”

No terceiro trabalho, a conquista e o retorno dos antigos e novos fãs se cruzam: aqueles que procuravam por um som mais acessível e de simples interação chegam, e os que estavam sentindo falta de uma formação mais robusta, alegre e energética voltam.

Dear Miss Lonelyhearts (2013) – Densidade vs eletrônico dançante

Composto por 10 canções e lançado no último 2 de abril, o nome do disco faz referência à um romance chamado “Miss Lonelyhearts”, de Nathanael West, que se passa no período da Grande Depressão, como ficou conhecida a crise econômica mundial da década de 1930.

Em entrevista ao Huffington Post, Nathan afirmou que o álbum “teve influência de um livro que fala sobre um colunista que dá conselhos aos seus leitores. Ele então enfrenta uma crise por não saber como ajudar o seu público, a menos que inicie uma jornada para conhecer a si próprio. A luta desta personagem funcionou bastante para a criação das canções do disco.”

“Dear Miss Lonelyhearts” é um disco denso e melancólico. Porém, a voz do cantor nunca esteve tão nítida e limpa quanto antes. A pegada aqui remete a New Order, David Bowie e Depeche Mode. O disco se distancia do blues e do indie, namorando mais uma vez com o experimental, que agora deixa de ser sombrio e vira dançante, com diversos efeitos eletrônicos, sem canções comerciais – a não ser se consideramos “Jailbird” pela duração curta e pegada mais rock.

Músicas como “Fear & Trembling” e “Tuxedos” imergem em uma atmosfera nostálgica vinda do baixo, do piano (no caso, com som de órgão) e dos vocais quem em alguns momentos se transformam em um coral. “Water & Power” e “Bitter Poem” são musicas simples, delicadas e esperançosas. “Bottled Affection”, “Loner Phase” e “Lost that Easy” são faixas eletrônicas para se ouvir na balada.

“Miracle Mile”, a primeira música de trabalho, é boa e anima, mas por talvez ser mais enxuto e arriscado em suas melodias, excepcionalmente é menos criativo e envolvente do que os demais discos. Ainda assim, o resultado final não deixa de ser bonito.

Felizmente, as faixas ainda exibem a assinatura da banda traduzida em harmonias e composições bem estruturadas com a união marcante de um vocal sempre absorvente e exótico. O disco pode não ser atraente na primeira audição, o que apenas mostra que ele deve ser digerido e degustado com tempo, e não visto como um projeto descartável e incompreendido – assim como foi “Loyalt to Loyalt”.

EPs, Covers e Lados-B

Antes de “Robbers & Cowards”, o Cold War Kids fez seu debut com o EP “Mulberry Street” (2005), e que nada mais é do que uma extensão de canções menos poderosas do que as escolhidas para o primeiro disco. O mesmo não pode ser dito do segundo EP – também lançado no mesmo ano e chamado de “With Our Wallets Full” –, somente por grande parte das canções também estarem presentes em “Loyalt to Loyalt”, destacando “Hair Down” e “Tell me in the Morning” como as melhores.

O terceiro EP, “Up in Rags”, é uma reunião das músicas de maior sucesso, incluindo “Hang me up to Dry”, “We Used to Vacation” e “Hospital Beds”. Entre outros lançamentos de shows ao vivo, o último EP, “Behave Yourself”, de 2009, exibe canções resultantes das misturas dos discos “Loyalty to Loyalty” e “Mine is Yours”. Vá atrás de “Audience” e “Baby Boy”.

No quesito covers, a banda tenta fugir do óbvio. Entre as diversas homenagens escolhidas pelos integrantes estão “You Don’t Come Through”, da The Band, “Opium Tea”, de Nick Cave e “There is a War”, de Leonard Cohen. Em 2006, eles lançaram “Benefit at the District”, um EP todo de covers distribuído gratuitamente pela Spinner (ainda é possível baixar) destacando canções de Elvis Costello, Tom Waits, Fiona Apple e Dr. Dog.

Finalmente, na parte de lados-B, destaque para “Bullies Always Wins”, b-side que vinha na pré-compra do disco “Loyalt to Loyalt”, pelo Itunes, e que brinca com o jazz – gênero que nunca chegou a aparecer nos trabalhos corriqueiros do grupo. Já a canção “Robbers” ganhou uma versão em vídeo dirigida por Stephen Latty e gravada na Alemanha, que mostra a banda em um palco escuro, enquanto apenas alguma luzes iluminam os rostos da platéia. No final, o poeta Derrick Brown recita o seu poema “A Kick In The Chest”, transformando a música em uma espécie de transe e contemplação. Vale a pena assistir!

***
– Andressa Monteiro (siga @monteiroac) é jornalista e assina o blog Goldfish Memory

Leia também:
– Coachella 2011: Cold War Kids fez um show bonito ao entardecer do deserto, por Mac (aqui)
– “Loyalty To Loyalty”: Cold War Kids namora jazz e blues no segundo álbum, por Mac (aqui)

4 thoughts on “Para entender: Cold War Kids

  1. Essa foi uma banda que eu gostei desde antes do primeiro álbum… porque eles lançaram uns EPs muito bons, com faixas que inclusive nem saíram nos álbuns.

    Mas eu acho que a qualidade dos dois primeiros discos não se repetiu nos posteriores.

  2. Os dois primeiros álbuns (principalmente o primeiro) são duas verdadeiras obras-primas. Os discos posteriores, pra quem conheceu a banda com o debut, são decepcionantes…

  3. O Robbers and Cowards é um daqueles discos que eu sei todas as letras, de cor. Grande estreia da banda, e um dos 5 melhores álbuns da última década, com folga.

    Não vejo muita diferença entre ele e o Loyalty, acho-os bem parecidos na verdade, uma espécie de continuação, que por muito pouco, não se iguala ao primeiro disco. O começo, com Against Privacy é de arrepiar.

    Fiquei muito decepcionado com o Mine is Yours, que me soou forçadamente comercial, sem aquela pegada de desordem, soul sujo e músicas fortes do primeiro disco.

    Não escutei o último, quando li as resenhas, preferi colocar Hang me Up to Dry no som em uma altura considerável.

    Mesmo assim, banda gigante, estreia arrasadora, segundo álbum pulverizando a famosa síndrome e nenhum traço de medo quanto a mudança.

    Ao vivo, deve ser absurdamente foda!

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