Entrevista: Camila Zamith, Sexy Fi

por Marcelo Costa

Durante os anos 00, o Nancy sempre soou como um segredo guardado a sete chaves no quarto de alguma superquadra candanga. O lançamento do álbum de estreia, “Chora Matisse”, em 2009, serviu para demonstrar que ali havia uma banda buscando intensamente fugir do óbvio. Na virada da década, com mudanças na formação e um desejo de seguir outros caminhos, o grupo foi rebatizado como Sexy Fi, gravou com John McEntire (Tortoise) e lançou “Nunca Te Vi de Boa” (2012), álbum que apareceu em diversas listas de melhores do ano.

Única moradora de São Paulo (JP Praxis, Diogo Saraiva, Ivan Bicudo, Márlon Tugdual e Fernando Lanches moram e ensaiam em Brasília), a vocalista Camila Zamith abriu um espaço na hora do almoço para conversar com o Scream & Yell sobre Nancy, Sexy Fi, “Nunca Te Vi de Boa”, Brasília, a produção de John McEntire e o desejo de soar interessante: “Porque banda desinteressante é de morrer”, diz Camila, que quer continuar escrevendo e cantando no Sexy Fi. E viver disso. Com você, caro leitor, uma banda que se orgulha de ser de Brasília.

Como você conheceu a banda?
Na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília. Fui transferida para a UnB, Jornalismo, e lá conheci o (João Paulo) Praxis, e soube que ele tinha uma banda, que era a Nancy, na época uma banda instrumental. É aquela coisa: eu sempre soube que eu sabia cantar, que eu queria cantar, mas é o tipo de coisa que você nunca fala pra ninguém (risos). Guarda pra você porque vão achar que você é louca. E eu gostei do estilo do Praxis e, um dia, falei pra ele: ‘Eu canto’. E ele me chamou pra fazer um teste. Isso foi em 2002, e estamos tocando juntos desde então.

Essa sua entrada mudou alguma coisa musicalmente na banda?
Acho que ficou um pouquinho mais pop. Não que eu seja necessariamente pop, mas acredito que quando se adiciona um vocal (a uma banda que era instrumental), você precisa seguir alguns caminhos… Posso até estar falando besteira, mas acho que ficou um pouco mais pop. Eu e João Paulo escrevemos bem juntos, a banda participa das composições, mas o grosso do material, a estrutura, sou eu e João Paulo. E quando você precisa pensar em letra, querendo ou não, muda alguma coisa. Fica mais acessível.

Por que a mudança de nome: de Nancy para Sexy Fi?
Sinceramente… porque a gente não conseguia se achar no Google. É isso (risos). Há uma explicação mais interessante: a formação mudou, e passamos a querer seguir outros caminhos. Junto a isso, o fato de colocar ‘Nancy’ no Google e não sair nada nos fez mudar.

Essas músicas do álbum “Nunca Te Vi de Boa” já estavam prontas na época do Nancy?
Sim. Novo mesmo apenas alguns vocais. É que eu gravo o vocal e os guardo porque, como moro em São Paulo e eles em Brasília, fazemos tudo do Sexy Fi por MP3. Boa parte dos vocais desse disco são com a formação Sexy Fi que existe hoje.

Você é meio cidadã do mundo, já se mudou e morou em várias cidades. Quanto tempo você ficou em Brasília?
Morei três vezes separadas lá. No total, oito anos.

E devem ter sido fases de formação porque Brasília exerce uma força imensa sobre a banda…
Exatamente. Somos uma banda de Brasília – mesmo com a minha família sendo do Rio. A única outra cidade que morei no Brasil além de Brasília é São Paulo. E Brasília é uma cidade… única. Existem muitas pessoas como eu em Brasília, que se mudam sempre e tem esse conceito de “third culture kids”, de serem pessoas de uma terceira cultura. Isso é muito forte lá. Já o Praxis, o Diogo (Saraiva) e o Ivan (Bicudo) são de uma geração nascida em Brasília. Então, a minha relação com a cidade, por ter ido pra lá devido à profissão dos meus pais, é um pouco diferente, um pouco de amor e ódio. Afinal, é uma cidade bem complicada…

Muito complicada. Ainda mais para um cara como eu que não é tão a favor de carros… não tem carta…
Você não vive em Brasília (sem carro). Para ir na padaria é uma aventura. Você consegue, óbvio, mas você usa o carro para tudo. Além disso, tem o fato do nosso governo ser lá. Quando o Rio era a capital federal, deveria ser diferente, mesmo sendo uma cidade muito mais urbana e diferente de Brasília, que foi criada para ser a sede do governo.

Sempre bato na tecla de que Brasília foi criada para tirar o governo de perto do povo… mas ainda assim, sendo o que é, um museu a céu aberto, a pessoa não consegue ficar alheia a ela.
Exatamente. É uma coisa meio inacessível e você não pode ter uma existência independente da cidade. É uma cidade que vai te formar. E me formou, com certeza. Ela vai te impactar de alguma maneira. Ou vai te deixar uma pessoa mais isolada, porque os setores propiciam isso, ou uma pessoa super sociável que irá correr atrás das pessoas. Não é uma coisa como você estar na praia e encontrar alguém, ou caminhar na Rua Augusta… Em Brasília você tem que ir aos lugares para ter contato social. Tem que fazer um esforço.

Então o Sexy Fi não poderia ter nascido em outra capital? Tipo Salvador…
Acho que não. Ao menos do jeito que ele é. Porque é uma coisa de Brasília e não é só algo político, há uma vida própria ali, e é muito especifica. A gente queria retratar um pouco disso nas letras, apesar de ser meio inconsciente, mas quando percebemos que estava acontecendo, que estávamos indo por esse caminho, achamos que poderia ser legal. Porque sabemos falar disso em primeira pessoa, porque vivemos isso. Eu vivo isso mesmo morando em São Paulo. Minha banda é de lá e sempre estou em Brasília.

Como funciona o Sexy Fi no dia-a-dia? Vocês trabalham online trocando ideias por e-mail e MP3, mas e ensaios, shows…
Sou a única que está fora de Brasília, mas eles sempre ensaiam, quase todo dia. Já para o disco fizemos o seguinte processo: eles me mandavam o que estavam fazendo e eu ou mandava o vocal por cima ou mandava o vocal puro, do início ao fim do jeito que ele é (“Keep Cooler” foi assim) e vamos discutindo os caminhos. O processo todo do disco foi feito na sala da casa do João Paulo. No momento que era pra fechar, eu fui pra Brasília, entramos em estúdio e gravamos tudo.

É ai que entra o John McEntire… Você foi junto para Chicago?
Não. Fui a única que não conheci ele. O problema é que o meu vocal foi gravado separado porque as agendas não estavam batendo. Acabei gravando os vocais em Brasília. O que é uma pena…

É a experiência de estúdio, né. De estar ali com o cara e vê-lo trabalhando… O que o pessoal da banda te contou?
Que ele é muito quieto. Lembra Woody Allen, que é um diretor que fala muito pouco durante as gravações, e se ele não fala nada é porque está bom. Parece que esse é o estilo do John McEntire. Ele fica quieto, na dele, e deixa a coisa fluir. É um cara bastante tranquilo e solicito. Eles adoraram.

O disco repercutiu e está repercutindo bem tanto aqui no Brasil quanto lá fora…
A gente sempre se surpreende. Não é que não temos fé no que a gente faz, mas é que (o disco é) uma coisa tão pessoal que a gente não tem ideia do impacto que isso vai causar (em outra pessoa). Não pensamos nisso e não é falsa modéstia. Ainda assim, o fato do disco repercutir bem não muda muita coisa no nosso dia-a-dia (risos). É legal porque abre a porta para shows.

E como está a agenda?
Tocamos no Rio, e estamos acertando algo para São Paulo. Estamos conversando com a gravadora em Londres para acertar algo por lá. Nos chamaram para o South By Southwest, mas acabamos não indo porque queríamos privilegiar a gravação do vídeo.

Em “Looking Asa Sul, Feeling Asa Norte” você canta que ninguém é normal sem medicação. Ninguém?
Ninguém. Eu acredito piamente nisso (risos). Já tive experiência de tomar medicação e isso (da letra) é uma coisa minha, autobiográfica até. Tenho um amigo que sempre me diz: “Existe uma pilulazinha que vai te ajudar? Toma”. É por ai…

Você consegue ver bandas irmãs do Sexy Fi?
(um longo silêncio) Hummm, tem o Satanique Samba Trio, de Brasília. Talvez o Holger, não sei se porque eu os conheço, e mesmo o som sendo um pouco diferente, mas acho que tem a ver. A gente já tocou com eles nos Estados Unidos…

Quando li algumas entrevistas de vocês, me surpreendi porque o Praxis é bastante brincalhão, sarcástico e irônico, mas isso tudo não aparece nas músicas…
Eles são mesmo! Chegam até a serem meio encrenqueiros (risos). Mas a gente faz o que gosta. Eu pelo menos tenho uma regra, que também diz muito sobre como o Praxis pensa: a gente tem que ser interessante. É uma obrigação. Porque banda desinteressante é de morrer. Tipo o Muse, o Keane… Não me dizem nada. É como abrir um iogurte (risos)…

Acho que abrir um iogurte é mais interessante que ouvir Muse… (risos)
(risos) Sim, me amarro nos desnatados (mais risos).

É um bom desejo querer soar interessante!
Eu acho! E não só como banda, mas como pessoa mesmo. Você não tem que querer ser bonitinho, você tem que ser interessante. E isso não tem relação com ser intelectual. Tem relação com não ser óbvio.

Vi uma definição sobre vocês que gostei bastante: “Por vezes, o som da Sexy Fi soa tímido como o primeiro dia de colégio duma criança, em outras, com a ferocidade dum animal.” O que você acha disso?
Eu acho que sou a parte tímida (risos). Sério. O Guardian (acho) falou algo parecido: que o som da gente espeta como grama; que a grama é uma coisa meio macia, mas que espeta. Tem meio a ver também. Esse espetar, para mim, tem relação com o ser interessante. Porque a gente quer assustar. O João Paulo falou isso pra mim no primeiro ensaio da banda. “Temos que assustar”. E para conseguir o efeito do susto é preciso criar momentos calmos. A gente sempre busca isso, não se acomodar e evitar repetir o que já fizemos. Gostamos, por exemplo de fazer alguns covers. Um que deu certo demais foi “Vumbora Amar”, do Carlinhos Brown, gravada pelo Chiclete com Banana, numa versão meio Nancy Sinatra. O pessoal se amarrou quando fizemos isso (ainda como Nancy). Fizemos “Criminal”, da Fiona Apple (foi a primeira coisa que fizemos juntos) e agora estamos pensando em fazer uma do Cidade Negra. Não adianta fazer um cover óbvio. E não é desejo de ser diferente, mas é porque o Praxis gosta mesmo dessas bandas.

Como você resume esses 10 anos de Nancy/Sexy Fi?
Pra mim, evolução e sorte. A gente nunca foi uma banda de tocar muito, mas conseguimos causar algum tipo de impacto com tudo que fizemos. Tudo que a gente escolheu fazer deu certo.

E os próximos 10 anos? Tem disco novo nos planos…
Tem, mas, de verdade, quero conseguir viver de música. A gente pensa nisso. Tudo que fizemos nestes primeiros 10 anos foi aprender a ser uma banda. Não existiria Sexy Fi sem os 10 anos de Nancy. Quero cada vez mais escrever e cantar. E viver disso.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Leia também:
– Nunca Te Vi de Boa”, do Sexy Fi, na lista dos 25 melhores álbuns nacionais de 2012 (aqui)
– Entrevista: Holger -> “A gente não se leva a sério”, mas “não somos uma piada” (aqui)

2 thoughts on “Entrevista: Camila Zamith, Sexy Fi

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.