Entrevista: José Barreiro, Portugal

Entrevista: José Barreiro
porBruno Capelas
, de Portugal

Entre os dias 30 de maio e 1º de junho, a cidade do Porto, em Portugal, receberá a segunda edição do Optimus Primavera Sound. Depois de sediar grandes shows de Wilco, Spiritualized e Suede em 2012 e receber 50 mil pessoas (com 70% de estrangeiros) em três dias de evento, o festival conta nesse ano com atrações de peso, como Blur, My Bloody Valentine, Nick Cave & The Bad Seeds, James Blake e Grizzly Bear.

“A grande novidade de 2013 é o nosso cartaz, e nele baseamos nossas expectativas na subida do número de expectadores”, avalia o diretor do festival, José Barreiro, que ainda vê como destaques as apresentações de Daniel Johnston, Breeders e a participação da All Tomorrow’s Parties e da Pitchfork como curadores do evento. “Ficamos orgulhosos de ter essas instituições ao nosso lado já na segunda edição, porque sabemos que eles não se unem a quem não tem sucesso”, explica.

Pela segunda vez, o Optimus Primavera Sound será instalado no Parque da Cidade, o maior parque urbano do país. “Há ali uma simbiose muito bonita com a natureza, com lagos, patos e coelhos, além de uma bela vista do Atlântico. Penso que temos um dos melhores recintos urbanos do mundo para se fazer um festival”, diz Barreiro, que há cerca de duas décadas é um dos organizadores do Paredes de Coura, festival que acontece em agosto e, neste ano, receberá Alabama Shakes, Lee Ranaldo, Palma Violets e Belle and Sebastian, entre outros.

Apesar de partilhar atrações e nome com o Primavera Sound de Barcelona, o festival português não quer seguir os passos de seu irmão mais velho e se tornar um megaevento. É o que explica o diretor do festival: “Em respeito à natureza do Parque da Cidade, nunca receberemos mais que 30 mil pessoas por dia. Queremos ser um bom festival médio a nível mundial, e nunca um festival de massas, o que estragaria tudo”.

A ênfase na qualidade é, de acordo com Barreiro, uma das marcas da edição portuguesa do Primavera Sound. “Não escalamos bandas pelo número de pessoas que elas possam atrair, gostamos de buscar nomes antigos que ainda marcam a música atual e estamos sempre buscando criatividade e novidade quando programamos nossos artistas”, explica ele, que afirma que seu evento tem liberdade para sugerir nomes à parte de Barcelona. “A ideia é sermos o irmão mais novo, mas mais esperto (risos)”, brinca.

Em entrevista por telefone ao Scream & Yell, Barreiro conta mais sobre a organização do Primavera Porto e fala sobre a relação com os patrocinadores, “sem eles, acredito que não sobreviveríamos, ou o preço dos ingressos seria muito mais alto”. No papo, o diretor do OPS também comenta o momento dos festivais portugueses em tempos de crise econômica do país e dispara farpas com a principal criação da família Medina. “O Rock in Rio é uma Disney World, é um festival que também tem música, mas é, acima de tudo, um produto”, diz.

O Optimus Primavera Sound chega à sua segunda edição em 2013. Quais são as principais novidades desse ano?

As novidades estão, acima de tudo, no cartaz do festival: conseguimos trazer o Blur, o Nick Cave, o My Bloody Valentine e por isso temos grandes expectativa na subida do número de espectadores em relação ao ano passado. No que diz respeito ao recinto, penso que temos um dos melhores locais do mundo para se fazer um festival urbano, e queremos continuar assim. As pessoas que não vieram no ano passado vão se surpreender.

Para além dos headliners, há algum artista que o senhor vê como destaque?

Numa segunda linha, em termos pessoais, eu destaco o James Blake, com o novo disco “Overgrown”. Tive a oportunidade de vê-lo no Coachella e acho um concerto muito bom, mesmo. O Grizzly Bear também traz um forte show, e eu estou curioso para ver as Breeders, a tocar o Last Splash. Há também o Daniel Johnston, um grande songwriter que não toca muitas vezes ao vivo e pode fazer algo bem interessante.

Voltando um pouco na história do festival, gostaria de saber como é que se estabeleceu o contato para a realização do Primavera Sound no Porto.

Sou um fã do Primavera Sound desde 2003, e há alguns anos surgiu uma amizade com os produtores de lá. Nós aqui em Portugal já fazemos um festival há 20 anos, o Paredes de Coura, e desde que fui a Barcelona pela primeira vez acreditei que seria uma grande ideia trazer o Primavera para o Porto. Há algumas semelhanças entre as cidades: o Porto é a segunda cidade de Portugal, ambas ficam à beira do mar, e são cidades marcadas pela criatividade e pela inventividade. Trabalhamos no projeto durante dois anos, conseguimos os apoios necessários, como o da Optimus [empresa de telefonia celular em Portugal] e a Câmara Municipal do Porto, e acabamos por convencer o pessoal de Barcelona para essa empreitada.

O festival de 2013 conta com palcos curados pelo site Pitchfork e pela All Tomorrow’s Parties. No que isso é importante?

A All Tomorrow’s Parties é dona de um dos festivais mais emblemáticos do mundo, e colaboraram conosco desde o ano passado. Já a Pitchfork, para mim um dos sites mais importantes de música do mundo, é uma das novidades de 2013. Eles vieram ao festival em 2012 e adoraram o evento. Para nós, é de grande interesse ter um parceiro dessa dimensão programando as atrações de um palco, além de nos deixar orgulhosos, porque sabemos que a Pitchfork não se juntaria a nós se não estivéssemos fazendo as coisas direito. Eles não se unem a quem não tem sucesso.

Na tua visão pessoal, quais foram os pontos altos da edição de 2012?

Acredito que conseguimos fazer um evento diferente da média dos festivais portugueses. Todos os pormenores foram bem pensados, dos palcos à preservação do Parque da Cidade. Conseguimos que nossos patrocinadores respeitassem o recinto, algo que é muito importante para nós. Além disso, uma coisa curiosa foi a alta presença de estrangeiros: 70% do público do festival não era de Portugal, coisa de 12 mil pessoas por dia. Para mim, foi uma satisfação perceber que o Porto já tenha ficado marcado pelo festival, ajudando a proposta turística da cidade hoje.

Já que o senhor é tão enfático sobre a beleza do Parque da Cidade, o senhor poderia explicar por que ele é tão importante para o Primavera Porto?

O Parque da Cidade é o maior parque urbano português. Fica ao pé do mar, onde a cidade do Porto acaba, e é uma zona fabulosa, com lagos, patos, coelhos, há ali uma simbiose muito bonita com a natureza, mas dentro da cidade. Tentamos preservar isso ao máximo, e espero que este ano o tempo esteja melhor um bocadinho, para toda a gente aproveitar a vista das zonas da praia que o Parque tem.

O Primavera Barcelona começou como um festival bem pequeno, e foi crescendo bastante ao longo dos anos. O Primavera Porto, por sua vez, já nasceu como um festival de médio porte. A ideia é seguir o mesmo caminho dos espanhóis e tornar-se um evento para multidões?

Não. Pela própria natureza do Parque da Cidade, e pelo respeito a esse recinto, nunca seremos um festival para mais de 30 mil pessoas. Queremos ser um bom festival médio a nível mundial, e nunca um festival de massas, o que acabaria por estragar tudo. Nossa meta para o futuro é ter uma cartaz cada vez mais forte.

Como funciona o planejamento do line-up do evento? Há liberdade para sugerir nomes à parte do Primavera Barcelona?

Cabe uma grande quantidade de bandas sob o guarda-chuva Primavera Sound. Algumas não vem a Portugal, outras não vão à Catalunha – afinal, um grupo pode ter sucesso aqui e não lá, e vice-versa. O importante é ressaltar que temos liberdade para sugerir nomes e tentar que o Porto não seja um irmão menor de Barcelona. Acredito que nos próximos anos as pessoas irão perceber melhor as diferenças, que já começam nos números: eles são um festival de 180 bandas, e nós nunca ultrapassaremos as 70.

Não é para ser um irmão caçula, é para ser um irmão com outras características…

Sim! É para ser um irmão… (pensa) português, que vai atrair um público que privilegia qualidade em vez de quantidade… digamos que é um irmão mais novo, mas mais esperto (risos).

Algo que certamente pode diferenciar o Porto de Barcelona é a escalação de bandas portuguesas. Analisando o cartaz desse ano, acredito que há um número baixo delas [são quatro: Memória de Peixe, PAUS, Dear Telehphone e The Glockenwise], especialmente agora que a música em Portugal vive um bom momento.

Concordo que há hoje uma série de bandas muito interessantes em Portugal, mas não há número suficiente delas com a qualidade ou o enquadramento Primavera Sound. Além disso, como somos um festival pequeno, é natural que haja poucas bandas daqui. Afinal, não programamos bandas por serem portuguesas, programamos porque elas têm qualidade. Não trabalhamos com cota, por isso lhe digo que dificilmente esse número irá crescer.

O senhor fala em um enquadramento Primavera Sound. É possível defini-lo?

Definir esse enquadramento é contar a história da marca Primavera Sound desde seu início. É um festival que programa pela qualidade, e não pela quantidade ou pelo número de pessoas que uma banda possa atrair. Gostamos de buscar nomes antigos, mas que de alguma forma continuam a marcar a música atual. Não levamos em conta a nacionalidade das bandas, e somos um bocado underground. Não é fácil muitas vezes encontrar em Portugal essas características todas. Queremos que o povo que nos visita possa ver nas bandas portuguesas algo que vê em qualquer banda de qualquer país.

As duas grandes patrocinadoras do Primavera Porto, a Optimus e a [cerveja] Super Bock, têm outros festivais aqui em Portugal. Como foi lidar com essas marcas e fazer percebê-las que o seu evento é diferente?

A questão começa aí: o público do nosso festival é bastante diferente do Optimus Alive ou do Super Bock Super Rock. No ano passado, tivemos 70% de estrangeiros, algo que não acontece em nenhum outro festival português. Depois, conseguimos envolver os nossos patrocinadores na dinâmica de respeito pelo Parque da Cidade. A Optimus, em vez de colocar bandeiras e lonas com sua marca, faz um parque de bicicletas e faz com que as pessoas venham de bicicleta ao recinto. A Super Bock, no lugar de espalhar promotoras a distribuir brindes pelo lugar, opta por modificar os bares e adaptá-los à realidade do parque. No fundo, não houve aqui uma distinção entre patrocinadores e organização – trabalhamos juntos com ideias.

Nesse ano, a edição de Barcelona perdeu seu principal patrocinador, a cerveja San Miguel, mas mesmo assim o festival parece bastante bem encaminhado. Acredita que o Primavera Porto teria a mesma sorte?

Neste momento, dada a realidade econômica portuguesa, não. Considerando a experiência como realizador do Paredes de Coura, acredito que os festivais em Portugal sobreviveriam sem patrocinadores, mas teriam de aumentar muito o preço dos bilhetes. O exemplo de Barcelona é interessante: lá, o último preço do passe geral era de 250 euros – no Porto é a metade disso, e nós estamos considerando a realidade econômica portuguesa, que vive um momento de retração.

Aqui em Portugal vocês têm cinco, seis, sete festivais anuais, cada um com público e perfil definidos, e que se realizam de maneira bastante sólida. Lá no Brasil, mesmo bem economicamente, parece não haver tal permanência, e o preço dos ingressos é bastante caro. O senhor teria algum palpite acerca desse assunto?

Cada país tem a sua tradição, então não é possível aplicar uma receita de sucesso portuguesa a um festival brasileiro. Entretanto, acredito que os brasileiros têm muito mais oportunidades de festa que os portugueses. Por qualquer coisa vocês fazem festa, são um povo alegre, muito divertido. Talvez por isso vocês não precisem tanto dos festivais, que são uma coisa mais europeia, mais anglo-saxônica. Eles surgiram na Inglaterra e nos EUA, e por mimetismo espalharam-se pela Europa, com suas idiossincrasias em cada país. Quanto ao preço dos ingressos, acredito que o Rock in Rio, que também se estabeleceu aqui em Portugal, pode nos dar uma boa resposta. Os patrocinadores compram muitos bilhetes e as pessoas acabam por participarem de concursos para irem ao Rock in Rio, o que encarece a venda direta ao público. Isso muda muito as coisas: o Rock in Rio é uma Disney World, é um festival que também tem música, mas é, acima de tudo, um produto. Não conheço a fundo a realidade dos festivais no Brasil, mas arriscaria um palpite nessa linha.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista, escreve para o Scream & Yell desde 2010 e assina o blog Pergunte ao Pop

Leia também:
– Diretor do Primavera Sound Barcelona, Alberto Guijarro conversa com o Scream & Yell (aqui)
– Entrevista: Enric Palau, um dos criadores do Sónar Festival, por Marcelo Costa (aqui)

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