Cinema: Dois Mais Dois, Diego Kaplan

por Leonardo Vinhas

Filme de maior sucesso na Argentina em 2012, com três semanas consecutivas liderando bilheterias em seu país de origem, “Dois Mais Dois” (“Dos más dos”, 2012) poderia ser vendida como uma comédia de costumes – o fato de ter vários atores conhecidos por seus trabalhos cômicos, como Adrián Suar, Carla Peterson e Alfredo Casero, só aumenta essa percepção. Porém, o filme do diretor Diego Kaplan vai além, e dá uma cutucada em vários aspectos do eterno conflito que é a vida em casal.

Diego e Richard (Suar e Juan Minujín) são dois cirurgiões cardíacos ricos e reconhecidos, sócios em uma badalada clínica. Suas respectivas esposas, Emilia e Betina (Julieta Díaz e Carla Peterson), têm sucesso em suas carreiras – Emilia é a “mulher do tempo” em um telejornal e Betina tem uma loja de roupas. São todos amigos de longa data, se frequentam e se dão bem. Uma noite em um bar, com todos bêbados, Betina decide contar que ela e Richard são praticantes de troca de casais, e isso planta uma semente em Emilia, que começa a questionar o comodismo sexual que se instalou na sua vida conjugal, gerando um conflito com Diego, que não se sente à vontade sequer para falar abertamente sobre sexo.

Com essa premissa, Kaplan poderia ter feito um filme bobinho, aquela comédia rasa que estamos acostumados a ver quando atores televisivos brasileiros vão para a telona, abusando do apelo sexual e do preconceito. Porém, o abalo no casamento de Diego e Emilia é apenas o ponto de partida para Kaplan examinar o quanto convenções – sejam elas conservadoras ou liberais – norteiam nossos desejos, e o quanto tais desejos estão distantes dos atos.

Para desenvolver isso com propriedade, Kaplan se fia na atuação de seu quarteto central, especialmente em Adrián Suar, que dá humanidade às restrições morais de seu personagem. É notável como ele não cai na tentação de transformar seu Diego em um palerma, tarefa colaborada pelos diálogos ágeis dos roteiristas Juan Vera e Daniel Cúparo (“parece que sou eu o esquisito do filme”, diz à Betina em um momento em que ela procura persuadi-lo ostensivamente a participar de um swing).

Porém, o melhor personagem está fora do quarteto sexual: Pablo Martel (Alfredo Casero), milionário amigo de Richard, organiza festas de swing em sua mansão, e promove animadas discussões sobre preferências e tabus sexuais, tal como um Rob Gordon das taras. Porém, falar sem cerimônia sobre tesão não é tão socialmente aceito quanto fazê-lo sobre música – e Martel é um obeso mórbido, com visual entre o andrógino e o infantilizado. A quebra de convenções que é ter um “guru do sexo” com essa apresentação incomoda a Diego e a muitos espectadores, que não estão preparados para discutir ménages com travestis ou acesso a áreas menos iluminadas do corpo sem incorrer em pesados juízos morais.

Nesse choque entre o que se crê “aceitável” e o que as pessoas estão realmente dispostas a aceitar reside o maior mérito do filme de Kaplan. E pelo visto, os argentinos estavam dispostos a pensar sobre o tema: nas três semanas que liderou as bilheterias argentinas, “Dois Mais Dois” angariou mais de 900 mil espectadores. Alguns críticos, entretanto, lamentaram o final “conservador”. As aspas estão ai porque, talvez, o final seja mais realista que qualquer outra coisa. Melhor evitar spoilers aqui, mas vale pensar: será que as atitudes conservadoras não são o refúgio mais seguro quando nos assustamos com nossa própria liberdade? Ou melhor, quando nos damos conta de que somos livres, mas não sabemos como lidar com isso?

Filme feito para divertir (a primeira parte, aliás, quase cai na comédia mais simplista), “Dois Mais Dois” cumpre seu intento. Mas dá para sair do cinema refletindo sobre algumas coisas. E se você está em um vivendo um relacionamento onde as coisas parecem não ser ditas como deveriam (quem nunca esteve?), pode até ser incômodo. Não é qualquer comédia que consegue isso.

Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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