CDs: Lanegan, Garwood, Cave, Thread

por Marcelo Costa

“Black Pudding”, Mark Lanegan & Duke Garwood (Ipecac/Heavenly)
A aproximação do multi-instrumentista Duke Garwood com Mark Lanegan data das gravações de “Blues Funeral” (2012). Garwood tocou guitarra em duas faixas (”Bleeding Muddy Water” e “Tiny Grain of Truth”) e passou a abrir os shows de Lanegan, que ficou impressionado com seu talento: “Trabalhar com ele foi uma das melhores experiências da minha vida”, disse o homem da voz banhada em bourbon quando os trabalhos de “Black Pudding” terminaram. Os fãs, no entanto, ficaram relutantes. Em uma lista de discussão (One Whiskey), um deles resumiu uma das duas apresentações que viu de Garwood abrindo para Lanegan como o pior show que assistiu na vida: “O segundo show foi mais suportável porque levei o meu Kindle”, fuzilou sem dó. Outros fãs acreditavam no dom de Mark Lanegan transformar em ouro tudo que toca, e assim que 12 faixas de “Black Pudding” silenciam, a sensação que fica é a de que o ex-vocalista do Screaming Trees poderia lançar um grande disco mesmo que acompanhado de Zezinho dos Teclados. “Black Pudding”, a faixa título, é um número instrumental para Garwood mostrar suas qualidades (e o cara é bom). “Pentacostal”, primeira faixa liberada do álbum, segue o entrelaçamento de violões da faixa título com a voz de Mark Lanegan em sua melhor forma. As boas canções se sucedem (“War Memorial”, “Mescalito”, “Last Rung”, “Death Rides a White Horse”) em um disco pastoral que deixa a sensação de reverência sem confronto: Garwood não retira Lanegan da zona de conforto, preferindo construir uma escadaria sonora para que a voz do parceiro brilhe ainda mais conforme sobe os degraus.

Preço em média: R$ 50 (importado – lançamento em maio)
Nota: 7

Leia também:
– Mark Lanegan ao vivo em São Paulo, por Carlos Messias (aqui)
– Mark Lanegan foge da obviedade em “Blues Funeral”, por Adriano Costa (aqui)

“Push the Sky Away”, Nick Cave and The Bad Seeds (Bad Seed Ltd.)
Dois álbuns esporrentos ao lado do Grinderman (2007 e 2010) e um garageiro com os Bad Seeds (“Dig, Lazarus, Dig!!!”, 2008) pareciam enterrar a face melódica de Nick Cave sobre uma tonelada de distorção. Ele, então, decidiu abrir a janela para iluminar seu quarto e, além de sua própria esposa nua, encontrou um mundo envolto em modismos derivados da internet. “As árvores não se importam com o cantar dos pássaros”, provoca a primeira frase de “We No Who U R”, uma balada meditativa a lá Leonard Cohen que também afirma que “nós sabemos que não há necessidade de perdoar”. O tom dado pela canção será seguido por todo o álbum, que, se por um lado, é o primeiro registro dos Bad Seeds sem Mick Harvey (que deixou a banda em 2009), marca o retorno de Barry Adamson, que assume o baixo na climática faixa título (que poderia sustentar a hipnose por mais de 15 minutos) e em “Finishing Jubilee Street”, que lembra algo da fase “The Good Son” (1990) e narra um sonho de Cave após compor uma das grandes canções do disco, “Jubilee Street”, que ganhou imagens de puteiro em um belo clipe. Composto por Cave e Warren Ellis (das 11 canções, inclusas duas faixas bônus, a dupla só recebe o auxilio do baterista Thomas Wydler em quatro), “Push the Sky Away” surpreende no romantismo apaixonado de “Wide Lovely Eyes” enquanto “Water’s Edge” poderia figurar em “Murder Ballads” (1996) e a absurda “Higgy Bosson Blues” coloca Robert Johnson e Miley Cyrus lado a lado enquanto questiona: “Quem se importa com o que o futuro traz?”. Daqueles discos para se ouvir, ouvir e ouvir… e continuar ouvindo.

Preço em média: R$ 50 (importado) R$ 70 (deluxe edition importada)
Nota: 8

Leia também:
– Discografia comentada: Nick Cave and The Bad Seeds, por Leonardo Vinhas (aqui)
– “Dig, Lazarus, Dig!!!” consegue unir o improvável: barulho e calma, por Mac (aqui)

“Killing Days”, American Thread (Independente)
Brendan Ahern formou o American Thread com o baterista Geoff Downing em Boston no primeiro semestre de 2012 e gravou “Killing Days”, o álbum de estreia, em julho. O primeiro show foi em outubro, mas só em fevereiro deste ano, já com os irmãos Michael e Gary Taggart assumindo guitarra base e baixo, que o American Thread fez seu primeiro show com formação completa. Em março, Brendan decidiu disponibilizar “Killing Days” gratuitamente no Bandcamp, e esse “lançamento” atrasado do disco levanta a questão: como circulou apenas informalmente em 2012 em Boston, vale incluir “Killing Days” na lista dos melhores discos de 2013, certo? Se a resposta for positiva, temos então uma das grandes estreias da safra 2012/2013 concorrendo a passos largos ao posto de disco do ano. Devoto confesso de Bruce Springsteen e The Pogues (“Directions to Heaven” cairia muito bem na voz de Shane MacGowan), Brendan Ahern quase encarna Michael Stipe na introdução bêbada de “Drink For The Damned”, que com banjo e vocal dobrado faz imaginar o barulho de copos de cerveja batendo sobre um velho balcão; empresta o espirito de Bob Dylan para emoldurar “Fisherman’s Lullabye” enquanto honra Billy Bragg em letras que flagram o olhar cansado da classe trabalhadora para o cada vez mais distante “sonho americano”. “12 Ounce American Dreams” lembra alguns dos melhores momentos de Jeff Tweedy – antes de ele descobrir a felicidade – enquanto “Fool’s Gold” é aquele tipo de canção pop que você corre o risco de começar a assoviar logo na primeira vez que ouvir o refrão (lembra do Gin Blossoms?). Um dos discos do ano. E de graça…

Nota: 9
Download gratuito no Bandcamp (basta colocar $0 na caixa – ou o valor que você quiser).

http://americanthread.bandcamp.com/

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