Três cervejas: Ramée, Anderson, Invicta

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por Marcelo Costa

No rótulo, o ano de 1216 refere-se a data inicial da construção da Abadia de La Ramée, no Brabante Valão, na Bélgica. A abadia sofreu com as guerras religiosas, foi demolida e reconstruída várias vezes até que, em 1980, foi tombada pelo patrimônio histórico (e é tido como o maior monumento da arquitetura valã). O prédio atual, que pode ser visitado, é do século 18, e os monges ainda produzem queijos suaves (lavados na cerveja), patês de carne de porco e três estilos de cerveja: Ramée Blanche, só vendida na pressão, e as duas garrafas que chegaram ao Brasil: Rameé Blond, uma Golden Strong Ale (gostei e falei dela aqui) e Ramée Ambree, uma Dark Strong Ale de cor âmbar, espuma majestosa com direito a perlage (renda belga). No aroma, a presença da levedura se destaca com um toque cítrico (abacaxi) e condimentado enquanto o malte tostado se desdobra em notas frutadas (ameixas) e adocicadas (caramelo e bananada). O corpo é médio e a textura levemente licorosa. A acidez chama a atenção em primeiro plano, mas há doçura, amargor (bem suave e advindo do álcool, e não do lúpulo) e salgado. Ao final, a lembrança é tanto cítrica quanto adocicada e alcoólica, tudo presente no belo retrogosto, talvez o mais destaque da Ramée Ambree.

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Em 2007, no aniversário de 20 anos da Anderson Valley, os californianos lançaram uma Imperial IPA que contava com mais de 20 adições de lúpulo Pacific Northwest durante o processo. Após o lançamento, a turma da cervejaria debruçou-se sobre a Imperial IPA, e decidiu alterar a receita: sai de cena o lúpulo Pacific Northwest e entra o trio Columbus, Chinook e Cascade. Desta forma, a Imperial IPA se aposenta e surge a Anderson Valley Heelch O’Hops, uma Double IPA apaixonante. Na cor, um alaranjado carregado de turbidez chama a atenção. A espuma é bela riscando o copo de renda belga e permanecendo presente por um bom tempo. Nos aromas, a força dos lúpulos: muito cítrico, um pouco de herbal e floral mais frutado (puxado pelo cítrico: abacaxi, maracujá, manga) e leve percepção de álcool. No paladar, o amargor surge intenso com o adocicado dos maltes Pale Two-Row e Victory tentando aparar com caramelo as arestas da pancada de lúpulo, e tornar o conjunto não tão agressivo. O retrogosto é amargo e amargo. E amargo. Sob a tempestade é possível perceber a presença dos 8.7% de álcool e de um leve adocicado. Sensacional, mas para fãs do estilo.

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Da Bélgica para a Califórnia e agora para Ribeirão Preto: apresentada em primeira mão no 5º Festival Brasileiro de Cervejas, em Blumenau, a Invicta Imperial Stout mostra que o pessoal de Ribeirão Preto segue firme no intuito de criar cervejas inesqueciveis. No rótulo da garrafa (lote 001), que sempre traz um símbolo da cidade, o Theatro Pedro II. No copo, um liquido intensamente preto proporciona uma belo creme de cor marrom. O aroma é espetacular: as notas de chocolate são um dos destaques do conjunto, e devem conquistar qualquer chocólatra que não goste de cerveja: diferente de boa parte das Imperial Stout, a lembrança de chocolate aqui é de leite, não amargo (mais comum). Por fora, há também remissão a café, ameixa e nozes (e, lááááá atrás, os 9% de álcool, praticamente imperceptíveis). No paladar, o primeiro ataque é de doçura, com predominância de chocolate. Aqui, ao contrário do aroma, o álcool aparece de forma intensa, marcando a língua e esquentando a garganta. Há um amargor interessante (o IBU é 65) que não compete com a doçura, mas sim se intercala criando um conjunto absolutamente arrebatador. O retrogosto alterna-se entre alcoólico e achocolatado. Garçom, por favor, quero uma caixa.

Ramée Ambree
– Produto: Belgian Dark Strong Ale
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 7,5%
– Nota: 3.72/5

Anderson Valley Heelch O’Hops
– Produto: Imperial Double IPA
– Nacionalidade: Estados Unidos
– Graduação alcoólica: 8,7%
– Nota: 4.12/5

Invicta Imperial Stout
– Produto: Imperial Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 9%
– Nota: 4,69/5

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