New Order ao vivo na Colômbia


Texto por Alexandre Malvestio
Fotos do New Order por Juan Felipe Pérez / WARP
Fotos do festival por Camilo Rozo / Estereo Picnic

Em sua primeira passagem pela Colômbia, no último domingo (07/04), o New Order teve a confortável missão de tocar antes do Killers, atração principal do último dia do festival Estereo Picnic, em Bogotá. Confortável por três motivos: primeiro porque numa situação inversa, com os norte-americanos tocando antes dos ingleses, é provável que não sobrassem meia dúzia de gatos pingados para esperar o último show da noite. Segundo porque, com os seus shows de arena arrebatadores (apesar dos últimos álbuns fracos), o Killers consegue manter nas alturas o clímax de uma noite de festival onde eles são a atração principal (mesmo entrando na sequência de uma banda monumental como o New Order). Por fim, mas não menos importante, o simpático público colombiano, formado por filhos de uma geração ansiosa por uma saída pacífica do conflito armado e aprendendo a se acostumar com a discreta entrada do país na rota de shows internacionais, agiria com bastante cortesia qualquer que fosse a atração ali.

Sustentado por esse clima otimista, o New Order entrou no palco ao som de “The Ecstasy of Gold”, de Ennio Morricone, emendando logo depois a instrumental “Elegia”, de 1985, dedicada à época a Ian Curtis. E se a sequência deu à parte desinformada do público a falsa ideia de que o show seguiria sombrio e progressivo, tudo escorreu pelo ralo minutos depois com a ótima “Crystal” (embora apresentada em uma versão bastante preguiçosa). Maior sucesso de “Get Ready”, de 2001, primeiro álbum do New Order após um hiato de oito anos, “Crystal” é também responsável por batizar a próxima banda da noite: “The Killers” foi retirado do videoclipe da música, onde um grupo fake com esse nome tenta se passar pelo New Order.

Em situações diferentes, as duas principais atrações da noite em Bogotá já haviam tocado a música juntas duas vezes. Em 2005, no festival escocês T in The Park, foi Brandon Flowers o convidado do New Order para dividir os vocais. Em fevereiro último, Bernard Sumner retribuiu a gentileza cantando e tocando guitarra durante um show do Killers em Manchester (cidade natal dos ingleses). Havia precedentes e a expectativa de ver os dois juntos em algum momento do último domingo, na Colômbia, não era nada absurda. Se houve surpresa, foi no fato do encontro ocorrer já no início do show do New Order, dando uma banana para o anticlímax de trazer ao palco duas horas antes a principal atração da noite, com a plateia semiesvaziada pela apresentação do Major Lazer no palco secundário.

Sem ser apresentado, Flowers surgiu para cantar a segunda parte da música. A princípio, passou quase despercebido. O fato dos telões terem sido ligados apenas no final da música contribuiu bastante para a desorientação do público. Além de cantar, ele tentou provocar uma reação dos colombianos à grandeza do New Order presente ali. Não funcionou. Sua participação no show só fez aumentar a expectativa ao longo da noite em torno de uma retribuição de gentilezas no show do Killers, mais tarde.

À exceção de “I’ll Stay With You”, faixa do novo em folha “Lost Sirens” (novo naquelas já que o disco se trata de sobras do álbum “Waiting for the Sirens’ Call”, lançado em 2005), apresentada quase intacta no show, em pouco mais de uma hora e meia o New Order revezou-se entre versões mais sujas e dançantes de seus clássicos e homenagens ao Joy Division. O setlist não variou muito do que vem sendo apresentado nos últimos shows. Desfalcado pela ausência do baixista Peter Hook, que rompeu com Sumner e hoje amaldiçoa a atual formação da banda, o New Order desconstrói boa parte de seus maiores clássicos em benefício de um bate-estaca constante e coerente com o clima de festa do festival. “Bizarre Love Triangle” e “Blue Monday”, para ficar em dois exemplos, pareciam remixes de artistas mais jovens para as versões originais. “True Faith” surgiu com uma base quase irreconhecível. O mesmo vale para “586”, que em sua nova roupagem parece ter sido lançada ontem.

Só é de lamentar que o bom “Lost Sirens” não tenha sido melhor aproveitado no show. “Sugarcane” e “Hellbent”, para dizer o mínimo, fariam bonito (e fariam todo sentido) ao lado das novas versões mostradas para os clássicos da banda. Ao longo da apresentação, a imigração do público órfão com o fim do show do Major Lazer no palco secundário foi enchendo cada vez mais a plateia do New Order. A mistura certeira de eletrônica e guitarras, os efeitos de iluminação e as imagens psicodélicas projetadas no telão transformaram o “Escenario Estéreo”, palco principal do festival, em uma imensa boate.

Autodeclarado “contrário ao ceticismo nacional”, seja lá o que isso signifique de fato, em sua terceira edição o festival Estereo Picnic ainda batalha para consolidar-se como um ponto de encontro da nova geração colombiana, injustiçada pela péssima imagem que assolou o seu povo até outro dia. Em dois dias, além de New Order e Killers, o festival trouxe shows de artistas remanescentes do Lollapalooza Brasil/Chile, como Foals, Two Door Cinema Club, Major Lazer e Crystal Castles, além de Café Tacvba e muitos nomes do pop rock ibero-americano. Foram mais de vinte atrações em uma área de 28 mil metros quadrados na saída norte de Bogotá. Havia espaço para mercado hippie, ações de cidadania e preservação da natureza. A organização foi impecável, inclusive com uma eficiente oferta de transporte público na ida e na volta.

E em meio a tudo isso foi que surgiu o New Order, fazendo em Bogotá um de seus únicos dois shows na América do Sul (o outro foi dois dias antes, em Lima, no Peru). Não surpreende que a genialidade e importância da banda tenha se dissipado em meio a uma festa animada e colorida, mas que a exemplo do país que a sedia ainda batalha por identidade. Além de Sumner, da formação original do New Order estão a tecladista Gillian Gilbert e o baterista Stephen Morris. Phil Cunningham, que se juntou à banda em 2001 para substituir Gilbert nos shows, hoje se reveza entre a guitarra e os sintetizadores. No baixo segue Tom Chapman.

Em entrevista ao NME, no ano passado, Peter Hook chegou a chamar Chapman de “Milli Vanilli do baixo”, dizendo que tudo o que o baixista faz nos shows é mímica, mexendo as mãos sobre uma base pré-gravada do baixo de Hook. Com ou sem mímica, a verdade é que a ausência de seu baixista original, responsável por grande parte da identidade musical da banda, é notada. Por outro lado, é impossível passar incólume ao tanto que o New Order parece se divertir no palco. Em especial Sumner, que só larga a guitarra três vezes durante o show. Primeiro para tocar (e desafinar) uma escaleta em “Your Silent Face”. Depois para dançar, rodopiando pelo palco como um legítimo tiozinho feliz durante “Bizarre Love Triangle” e “Blue Monday”.

Além de “Isolation”, tocada mais no início, o New Order faz uma espécie de tributo ao Joy Division na última parte do show. “Atmosphere”, “Transmission” e “Love Will Tear Us Apart” vêm na sequência, ao mesmo tempo em que são exibidas imagens de Ian Curtis e a frase “Forever Joy Division” no telão. No final das contas, o New Order vence o jogo sem que fique claro se jogou ou não para a plateia. O show, eficiente, não arrebata o público da mesma maneira com que outros artistas, menores e sem tamanha expressão, conseguiram no decorrer do festival. Mas à altura de sua lenda, a despretensão e felicidade da banda no palco (mesmo com a ausência de Peter Hook) faz de seu show uma experiência bastante divertida, para dizer o mínimo. Quase duas horas depois, ao final de sua apresentação, o Killers volta para o bis acompanhado de Sumner. A música escolhida para tocarem juntos dessa vez foi “Shadowplay”, cover do Joy Division gravada pelos norte-americanos em 2007 para a trilha sonora do filme “Control”, sobre a vida de Ian Curtis. Sumner cantou e tocou guitarra. E mais uma vez pareceu se divertir mais do que qualquer um ali presente.

SET LIST
01. Elegia
02. Crystal (com Brandon Flowers)
03. Regret
04. I’ll Stay With You
05. Ceremony
06. Age of Consent
07. Isolation (Joy Division cover)
08. Your Silent Face
09. Bizarre Love Triangle
10. 5 8 6
11. True Faith
12. The Perfect Kiss
13. Blue Monday
14. Temptation

BIS (Joy Division Set)
15. Atmosphere
16. Transmission
17. Love Will Tear Us Apart

– Alexandre Malvestio (@malvestio) é jornalista e assina o blog Torta Mágica. Fotos do show do New Order cedidas pela WARP Magazine. Fotos do festival retiradas do facebook oficial do Estereo Picnic

Leia também:
– New Order em São Paulo: um show extremamente punk, por Marcelo Costa (aqui)
– Esse você precisa ouvir: “Low Life”, do New Order, por Ricardo Manini (aqui)

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