Entrevista: Gal Costa

por Marcos Paulino e Rodrigo Guidi

Com direção de Caetano e Moreno Veloso, o DVD “Recanto ao Vivo”, que registra a turnê do último disco de estúdio da cantora Gal Costa, traz toda a emoção do espetáculo homônimo. O show foi gravado em outubro de 2012 no Theatro Net Rio, antigo Tereza Rachel, onde Gal encenou “A Todo Vapor”, em 1971, um dos marcos da carreira da cantora baiana, que se transformou no LP duplo “Fa-Tal”, sucesso de público e crítica.

Envolvida com o projeto, em turnê por todo o Brasil, Gal afirma sentir uma maior aproximação do público jovem nos shows de divulgação do novo trabalho. O show, além de canções do álbum “Recanto” (como “Neguinho” e “Sexo e Dinheiro”), é uma viagem musical que traz grandes clássicos em novas roupagens de arranjos. Canções como “Força Estranha”, “Vapor Barato” e “Um Dia de Domingo”, onde ela imita o vozeirão de Tim Maia, empolgam.

O DVD “Recanto ao Vivo” (também lançado como CD duplo) é composto por 23 canções que resumem toda a história de Gal Costa, seja pelas músicas escolhidas para integrar o projeto, seja pela forma ousada como elas são tratadas, o que a aproxima ainda mais do público de menos idade. Em meio aos shows de lançamento de “Recanto Ao Vivo”, Gal concedeu a seguinte entrevista ao PLUG, parceiro do Scream & Yell:

No texto de apresentação do DVD, você afirma que, quando subiu ao palco para o show de gravação de “Recanto”, sentiu uma espécie de entidade, algo especial, uma “entidade Recanto”, nas suas palavras. Fale um pouco sobre isso.
É que “Recanto” é um show que me arrebata, me toma, como todos os outros que já fiz. Mas esse é muito forte, porque fizemos o disco no estúdio, e depois que começamos a ensaiar o show, as canções gravadas em estúdio foram tomando outra dimensão. Acho que elas cresceram muito, e as coisas que já gravei no passado e que canto no show se tornaram frescas, novas. Então isso para mim é muito especial. É uma coisa que sempre acontece quando faço um trabalho novo, diferenciado. Na minha carreira, ocorreram momentos de mudanças, algumas bem radicais. Então isso é uma marca. O show para mim é muito prazeroso, muito forte, muito intenso. Por isso que digo que é uma entidade que me arrebata. Porque é uma intensidade que existe naquele momento, onde estou no palco com os músicos, cantando aquelas canções, o que é uma tentativa de rever minha história e ela acontece ali. São as várias Gals que naquele momento acontecem ali.

Sua carreira teve várias fases, algumas com repertórios muito populares, que fizeram muito sucesso, outras nem tanto. Em que momento de sua carreira você está se sentindo agora?
O meu público mais clássico, que tenha ouvido (o CD) “Recanto” e achado estranho, quando assiste ao show entende melhor o que significa o disco. O show é muito aberto. As coisas mais modernas, mais de vanguarda, se misturam às coisas clássicas de uma maneira muito harmônica. Acredito que esse show seja sim popular. Uma vez, uma amiga me disse que ouviu um comentário que mesmo aquelas pessoas que não seguem meu trabalho vão assistir o show e gostam, ficam tomadas pelo meu show. Então o show tem essa força, essa magia de arrebatar as pessoas e fico muito feliz com isso.

Quando você lançou o disco em 2011, ele foi recebido de uma maneira dividida pela crítica. Você acha que, trazendo esse disco para o palco, ele ficou mais palatável para os diversos públicos?
Acho que teve boas críticas. Não concordo com você, porque foram muito poucas críticas ruins. Acho que no palco as canções que, entre aspas, poderiam ser mais difíceis de ser assimiladas por algumas pessoas, ficam mais acessíveis. Por isso que é importante o registro desse show. Porque as canções que estavam no disco, quando foram para o palco, embora tenham a mesma estética, elas cresceram. Elas ficaram um pouco diferentes devido ao palco.

Você gravou o DVD de “Recanto Ao Vivo” no mesmo teatro do show histórico de “Fa-Tal”. Como é que foi essa escolha? Ela foi proposital?
Foi sim. Uma vez falei com Moreno (Veloso) que seria bacana gravarmos no Teatro Tereza Rachel, porque é onde havia gravado “Fa-Tal”, que é um show muito cultuado pelas pessoas. Como não moro no Rio, Moreno me falou que não era mais Teatro Tereza Rachel, que agora era Theatro Net, que havia passado por uma reforma e que ele não tinha visto, mas que iria passar por lá. Ele passou, viu, gostou e tocou o projeto para que fosse gravado lá. Foi muito comovente voltar àquele teatro, embora muito diferente de como eu era.

Um dos momentos mais marcantes do DVD é o solo de “Vapor Barato”, em que você se emociona. O que estava passando por sua cabeça naquele momento?
Eu me emociono em muitos momentos diferentes nesse show. Mas foi muito especial naquele dia, porque a música “Vapor Barato” foi lançada naquele teatro e é comovente, me lembrei desse show, desse momento onde resgato minha vida, a minha história. Então a emoção veio com muita força.

Essa música de Jards Macalé e Waly Salomão, inclusive, foi gravada há alguns anos pelo O Rappa e acredito que muita gente da nova geração nem saiba que você havia registrado ela antes. Como é sua relação com o público mais jovem depois de tantos anos de carreira?
Curiosamente, o público jovem já anda ouvindo meus discos dos anos 60, anda interessado no meu trabalho e esse disco atingiu um público jovem bastante grande. Acho que esse disco veio também para buscar uma nova plateia, um novo público. O público jovem está perto de mim, sim.

Você já tem algo engatilhado, pensando em um novo disco de inéditas ou é muito cedo?
Já estou pensando, mas estou muito envolvida com “Recanto”. Este ano acho que é de “Recanto” ainda, mas já estou pensando em outras coisas já e num futuro possível trabalho.

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Marcos Paulino é jornalista e editor do caderno Plug, do jornal Gazeta de Limeira.

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