Boteco: as cervejas da St. Bernardus

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por Marcelo Costa

A St. Bernardus é uma cervejaria fundada em 1946 em Watou, uma vila de cerca de 2 mil habitantes no Flandres Ocidental, na Bélgica, que girava em torno da Refuge Notre Dame de St.Bernard, uma comunidade de monges (Catsberg Abbey Community) que deixou o norte da França no final do século 19 devido ao anticlericalismo do país. Ali eles começaram a fabricar um queijo que se tornou famoso na região e, após a Segunda Guerra Mundial, a produzir uma cerveja chamada Westvleteren sob encomenda do mosteiro de St Sixtus. O mestre cervejeiro da St.Sixtus, Mathieu Szafranski (de origem polonesa), tornou-se parceiro da St. Bernardus e trouxe as receitas, o know-how e a cepa de levedura da cerveja que foi produzida por 46 anos em Watou – até 1992. Ao fim do contrato, o pessoal da Westvleteren decidiu produzir a cerveja em seu próprio mosteiro, enquanto os monges da St. Bernardus continuaram a produzi-la, agora sob nome próprio.

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A St. Bernardus Tripel tem uma cor amarelo palha com uma leve turbidez e uma espuma belíssima e persitente, daquelas que tomam quase todo o copo. No aroma espetacular temos notas frutadas e cítricas (abacaxi, maracujá, limão), condimentos (cravo e pimenta) e algo de floral com uma leve percepção de álcool, trigo e levedura. No paladar, o corpo é médio e a textura vivaz. O adocicado do malte surge no primeiro toque, mas o picante marca presença com o lúpulo ligeiramente discreto, mas presente. Há sensação de frutas (menos cítricas do que no aroma: pera, goiaba branca e melão), trigo, mel e um azedinho rápido, que some assim que o álcool (amaciado pelo lúpulo floral) se torna evidente no retrogosto, com o calor (da felicidade) esquentando a garganta. Uma cerveja deliciosa e excelente.

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A St. Bernardus Pater 6 abre a linha de receitas que a cervejaria produzia para os monges trapistas de Westvleteren. A espuma é majestosa, mas de curta permanência. A cor fica entre o âmbar claro e um leve avermelhado. No aroma, muito de cítrico proveniente da levedura belga assim como um adocicado que remete a açúcar queimado surgido do malte levemente tostado. Há ainda condimentos (cravo, canela e pimenta) e sugestão de frutas secas (uva passa, nozes, cacau). Na boca, o corpo é médio, a textura sedosa, e o primeiro toque é adocicado acompanhado de uma leve acidez. A sensação é que há mais álcool do que o rótulo entrega (6,7%), pois garganta e céu da boca esquentam. Seu forte, no entanto, é o final, complexo, intenso e longo com presença de notas de caramelo, canela e toffee. Intrigante.

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A St. Bernardus Prior 8, uma Belgian Dark Strong Ale, também é da linha de receitas que a cervejaria produzia para a Westvleteren. A diferença, no entanto, surge na cor. Enquanto a 8 produzida atualmente pelos monges trapistas é quase negra, a Prior 8 da St. Bernardus é um âmbar intenso com leve turbidez. As diferenças, no entanto, acabam aqui. A espuma bege é generosa e de média persistência. No aroma, algo de herbal, cítrico e frutado com percepção de levedura e condimentos. Há sensação de cravo, banana caramelada, uvas secas, ameixa, nozes, maçã passada e pêssego em calda. O paladar, de corpo médio e textura sedosa, é mais suave do que na versão 6 . A doçura se destaca, mesmo não sendo tão intensa. As notas de caramelo dominam a sensação com a presença de um leve amargor e álcool. O final é seco e, mesmo com 8%, pede outra garrafa. Menos arisca que a 6, e por isso mais sedutora.

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A St Bernardus Abt 12, uma Belgian Quadruppel, é o orgulho da cervejaria – e a terceira da linha de receitas feita sob encomenda para a Westvleteren por 46 anos. Na cor, é o marrom mais denso dos quatro exemplares deste post. A espuma, praxe da casa, sob lindamente, e tem boa permanência. No aroma, intenso, notas que remetem a frutas secas, ameixas, nozes, caramelo tostado, açúcar mascavo, grama, condimentos, levedura e leve percepção de álcool. Uau! No paladar, mas o álcool se faz mais presente e dá a primeira estocada, mas o adocicado do malte (que se desvela em várias frutas), a sensação dos condimentos (canela e pimenta) criam um painel interessante que remete a uma explosão de sabores. O retrogosto é levemente amargo, mas não pelo lúpulo, e sim por resquícios do malte tostado e pelo calor do álcool. Excepcional.

St. Bernardus Tripel
– Produto: Belgian Tripel
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 3,95/5

St. Bernardus Pater 6
– Produto: India Belgian Dubel
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 6,7%
– Nota: 3,89/5

St. Bernardus Prior 8
– Produto: Belgian Dark Strong Ale
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 4,12/5

St. Bernardus Abt 12
– Produto: Belgian Quadrupel
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 10,5%
– Nota: 4,65/5

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