Boteco: As belgas Duvel, Achel e Dominus

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por Marcelo Costa

Em 2007, após assistirem a uma propaganda sobre cervejas lupuladas de sua própria empresa, a Moortgat, os mestres cervejeiros responsáveis pela Duvel, o carro chefe da cervejaria, se perguntaram qual resultado sairia de uma Duvel com dose extra de lúpulo. Teste feito, cerveja aprovada. Colocada sem muito alarde no mercado, a Duvel Tripel Hop esgotou em poucos dias. Neste primeiro lote, a fórmula utilizava três tipos de lúpulo: o tradicional tcheco Saaz e o esloveno Styrian Golding, ambos usados na Duvel tradicional, mais o norte-americano Amarillo. Na versão 2012, limitada, sai o Amarillo, entra o Citra, também norte-americano.

O aroma fantástico da Duvel Tripel Hop é extremamente lupulado confirmando o dry-hopped do rótulo. O resultado da brincadeira é um aroma complexo e viciante, frutado e cítrico, remetendo a pêssego, pera, abacaxi, uva verde e lima. O paladar explora as sensações expostas no aroma à perfeição. Está tudo ali de uma forma que simplesmente… apaixona. Em alguns momentos lembra… vinho branco. Em outros, quando se mantém o liquido na boca e sente-se a carbonatação, champagne. O amargor é marcante, cítrico, mas o adocicado marca presença em uma das melhores cervejas do mundo, hoje. Simplesmente isso.

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A história da Brouwerij der Sint-Benedictusabdij de Achelse Kluis remonta a 1648, quando monges holandeses construíram uma capela em Achel, quase na fronteira da Bélgica com a Holanda. A capela tornou-se mosteiro em 1686, mas foi destruída na Revolução Francesa. Em 1844, as ruínas foram reconstruídas pelos monges Westmalle e a primeira cerveja produzida foi a Patersvaatje, em 1852. Em 1871, o local tornou-se um mosteiro trapista, tendo a produção de cerveja como atividade regular. Em 1914, durante a Primeira Guerra Mundial, o mosteiro foi ocupado pelos alemães e apenas em 1998 os monges decidiram voltar a produzir cerveja com auxilio da Abadia Trapista de Westmalle e da Rochefort Abbey.

De todas as trapistas, a Achel Blond Bier é a mais carbonatada, e de tal forma que o liquido soa arrisco e tenso. Melhor ir com calma. O aroma levemente adocicado não é tão intenso, mas deixa perceber notas florais e frutadas, que se desmembram em maçã, pera, malte, caramelo e fermento além de especiarias. No paladar, a espuma densa e persistente é uma pancada amarga de fermento, pimenta e frutas, mas o liquido maltado posterior é suave e variado remetendo a melaço, ervas, caramelo, banana, pêssego, baunilha e frutas cítricas como lima. Final doce e maltado. Para mim, a mais intensa e arisca de todas as trapistas.

A versão morena da Achel, a Brune, no entanto, tem mais gingado que a loura. A espuma persistente marca presença novamente, mas não provoca tanto como na Blond. O aroma é adocicado e marcado pelo malte levemente torrado, que se desfaz em caramelo, melaço, açúcar mascavo, figo e baunilha. O fermento, estrela na versão blonde, está presente e é o cartão de apresentação assim que liquido toca a língua. Após a primeira sensação, notas de caramelo, mel e figo se instalam e aconchegam o paladar, que não percebe a cacetada de 8% de álcool. A morena da Achel é mais balanceada que a versão loura. E, por isso, melhor.

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Em 1909, o mestre-cervejeiro britânico John Martin instalou-se em Merchtem, cidadezinha belga na Região dos Flandres, província do Brabante Flamengo, e logo soltou uma máxima: “Só os entendidos apreciam cervejas como as minhas”. Primeiramente, após testar o mercado local com refrigerantes e importação de rótulos como Guiness e Bass Pale Ale, Martin começou sua produção própria lançando rótulos como Gordon Scotch Ale e Bulldog Pale Ale. A linha de abadia Dominus surgiu apenas em 1999, mas acumula vários prêmios, mesmo período em que a família Martin adquiriu e renovou a Timmermans.

A Dominus Patershof Double se apresenta como a única brown ale de abadia produzida nos métodos tradicionais – como uma boa belga, refermentada na garrafa. O aroma é aquilo que já fez centenas de milhares de pessoas se apaixonarem pelas cervejas do país: aroma viciante e intensamente frutado com percepção clara da levedura belga e também chocolate, açúcar queimado e caramelo. No paladar, ligeiramente ácido e amargo, o frutado se desmembra em uva passa, pêssego, cereja e frutas secas além de percepção de caramelo e chocolate numa bela cerveja de abadia quem mantém o padrão de qualidade belga.

Já a Dominus Monasterium Tripel é uma versão turbinada da Double. Tudo que se encontra na versão Patershof pode ser encontrado aqui, com um pouco mais de intensidade (e de álcool: são 6.5% na primeira contra 8% nesta) e, surpreendente, clareza. Parece um conjunto mais definido. O aroma frutado se desdobra em frutas cítricas, uva passa, lima e malte de caramelo com clara percepção da levedura e do álcool – que não incomoda. No paladar, a Monasterium Tripel sugere acidez com o malte levemente tostado chamando a responsabilidade para si, com leve percepção de frutas secas e ameixa. Uma bela cerveja.

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Tanto a Duvel Tripel Hop quanto as duas Achel e as duas Dominus são fáceis de encontrar em bos empórios brasileiros ou sites como o Costi Bebidas e o Clube do Malte. A Duvel Triple Hop pode ser encontrada entre R$ 16 e R$ 22 (garrafa de 330 ml). As duas Achel de 8% (as únicas que vieram ao Brasil – eles ainda produzem versões de 5% e 9,5%) custam, em média, entre R$ 18 e R$ 20 cada (garrafa de 330 ml) enquanto as duas Dominus saem entre R$ 14 e R$ 19 a garrafa de 330 ml (e R$ 60 a garrafa de 750 ml).

Duvel Tripel Hop
– Produto: IPA
– Nacionalidade: Belgica
– Graduação alcoólica: 9,5%
– Nota: 5/5

Achel Trappist Blond
– Produto: Belgian Golden Strong Ale
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoóica: 8%
– Nota: 4,27/5

Achel Trappist Brune
– Produto: Belgian Dubbel
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 4,34/5

Dominus Patershof Double
– Produto: Belgian Dubbel
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 6,5%
– Nota: 3,14/5

Dominus Patershof Tripel
– Produto: Belgian Tripel
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 3,19/5

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