Entrevista: Gabriel o Pensador

por Marcos Paulino

Gabriel o Pensador levou sete anos para apresentar um disco novo, seu oitavo, o recém-lançado “Sem Crise”. Foi o maior hiato de sua carreira, que começou em 1993 com um disco que levava seu nome e trazia críticas que se transformam em hits: “Tô Feliz (Matei o Presidente)”, “Lôrabúrra”, “Retrato de um Playboy (Juventude Perdida)” e “175 Nada Especial”. Nos oito anos seguintes, Gabriel lançou mais quatro álbuns, cravando outros hits.

Este silêncio de sete anos, no entanto, não significa que Gabriel estava de papo pro ar. Neste meio tempo, o músico vinha trabalhando em outros projetos, entre estes o Rimadores Anônimos, em que abre espaço para jovens rappers. Fora isso continua escrevendo muito – letras de música, poemas, livros… Em 2005, inclusive, ganhou o Prêmio Jabuti na categoria melhor livro infantil por “Um Garoto Chamado Rorbeto”.

“Vou lançar um livro novo, que já está pronto, para crianças”, avisa o escritor, enquanto explica que “Sem Crise”, seu novo álbum que traz nítidas influências de ritmos regionais, “é uma compilação de ideias independentes”. Sobre tudo isso, deu a entrevista a seguir ao Plug, parceiro do Scream & Yell, com um pedido: avisar que o melhor lugar para encontrá-lo é o Facebook (gabrielopensadoroficial).

Por que você levou sete anos para lançar um novo disco?
Passei um tempo longo sem gravar nada, fazendo a turnê do último disco. Depois fiz umas músicas pra um projeto pra crianças. E só então comecei a fazer as músicas deste disco. Foi muito aos poucos, por um motivo simples: a falta de um prazo. Não tinha a cobrança de uma gravadora, era uma coisa pra mim mesmo. No final, minha ansiedade foi aumentando e mesmo assim, devido ao trabalho em várias frentes, ainda demorei a terminar.

Uma das faixas, “Linhas Tortas”, é autobiográfica. Qual a sua intenção com ela?
Foi um desabafo. Fiz um pacote grande pra uma prefeitura numa feira, em que venderia livros e faria um show, e cancelei minha participação porque a oposição me barrou. Era uma coisa política que sobrou pra mim. Quando fui escrever sobre a motivação que me leva a fazer o que faço, viajei pra minha essência. E também tem alguns toques sobre outros assuntos, como a saudade dos filhos e o feedback que tenho da galera mais nova do rap sobre como contribuí pra iniciá-los.

De suas viagens, você trouxe influências de ritmos regionais que ficam nítidas no CD. Como foi esse processo?
O que me norteou foi uma busca por ritmos brasileiros, que depois perdeu força, mas acabou indo pra algumas faixas. Entre elas, estão uma com o Rogério Flausino do Jota Quest, uma com sanfona que gravei na Paraíba, uma com o AfroReggae e o Carlinhos Brown, uma gaúcha. Mas não foi uma cobrança de ter essa coisa brasileira, não tem um tema. O disco é uma compilação de ideias independentes.

O disco tem a participação de vários pesos pesados da música brasileira. Como foi a escolha desses artistas?
Bem espontânea. O AfroReggae foi a mais premeditada, porque são caras que conheço desde o começo das nossas carreiras. Eles cresceram muito como grupo cultural e sempre quis fazer um registro em estúdio com eles. O Jorge Benjor foi pela música dele, que tinha tudo a ver comigo, porque o surfe pra mim é muito mais que um esporte. O Carlinhos Brown foi uma onda de freestyle, de brincadeira com as palavras. Ele é muito criativo. Só o que a gente jogou fora dava pra fazer um disco inteiro. O Nando Reis é um mestre da poesia e achou uma solução pra um refrão que eu precisava. Tem a Marisa (Monte), que foi sampleada, mas a considero presente. O Rogério Flausino foi como se fosse o Jota Quest inteiro. O ConeCrew veio pra representar a galera nova do rap.

Você colocou dois clipes com as novas músicas na internet antes mesmo de lançar o CD. Por que essa estratégia?
Até funciona como um aquecimento, mas não foi estratégia. Bem antes de terminar o disco, fiz uma música (“Nunca Serão”) inspirada no “Tropa de Elite” e mostrei pro (diretor) José Padilha. Era o Capitão Nascimento enfrentando os grandes bandidos políticos em vez de só pegar maconheiros. O Padilha até ficou puto porque tinha acabado de fechar a trilha do segundo filme e disse que a música tinha tudo a ver com ele. Aí resolvemos fazer um clipe e colocar na internet. A outra foi “Linhas Tortas”, feita meio na pressa, pra mostrar naquela feira do livro. Meus fãs gostaram muito dessa música e eu também me arrepio com ela.

Apesar desse problema com o mundo literário, você pretende continuar trabalhando nessa área?
É uma coisa que faço com prazer, com o coração, mas tem momentos. Vou lançar um livro novo, que já está pronto, para crianças, encomendado pelo Comitê Olímpico Brasileiro. Foi escrito em parceria com uma grande escritora, a Laura Malin. O que gostaria de parar pra fazer e não consigo é organizar muitos poemas que escrevi. Gosto de fazer pra mim mesmo e talvez até por isso esqueça de publicar.

Como surgiu a ideia dos Rimadores Anônimos e aonde você quer chegar com esse projeto?
Surgiu faz tempo, quando conheci caras que faziam freestyle num barzinho bem pequeno, em cima de um engradado de cerveja. Caras com talento escondido. Fiz três eventos com eles e dei oportunidade pra alguns cantarem comigo. Um deles, o Papo Reto, foi meu vocalista por um tempo e daí foi pra um trabalho na Europa. Como tenho uma turnê pela frente, em cada show vou abrir um espaço pros rappers batalharem. Isso será um início, mas pode haver outros desdobramentos. Como em Belo Horizonte, onde chamamos um pessoal do grafite pro palco e rolou um brake. Vejo com isso uma possibilidade de voltar a trabalhar com hip hop na área social, como já fiz na Rocinha.

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Marcos Paulino é jornalista e editor do caderno Plug, do jornal Gazeta de Limeira.

4 thoughts on “Entrevista: Gabriel o Pensador

  1. Acho o primeiro disco do cara uma obra-prima, tanto do rap/hip hop nacional, como da música brasuca em geral. No rap, pra mim, só fica atrás do “Sobrevivendo” dos Racionais e do “Preste Atenção”, de Thaíde e DJ Hum. No geralzão, não faria feio em nenhuma destas listas dos “100 melhores”.

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