Cinema: Django Livre, Q. Tarantino

por Marcelo Costa

A chegada de “Django Livre” (Django Unchained, 2012) aos cinemas brasileiros traz consigo um séquito de discussões que rondam Quentin Tarantino desde que ele se aventurou a fazer cinema no começo dos anos 90. Após colocar a carreira nos trilhos com seu brilhante filme anterior, “Bastardos Inglórios”, corrigindo exageros e desperdícios de todos os seus filmes pós “Pulp Fiction” (leia no segundo paragrafo aqui), o cineasta relaxa na cadeira de diretor, e volta a fazer um bom filme, mas repleto de gordura, malabarismo e exageros.

“Django Livre” é uma homenagem de Tarantino ao gênero dos faroestes espaguetes, mas, claro, com fartas doses de humor negro, ketchup e ironia. A história se passa em 1858, dois anos antes da violenta Guerra de Secessão, quando 11 Estados Confederados do Sul (entre eles Texas, Alabama, Louisiana, Mississipi e Tennessee) defensores da escravidão enfrentaram os Estados industrializados do Norte em uma guerra que, durante quatro anos (1861/1865) vitimou quase 1 milhão de pessoas (3% da população norte-americana da época).

E nesse cenário tenso do pré-guerra que um dentista alemão, Dr. King Schultz (Christoph Waltz), também caçador de recompensas, liberta um escravo negro, Django (Jamie Foxx), lhe dá um cavalo e roupas em troca de uma ajuda em um “trabalho”. Em certo momento da história, quando o Dr. Schultz e Django adentram uma fazenda em uma cidadezinha do Tennessee, o dono esbraveja: “É contra a lei negros andarem a cavalo neste território”. Tarantino não facilita (e não deveria!) e filma a escravatura com violência.

Após o sucesso do primeiro trabalho em conjunto da dupla, Dr. Schultz e Django decidem firmar a parceria por todo o inverno, que resultará na captura (e morte) de dezenas de nomes procurados pela Justiça, e que lhes renderá uma pequena fortuna em recompensas (“Matar brancos e ainda ganhar por isso?”, pergunta Django). Assim que a primavera chega, Django pretende ir atrás de sua mulher, escrava que fora vendida no mesmo leilão em que ele, e Dr. Schultz, já tomado pela amizade, parte ao seu lado nesta caminhada de redenção e vingança.

Se “Kill Bill” era a vingança das mulheres e “Bastados Inglórios” o troco dos judeus, “Django Livre” coloca a redenção dos negros em pauta. Em uma cena capital e aterrorizante, Leonardo DiCaprio (terrível e sensacional na pele do detestável fazendeiro escravocrata Calvin Candie) discursa, com um crânio nas mãos, sobre a submissão dos negros encarando Django, que terá seu troco com direito a muito molho de tomate jorrando para delírio dos fãs do cinema tarantinesco, e horror de seus detratores, que ainda o acusam de fetichização da violência.

Nem tanto ao mar, nem tanto a terra. Os dois momentos mais violentos de “Django Livre” são obrigatórios. No primeiro, quando Dr. Schultz e Django conhecem Calvin Candie, este último está acompanhando uma violenta luta de negros a dinheiro, que terminará com um olho arrancado e uma martelada na cabeça. Sem arrancar olhos e sem martelo pode se chamar de UFC e é exibido pela Globo. Na outra, quando Calvin atira um escravo fugitivo aos cachorros, ele está testando Django, e a cena funciona (como efeito de provocação e de futura vingança).

Ou seja, não há nada em “Django Livre” que Tarantino já não tenha feito – e que já não tenha causado as mesmas discussões – com grupos diferentes da sociedade, mas ainda assim as mesmas. Por cima de tudo isso há um filme repleto de bons momentos, boa parte deles cômicos, como o desenrolar da hilária cena de abertura passando por uma impagável tirada de sarro com membros de uma organização pré-Ku Klux Klan ou mesmo na impressionante atuação de Samuel L. Jackson como Stephen, um negro racista, braço direito de Calvin Candie.

É impressionante como os atores rendem nas mãos de Tarantino. Se DiCaprio brilha com uma atuação impecável em dos personagens mais odiáveis de sua carreira, Christoph Waltz não fica atrás e volta a mostrar as qualidades que lhe renderam um Oscar pelo Coronel Hans Landa, em “Bastardos Inglórios” – e que o colocam como favorito neste ano. Jamie Foxx está um pouco abaixo, mas honra o nome do herói de “Django”, o filme original de 1966, de Sergio Corbucci, cuja reputação de ser o filme mais violento feito até então o tornou proibido no Reino Unido até 1993, quando recebeu a indicação 18 anos (em 2004 a recomendação caiu para 15).

“Django Livre” peca apenas por sua extensão. Não que 2h45 de filme sejam desaconselháveis, mas porque há muita gordura no filme. Boa parte dos flashbacks são desnecessários, a cena na primeira fazenda poderia ter a metade do tempo (parando no momento em que Dr. Schultz pede para que Django seja tratado como homem livre), há uma cena dispensável em que a dupla entra numa cabana para tomar café, e por ai vai. Meia hora a menos deixaria o filme muito melhor, mas Tarantino queria (e pretende lançar) uma versão com meia hora a mais (!).

É preciso um bocadinho de paciência (e alguns bocejos), mas, mesmo com excessos, “Django Livre” merece atenção – e muito. É quase um filme irmão de “Kill Bill” (sorte Tarantino não ter dividido “Django Livre” em dois) e ainda destaca uma excelente trilha sonora, uma fotografia caprichada e atuações brilhantes. Tarantino volta a entreter encharcando o filme de referencias (contos nórdicos, Alexandre Dumas, Ennio Morricone) enquanto coloca o racismo em pauta de uma forma que Spilberg não ousou em “Lincoln”, mas isso fica para outro texto.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Leia também:
– “Bastardos Inglórios”, a vingança faz de você igual ao seu adversário, por Mac (aqui)
– “Amor à Queima Roupa”, uma pequena obra de arte, por Marcelo Costa (aqui)
– “Kill Bill”: divertido, surreal, antológico e vibrante, por Marcelo Costa (aqui)
– “À Prova de Morte e Planeta Terror”, exercícios de estilo, por Marcelo Costa (aqui)

9 thoughts on “Cinema: Django Livre, Q. Tarantino

  1. Para mim Django é sensacional! Eu nunca vi um filme tratar da escravidão estadunidense de maneira tão explícita como Django Livre. Li que Spike Lee tinha ficado revoltado com o modo que os negros são tratados. Ao meu ver, por mais polêmico que possa ser, ao colocar o dedo na ferida, do jeito que Tarantino colocou, agente pode entender bem os EUA atuais. Além do que, o dentista alemão mostra o tempo todo o quanto a escravidão é odiável, sendo que perde a vida por ter saído do papel que ele representava e não consegui permanecer frio perante tamanha barbaridade.
    O gancho com a luta entre escravos e a atual modinha bizarra do UFC também é brilhante. O vencedor do confronto ganhou uma cerveja e uma noite com uma “negrinha”. O perdedor teve seus olhos arrancados e foi morto com uma martelada. O pobre escravo lutador fastigado por ter que lutar fugiu e foi pego pelos capatazes, mas o sr de escravo se preocupou apenas com os seus $500,00 investidos e o jogou para os cachorros em uma cena antológica! Será que os promotores do UFC se preocupam com seus lutadores ou apenas com o seu $$$$$ investido. Aos vencedores a ilusão da glória, aos derrotados nada. Brilhante e atual!

  2. então, mac, filmaço!!
    concordo com relação às gorduras, dava para cortar um pouquinho, certo?
    depois de assistir django, o ranço do spike lee fica mais claro: deve dar um ciume do caralho quando um branquela como o tarantino enfoca o tema da escravidão desta maneira (talvez melhor que o spike em seus filmes próprios…)

    abraço.

  3. Gosto muito do trabalho do Tarantino. Django é um bom filme, tem aquela marca toda taran de ser. diálogos fodas e trilha sonora sensacional. E muito sangue. Mas Bastardos Inglórios continua sendo superior. São três horas de filme que eu nem vi passar.

  4. Também acho Bastardos bem superior ao Django, que peca pela previsibilidade. Mas a “fórmula Tarantino” de cinema já está bem cansada, convenhamos…e o Jamie Foxx tem tanto carisma quanto uma pedra.

  5. Faço coro aos que dizem que “Bastardos” é o melhor filme do Taranta. Como ele mesmo disse no final, ali ele fez sua obra-prima. Mas “Django” é seu segundo melhor filme, sensação que tive depois de vê-lo. Não sei se é, mas continuo pensando que sim. “Pulp Fiction”, quem diria?, está ficando pra trás.

  6. As piadas sobre o “norte” e o jeito de se falar inglês, como ao falar mal de boston, bem como os diferentes sotaques, tb sao otimas. Leonardo arrebenta de novo. Dificil lembrar de um filme ruim seu. E essas lutas sinistras entre negros escravos do sul ocorriam verdadeiramente. Mas a tal lenda de broomhilda parece-me q nao foi verdadeira…li q seria extraída de uma ópera de Wagner.

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