Caetano, Gil e o Identikit

Sob o CEL 24
Caetano Veloso, Gilberto Gil e os Identikits
por Carlos Eduardo Lima

Eu procurava o conceito de “identikit” um dia desses pela internet e dei de cara com a informação de que o Radiohead –logo eles – circulara pelos festivais de 2012 com uma canção inédita, exatamente com este título. Não sei se Thom Yorke conhece a obra do sociólogo polonês Zygmunt Bauman – o autor deste conceito, acima na foto – mas é louvável que haja uma canção em 2012 com este título. A julgar pela letra, tenho certeza que Yorke pode até saber do que se trata, mas não quis fazer uma música sobre isso. Deixo vocês com o próprio Bauman, sobre o que é identikit:

“O mercado põe à disposição uma ampla gama de ‘identidades’, das quais pode-se escolher uma. Os reclames comerciais se esforçam em mostrar em seu contexto social as mercadorias que tentam vender, isto é, como parte de um estilo de vida especial, de modo que o consumidor em perspectiva possa conscientemente adquirir símbolos da auto-identidade que gostaria de possuir. O mercado também oferece instrumentos para ‘construir identidade’ que podem ser usados diferencialmente, isto é, que produzem resultados algo diferentes uns dos outros e que são assim ‘personalizados’, feitos ‘sob medida’, melhor atendendo às exigências da individualidade. Através do mercado, podem-se colocar juntos vários elementos do ‘identikit’ completo de um eu. A mulher pode aprender como se expressar de forma moderna, liberada, desembaraçada ou como uma dona de casa razoável, séria, cuidadosa; pode-se aprender a ser um magnata impiedoso, autoconfiante, empreendedor, ou um camarada amável, calmo, ou um macho de físico exuberante, ou uma criatura sonhadora, romântica, sedenta de amor – ou qualquer mistura de algumas ou todas essas imagens… A incerteza quanto à viabilidade da identidade autoconstruída e a agonia de procurar confirmação são assim evitadas” (Bauman, 1999: 216 e 217).

Faz sentido, não? Talvez o melhor acontecimento acadêmico da minha tardia faculdade de História (estou no sétimo período, rumo à conclusão do curso) tenha sido matricular-me numa disciplina com o assustador título de Sociologia da Pós-Modernidade. Que nada. Se não fosse minha querida amiga Julia, com quem tenho um débito formal por conta de me convencer a cursar a matéria, eu jamais teria dado importância e teria passado batido pela grande experiência de perceber que uma grande parte da minha visão sobre as coisas atuais tem o referendo dado por um sociólogo polonês de 84 anos, que foi torturado no Holocausto, pelo governo soviético, enfim, um pessimista dos mais ferrenhos. Bauman é o cara que escreveu “Modernidade Líquida”, “Amor Líquido”, entre outros livros, que tiveram certa projeção nos meios mais liberais da academia, logo no início da década de 2000. O que ele diz é, simplesmente, que o mundo de hoje não é capaz de suportar mais nada que dure.

A tal frase “made to last” não é mais suportada pelos nossos tempos. Gente que pensa nisso, que imagina que esta visão – de que as coisas, as pessoas, os relacionamentos, os discos, as músicas, os filmes, as manifestações artísticas são feitas para durar – está fora. Claro, Bauman, repito, é um pessimista – assim como eu. Há outros teóricos que podem servir para temperar a leitura da obra do polonês, entre eles Anthony Giddens, um inglês mais otimista, que deu as bases para uma tentativa fracassada de resgatar alguns privilégios do ‘welfare state’ na década de 90. Bem, até Giddens, saltitante em seu jardim, tem um conceito sombrio, o de “política-vida”, que diz, mais ou menos, que a humanidade, dadas as condições atuais, não é mais capaz de transformar suas questões privadas em questões públicas. Isso quer dizer que os movimentos sociais, as possiblidades de mudança, estão seriamente ameaçados, dada a incapacidade do ser humano viver em sociedade. É o privilégio do indivíduo sobre o cidadão. Isso a gente vê o tempo todo, um bom exemplo é o trânsito, outro é não dar lugar a um idoso no ônibus etc.

Essas visões teóricas de mundo passaram pela minha cabeça em dois momentos extraclasse no mês do fim do mundo (em que o mundo, novamente, não acabou). Eu estava com vontade de fazer um pequeno manifesto sobre o horror que uma audição de “Abraçaço”, novo disco do rei dos identikits, Caetano Veloso, pode trazer ao ser humano minimamente informado, mas também fui assaltado por essas visões sombrias quando, do assento L-13 da plateia central do Teatro do Centro Cultural João Nogueira, vi que o prefeito do Rio, Eduardo da Costa Paes (meu colega de sala no Santo Agostinho por uns seis anos), cantava e dançava os versos proferidos por um esfuziante Gilberto Gil: “E o governador promete, mas o sistema diz não, os lucros são muito grandes e ninguém quer abrir mão, mesmo uma pequena parte já seria a solução, mas a usura dessa gente já virou um aleijão”.

O show do baiano antecedia a confusa apresentação de Stevie Wonder, que já contava com cerca de duas horas de atraso. Gil, num palco mantido pela Prefeitura do Rio, com o prefeito na primeira fila, estaria cometendo um ato de, digamos, insubordinação? Informações dão conta de que o município tenha pago cerca de R$ 7 milhões pelos dois shows de Gil e Wonder, este, para globais que queriam ser vistos, poucos felizardos capazes de desembolsar 800 reais e jornalistas trabalhando e o da Praia de Copacabana, no dia 25 de dezembro, para o povão.

Se Gil, que incluiu “Nos Barracos Da Cidade”, a canção cujos versos foram mencionados acima, nos dois shows, tinha em mente cutucar alguém ou alguma coisa, viu sua intenção ir por água abaixo diante da festiva manifestação do alcaide carioca. É de se imaginar que um dos meus maiores heróis na música nacional não tenha pensado em causar, uma vez que, provavelmente, já tenha passado da época de lutar por alguma causa política após sua experiência no governo Lula. “Nos Barracos Da Cidade” é de 1985, do disco “Dia Dorim Noite Neon”, meio fraquinho e tem a parceria do produtor Liminha. Foi um álbum com certo viés político devido à época de seu lançamento. Gil cantava sobre ideologia, religião, rock nacional e pedia o fim do apartheid na África do Sul pré-Mandela. “Barracos” até poderia estar no setlist por mero acaso, mas, para quem não estava embriagado pelo momento e lembrava de ter comprado o vinil de “Dia Dorim” lá em 1985, chamou a atenção pela subversão total de sua mensagem, cantada pela “autoridade” citada em sua letra.

Confesso, entretanto, que o motivo maior era mesmo o disco de Caetano. A visão/audição de “A Bossa Nova É Foda” no programa do Jô Soares, me fez parar o que estava fazendo e prestar atenção. Afinal de contas, por mais que Caetano seja (muito) criticável sob vários pontos de vista, talvez ele tenha mostrado algo novo dessa vez. E por que? Bem, eu sou um grande admirador de sua obra. Ao longo de meus 42 anos e meio, Caetano foi um amigo capaz de cantar as palavras certas em muitos momentos espinhosos. Aprendi muito com ele e suponho que minha parcela-fã turve o juízo que tenho a respeito da produção recente do cara. Caetano experimentou um grande ostracismo na carreira. Começou em 1991, após o lançamento de “Circuladô”, disco mediano. Caê enveredou por uma sucessão de álbuns cada vez mais fracos, exceção feita ao legal-mas-confuso “Tropicália 2”, que ele lançou com Gil em 1993. Vieram três discos ao vivo, em espanhol, em inglês e dois discos autorais fracos, “Livro” e “Noites do Norte”. O maior sucesso deste período veio em covers de canções bregas como “Sozinho”, de Peninha, e “Você Não Me Ensinou A Te Esquecer”, de Fernando Mendes, da trilha sonora de “Lisbela E o Prisioneiro”.

Até que Caetano resolveu se valer de um identikit, motivado pela separação de sua esposa, Paula Lavigne. Se aproximou da galera jovem, viu que ali estava um filão a ser explorado, uma oportunidade de causar, de voltar a frequentar as resenhas e colunas da mídia sem qualquer possibilidade de demérito. Caetano se transformou em roqueiro indie. Pelo menos foi o que muita gente da imprensa especializada diagnosticou em “Cê”, o disco que nasceu desse novo jeito de corpo do velho baiano. Claro que não era (apenas) isso. Que Caetano quis se sentir mais jovem, não há dúvida. Que ele refletiu isso em sua música, também está na cara. Onde vão parar os velhos neste mundo? Como assim, ter e agir como uma pessoa de mais de sessenta anos? Mas, Caê, “o homem velho é o rei dos animais”, pelo menos foi o que você cantou lá em 1984, na melhor canção de seu outro disco “rock”, “Velô”. Lembra? Conhecem esse, gente?

O compositor baiano é um cronista do cotidiano, pelo menos daquele vivido por gente que está numa vanguarda de costumes e pensamentos que, devidamente processados e reempacotados, são munição para metralhadoras midiáticas que têm diferentes alvos. Mais e menos informados são conquistados por mandamentos que surgem dos meios de comunicação de massa. Certo, é pra isso que eles existem, muito menos para informar, muito mais para conquistar audiência, fazer espectadores, fidelizar pessoas, dizer para elas o que fazer, como fazer, do que gostar, como gostar. Você pode até argumentar contra, mas programas como Esquenta, Caldeirão do Huck, Domingão do Faustão, Fantástico e muitos outros em outras emissoras, são muito mais que entretenimento. Caetano é sensível a isso, é um artista que vive dessa massa crítica e observa o efeito que ela exerce nas pessoas. É uma testemunha do modus operandi das salas de reunião. É um cara que faz análises de conjuntura, sempre uma por disco, falando de como está o mundo. Já acertou no alvo muitas vezes, como em “Fora da Ordem”, “Terra”, “Outras Palavras” e “O Estrangeiro”, mas errou feio em outras, como “Podres Poderes”, “Língua” e agora com “A Bossa Nova É Foda”. A imprensa musical, de uns tempos pra cá, parece não mais capaz de falar mal dele. Como assim? Sinto saudades de críticos paulistas com dor de cotovelo pela carioquice lebloniana de Caê, metendo o cacete em novos trabalhos do cara. Onde eles foram parar? Cadê as críticas duras à frouxice, ao falso e ao raso de “Abraçaço”?

Eu ingenuamente esperava que Caetano fosse um cara capaz de manipular essa engrenagem e manter-se livre dela ao mesmo tempo. Talvez não seja. Nem nunca tenha desejado ser. A “trilogia Cê”, iniciada em 2006, que teve a sequência em “Zii e Zie” (2009, cujo show eu vi no Canecão e concluí ser extremamente melhor que o disco) e se encerra neste “Abraçaço”, é uma declaração de que Caê faz parte do sistema e não parece muito incomodado com isso. Longe de ter 70 anos, e isso pode ser um grande elogio, Caetano é daquelas figuras que a gente encontra na noite, que não sabe bem de onde vieram, mas que sempre alguém na mesa conhece. É aquele cara mais velho, supostamente mais sábio, que diz coisas como “a bossa nova é foda” em meio a informações ‘up to date’ sobre lutadores do UFC e todo mundo fica compelido a admirá-lo, mesmo que não os motivos não sejam claros. É o sujeito que transa todas e todos, que foi comunista, sofreu por isso, que não é do Rio ou de São Paulo, mas que conhece idiossincrasias dos lugares. É aquele cara que não sorri com os olhos, que leva tristezas internas, mas faz muito pra disfarçá-las. Caetano, gente, é um homem de setenta anos e deveria aproveitar isso. Só que ele não aceita envelhecer. É uma Xuxa intelectual, com rugas evidentes, mas brincando de jovem, contaminando a todos com uma carioquice Zona Sul que só existe porque velhos trabalharam décadas para enriquecer e cujas economias são o lastro para os safaris culturais e existenciais dessa gente. O próprio Caetano é um desses trabalhadores.

Talvez Bauman e seu conceito de identikit não explique totalmente o jeito de corpo de Caê. Talvez apenas a passagem do tempo seja capaz de substituir o velho-novo Caetano Veloso por um Caetano novo-velho, um cara capaz de abraçar a experiência, as cicatrizes, a perda de extensão do sorriso, além dos cabelos brancos, e fazer disso grande arte. Coisa que um quase octogenário como Leonard Cohen consegue fazer tão bem, como demonstrou neste 2012 com seu soberbo “Old Ideas”. É disso que Caê e nós precisamos: de velhas ideias. Chega de identikits, queremos o velho. Talvez eu só entenda a luta para não envelhecer quando ficar realmente velho. Ou não.

– CEL é Carlos Eduardo Lima (siga @celeolimite), historiador, jornalista, fã de música e responsável pela coluna Sob o CEL no Scream & Yell e pelo podcast Atemporal.

LEIA OUTRAS COLUNAS DE CARLOS EDUARDO LIMA NO SCREAM & YELL

Leia também:
– Caetano cria um personagem e faz um monte de bobagens em “Abraçaço”, por Mac (aqui)
– Gil, Stevie Wonder, a desimportância da música e o aval midiático, por Jorge Wagner (aqui)