O Impossível, de Juan Antonio Bayona

por Adriano Costa

Final de ano. Uma ótima época para viajar com a família com o intuito de relaxar e aplacar um pouco a falta de atenção cometida durante a maior parte do ano devido ao trabalho, a rotina e as coisas da vida em geral. Imagine só então ir para um lugar paradisíaco, repleto de belezas naturais. Um sonho, não é? Foi isso que pensou uma (entre tantas outras) família espanhola ao embarcar para as festas de 2004 com destino à costa da Ásia. E devido a um tsunami de proporções gigantescas, esse sonho virou um pesadelo.

É baseado nessa história real que o diretor espanhol Juan Antonio Bayona (do esquecível “O Orfanato”, 2007) criou seu novo filme “O Impossível” (The Impossible, 2012), que estreou por aqui no final de 2012. Sem apelar para milhares de efeitos especiais para reconstituir a catástrofe (apesar de esses efeitos existirem), a trama tem como o foco a briga para escapar da imensidão de água que constantemente arremessa tudo e todos, para em um segundo momento se preocupar com o reflexo do desastre que separa famílias e produz corpos.

A tragédia aconteceu após um terremoto submarino, à 1h da manhã do dia 26 de dezembro de 2004, desencadear uma série de tsunamis devastadores ao longo das costas da maioria dos continentes banhados pelo Oceano Índico, matando mais de 230 mil pessoas em 14 países diferentes e inundando comunidades costeiras com ondas de até 30 metros de altura. Em “O Impossível”, muitos dos figurantes são sobreviventes do tsunami, que é aqui ganha recriação no cinema pela segunda vez (a primeira foi com “Além da Vida”, de Clint Eastwood).

Para interpretar a família (aqui convertida em britânica), um grande acerto. O casal ficou com Ewan McGregor (“Trainspotting”, 1996) e Naomi Watts (“21 Gramas”, 2003), que já haviam trabalhado juntos no mediano “A Passagem”, do diretor Marc Foster, em 2005. Aqui, a dupla se sai bem e consegue brilhar, principalmente a atriz inglesa. Os três filhos do casal também tem boas atuações, a saber: Tom Holland como Lucas, Samuel Joslin como Thomas e Oaklee Pendergast como Simon. Fragilidade e coragem na dose certa.

O roteiro de Sergio G. Sánchez (parceiro de Bayona em “O Orfanato”) tem a habilidade de alternar a calamidade de maneira mais ampla com o sofrimento particular da família. Isso sem poupar o espectador de mostrar os graves ferimentos e toda a sujeira imposta pela lama e sangue. O roteiro também encontra tempo para adicionar outros personagens, como Karl (Sönke Möhring de “Bastardos Inglórios”, 2009), que em poucos minutos na tela consegue passar uma carga forte de dor e esperança.

“O Impossível” até apresenta algumas questões para espectadores mais ranzinzas discutirem, como colocar o foco em uma família europeia ao invés de moradores da região, ou a solução final com o tratamento médico envolvido (com a família partindo com o socorro europeu deixando para trás um cenário miserável), porém, nada disso tira a forte carga de emoção que o longa impõe a cada minuto e muito menos diminui o brilho das atuações convincentes do elenco, que vive ali naquele momento o drama que milhares sofreram.

***

– Adriano Mello Costa (siga @coisapop no Twitter) e assina o blog de cultura Coisa Pop

Leia também:
– “Além da Vida”: um filme bonito sobre as incertezas do homem moderno (aqui)
– “A Passagem” torna-se mais interessante após a projeção do que na sala de cinema (aqui)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.