CDs: Silversun, Bloc Party, Bob Mould

por Adriano Costa

“Neck Of The Woods”, Silversun Pickups (Dangerbird)
Uma entrada climática; um ritmo que cessa, depois recomeça, só para cair e subir completamente de novo. Assim é “Skin Graph”, música que abre “Neck Of The Woods”, terceiro álbum do Silversun Pickups. Para quem já conhece os registros anteriores (“Carnavas”, 2006, e “Swoon”, 2009), nada pode parecer mais familiar. Lá estão basicamente as mesmas texturas guiadas por uma conhecida fórmula de canções que começam calmas e depois explodem. No entanto, há algo de diferente: eles estão soando mais pop, com menos guitarras e distorções, sem abdicar do experimentalismo em longas faixas (quase todas de 5 minutos em diante). Essa sensação é confirmada em “Bloody Mary (Nerve Endings)”, primeira faixa de trabalho, de início progressivo e vocal especificamente frágil e desesperado, que busca o alívio pressuposto pela letra envolto numa doce melodia. O lado pop funciona em “Dots And Dashes (Enough Already)”, mas não agrada em “Gun-Shy Sunshine”. Entre os bons momentos estão “Make Believe”, que traz a bateria já característica da banda, e “Here We Are (Chancer)”, uma quase balada com eletrônica que versa sobre perda. A eletrônica aparece também em “The Pit”, flertando de modo descarado e dançante com os anos 80, que inspira também “Simmer” (a mais longa do disco), faixa repleta de perguntas e variações um pouco mais experimentais, além das habituais camadas de guitarras. “Neck Of The Woods” soa como um trabalho de transição, e funciona assim, mas as apostas recaem sobre o próximo. É pagar para ver.

Nota: 6,5
Preço: R$ 50 em média (importado)

“Four”, Bloc Party (Universal)
Às vezes é preciso dar dois passos para trás para que se possa seguir em frente. Essa pílula de sabedoria encontrada em dezenas de livros de autoajuda move “Four”, quarto álbum do Bloc Party, banda que havia sido dada como morta após um sofrível terceiro disco (“Intimacy”, 2008), mas consegue adiar seu atestado de óbito. A salvação foi tentar soar como nos primeiros discos (“Silent Arm”, 2005; e “A Weekend In The City”, 2007) e a opção funciona em boas canções como “Octopus”, de estilo indie rock mais tradicional e boa melodia, como também na pesada “Kettling”, com uma guitarra gritando ao fundo, e “V.A.L.I.S”, de refrão para cantar junto e balançar o corpo. A linha mais suave e tranquila é representada por “Real Talk”, “The Healing” e, principalmente, “Truth”, um casamento feliz de vocal, melodia e ritmo. Mas “Four” não é um disco somente de acertos. Esse retorno às raízes não é completo e cobra seu preço em faixas medonhas como “Coliseum” (emulando o grunge) e “Team A”. As letras (outrora, um dos pontos fortes) trazem pouco brilho – como em “3×3”, que versa sobre redenção, e a porrada rápida de “We Are Not Good People”, que fecha o disco falando de aceitação, religião e crescimento, temas tão comuns ao vocalista/letrista Kele Okereke. Em “Four”, o Bloc Party tenta apagar as ideias ruins do passado, e, mesmo sem soar sensacional, consegue seu intento. Vale ir atrás da edição luxuosa, com boas faixas bônus, entre elas “Mean”, que lembra muito (mas muito) “The Killing Moon”, do Echo and The Bunnymen.

Nota: 7,5
Preço: R$ 28 em média (nacional)

Leia também:
– “A Weekend In The City” ainda soa como um álbum difícil, por Marcelo Costa (aqui)
– Kele Okereke atira para todos os lados em “Intimacy”, por Marcelo Costa (aqui)

“Silver Age”, Bob Mould (Merge)
Bob Mould tem uma lista primorosa de bons serviços prestados à música através do Hüsker Dü, do Sugar e como artista solo. Seu rock agressivo acrescido de fartas doses de melodia influenciou um bocado de gente relevante dentro do cenário (como Kurt Cobain), porém fazia tempo que ele não lançava um grande trabalho – mais propriamente desde “The Last Dog And Pony Show”, de 1998. Isso muda com “Silver Age”, seu décimo registro solo, em que Mould retoma o formato power trio (ele na guitarra, Jason Narducy no baixo e Jon Wurster na bateria) com um resultado potente e eficaz. “Silver Age” exibe 10 faixas em quase 40 minutos e trabalha nas letras temas como dúvidas sobre o caminho seguido e desesperança com o mundo ao redor, mas quase sempre ostenta no final um sentimento de seguir em frente, de não abaixar a cabeça. Isso acontece em faixas como “Star Machine” e a canção que dá nome ao trabalho, por exemplo. O pano de fundo sonoro é um rock básico envolto em punk e garage, com aquela conhecida proporção pop. Algumas canções são verdadeiras aulas. Tente escutar “The Descent” e “Briefest Moment” e não lembrar do Foo Fighters (Mould participou de “Wasting Light”) ou “Angels Rearrange” e não remeter a bandas de punk-pop. Após álbuns bons, mas não brilhantes (como “District Line”, de 2008, e “Life And Times”, de 2009) e uma festejada turnê tocando “Copper Blue” (1992), do Sugar, Bob Mould volta a grande forma e até canta um “aqui vamos nós de novo” nos versos finais de “First Time Joy”. Que bom. A música agradece.

Nota: 8,5
Preço: R$ 50 em média (importado)

Leia também:
– Bob Mould, Canções e Histórias, por Marcelo Costa (aqui)
– Três vídeos: Sugar Expanded Reissue (aqui)

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– Adriano Mello Costa (siga @coisapop no Twitter) e assina o blog de cultura Coisa Pop

11 thoughts on “CDs: Silversun, Bloc Party, Bob Mould

  1. Gosto muito do Silversun Pickups, o Carnavas é um melhor disco que Billy Corgan nunca fez. Gostei do Neck of The Woods, onde eles negam a tentação de repetir a estréia, mas ainda assim conseguem envolver o ouvinte, ao contrário do que aconteceu no Swoon.

  2. Grande Mac, então só nos resta torcer para que isso um dia se realize, pois imagina só um show dele onde de brinde ele toca coisas do Husker Du e do Sugar… Não existirão palavras…

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