Tom Zé no Festival Multiplicidade

por Jorge Wagner

Tom Zé é uma caricatura. A encarnação do artista louco, daqueles facilmente chamados de “gênios” – palavra lugar-comum usada por critérios nem sempre justificáveis. Pois não, Tom, tal quais seus contemporâneos tropicalistas – à exceção talvez de Rogério Duprat e Cláudio César Dias Baptista –, não é um gênio. E não precisa ser. Aos 76 anos, é a sua impressionante energia, seu bom humor (incluindo aí a capacidade de se enxergar e, principalmente, de saber se vender como a tal caricatura) e sua inquietude em relação à matéria-prima de suas composições que o mantém, ainda hoje, como uma figura interessante.

Se, em seu passado recente, vez por outra Tom tenha escorregado, como se precisasse, num esforço desnecessário para fugir do convencionalismo (“Danç-Eh-Sá” manda lembranças…), seu estudo da bossa e sua análise da Tropicália (dos discos “Estudando a Bossa Nova” e “Tropicália Lixo Lógico”, 2008 e 2012, respectivamente) o mostram ainda tão relevante quanto aquele outro baiano septuagenário com disco novo na praça, mesmo que para um público mais restrito, como aquele que lotou o Oi Futuro do Flamengo no último dia 6 de dezembro para ver a apresentação do músico no encerramento da oitava edição do Festival Multiplicidade.

Um dos festivais audiovisuais mais importantes do Rio de Janeiro, o Multiplicidade tem a proposta de unir, no palco, música experimental e arte visual – proposta que acaba por cair como uma luva para Tom Zé e o seu gosto por inventividades. Para a edição de 2012, o festival contou, dentre outros, com a dupla Vamos Estar Fazendo, de Pedro Sá e Domenico Lancellotti, interagindo com trabalhos do artista plástico Paulo Nenflídio. E coube ao coletivo de arte digital SuperUber a responsabilidade de acompanhar o músico de Irará, projetando, sob a banda, jogos de cores e grafismos comandados de acordo com os sons e, em certos momentos, pelo próprio Tom Zé.

Em meio a surpresas das projeções, embora não apenas por elas, as canções acabam por se tornar meras coadjuvantes. Ao longo da noite, Tom se desdobra como professor de história e mitólogo (ao contar sobre mitos utilizados como analogias em suas letras), como comediante de stand up (ao divagar sobre preliminares e formas de tratamento nos relacionamentos íntimos em diferentes idiomas – incluindo aí a tirada “meu pau fica até duro quando falo dessas coisas!”), como mestre de cerimônias, animador de plateia, palhaço, iluminador. No intervalo destas funções, surge o cantor.

A competência da banda (que segura a onda com naturalidade quando Tom Zé esquece suas letras, o que acontece com razoável frequência) ou a variedade do repertório – que abre com “Nave Maria”, do disco homônimo de 1984, segue com “2001” e, dentre outras, desemboca em faixas de seu trabalho mais recente (representado por “Capitais e Tais”, “O Motobói e Maria Clara”, “Tropicalea Jacta Est”, “Amarração do Amor”, “Não Tenha Ódio no Verão” e “Aviso aos Passageiros”) – são, sob esse contexto, responsáveis apenas por uma pequena fração da diversão resultante da apresentação.

Num espetáculo com cara de ensaio – impressão fortalecida pelo próprio caráter inusitado das projeções, que, vez por outra, levavam os músicos a olharem para cima para ver o que estava acontecendo no momento –, Tom Zé, reverente, se apresenta como alguém degraus abaixo de nomes como Gilberto Gil e Caetano Veloso, mas chama para si, em pleno 2012, a responsabilidade de levantar a saia da Tropicália, expondo o seu lado mais nonsense e zombeteiro – aquele que ignorava o discurso de “retomada de linha evolutiva inaugurado pela bossa nova”, aquele de músicos que, embora agitados artisticamente, eram alienados políticos e que provavelmente duvidariam se alguém lhes dissesse que, um dia, poderiam se tornar ministros, colunistas em jornais de grandes conglomerados de comunicação e que tais.

Ao dar suas lições de mitologia, contar causos, pular, rasgar religiosamente seu smoking (como faz sempre que canta “Vá Tomar”), esquecer letras, compor canções sobre avisos em elevadores ou realizar os seus estudos de estilos e movimentos, Tom não só mantém como reforça a imagem que esperam dele. E se não é genial, como aqui falamos, não podemos negar que é perspicaz. Tom Zé é uma caricatura. O artista de barba por fazer, cabelo despenteado e sorriso no rosto. Ri de seu público, ri de seus críticos, ri de seus ídolos e contemporâneos. Tom Zé ri de si mesmo.

– Jorge Wagner (siga @jotablio) é jornalista e colabora com o Scream & Yell desde 2006


Leia também:

– Uma entrevista com Tom Zé é quase um evento, por Marcelo Costa (aqui)

One thought on “Tom Zé no Festival Multiplicidade

  1. Ótimo texto JW. Talvez o Tom Zé não seja o gênio total, mas é uma espécie de gênio sim, mesmo sem precisar ser. Isso por conta de tudo que foi escrito no texto. Tenho essa lacuna pessoal de nunca ter visto show dele. Tomara que isso mude.

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