A trilha solitária de Frank Ocean

por Bruno Federowski

É começo de dezembro e desde a última semana de novembro já era possível ouvir as trompas angelicais anunciando as primeiras listas de “discos mais relevantes do ano” que qualquer veículo que acredita ter um pingo de relevância faz e qualquer consumidor que acredita ter um pingo de senso crítico faz questão de delas discordar. Mas se a safra de 2011 se mostrou, nas palavras do crítico Steven Hyden, cheia de albuns bons, mas carente de álbuns importantes, qualquer um que se aventure em meio ao oceano de caracteres publicados pela mídia pop dará de encontro a uma constatação quase intransponível: “Channel Orange”, de Frank Ocean, foi o álbum mais discutido do ano.

Embora não tenha alcançado em nenhum momento o cobiçado primeiro lugar da revista Billboard, “Channel Ocean” estreou em segundo e, desde seu lançamento em 10 de julho até o momento o começo deste dezembro, permanece 20 semanas nas paradas norte-americanas. Mais do que isso, seu lançamento foi sucedido por uma enxurrada de textos elogiosos e hiperbólicos a repeito do R&B de Christopher Francis Ocean. Para todos os efeitos, o álbum conquistou todo a hype que rodeou a figura de Lana Del Rey no início do ano, mas ao contrário de Lizzy Grant, manteve o buzz por mais tempo do que parece possível na geração esquizofrênica do remix.

Se um indivíduo hipotético entrasse em coma em 1992, acordasse em 2012 e, por algum motivo tão hipotético quanto o personagem em questão, dedicasse seus novos primeiros dias a ler todas as revistas, sites e blogs sobre música pop que lhe chegassem às mãos, a impressão que teria é que 2012 foi palco de mais um “Nevermind”. Assim como a magnum opus da banda arquetipicamente noventista, os elogios à originalidade de “Channel Orange” ocuparam muito menos caracteres do que os aplausos a sua costura de elementos pré-existentes de maneira sensível e concisa. E como o Nirvana, Frank Ocean saiu dos redutos periféricos frequentados pelo coletivo Odd Future diretamente para o palco dos VMAs. Kurt Cobain estaria orgulhoso: mais uma vez, a alternative society chegou aos holofotes.

Críticos mais perspicazes – à exceção de nosso companheiro hipotético, que obviamente não estava em condições de ter grandes insights sobre o assunto – identificaram semelhanças entre a onda laranja e o período que se seguiu ao lançamento de “My Beautiful Dark Twisted Fantasy”. Lançado poucas semanas antes da fatídica publicação das listas de final de ano, o álbum de Kanye West conseguiu a façanha de conquistar o primeiro lugar no triunvirato Pitchfork, Rolling Stone e Billboard. Assumindo simultaneamente os tronos hipster, tradicional e pop, o disco representou a estancada final na disputa entre o rap das ruas e o rap FM que havia sido iniciada pelo próprio Kanye em 2007, quando seu álbum “Graduation” emergiu vitorioso de uma competição frenética de vendas contra “Curtis”, de 50 Cent.

Mas críticos perspicazes também hão de perceber que há um grande espaço separando os três discos. Se por um lado, o quebra-cabeça que é “Nevermind” foi montado a partir de peças que já existiam numa cena determinada – o mundo pré-grunge de Black Flag, Butthole Surfers e, já em Seattle, Mudhoney, baseado em uma circulação alternativa originária do college rock –, “Channel Orange” pinçou elementos de artistas, em sua maioria, paralelos e autônomos. E justamente por isso, enquanto o Nirvana tornou-se porta-voz do complexo musical do grunge e a carta de suicídio de Kurt Cobain, seu Evangelho, Frank Ocean convive com figuras como The Weeknd e Drake, que apresentam sua própria visão do que significa tocar R&B no século 21 a partir de referências diferentes e com um resultado diferente. E tampouco parece provável que esteja para surgir um Renascimento do R&B enquanto gênero que tome o cantor como messias.

Ao mesmo tempo, Frank Ocean não parece ter gerado uma reviravolta tão grande quanto Kanye West no mundo do pop, mas sim, retirado alguns tijolos da yellow brick road estabelecida pelo guru do rap e pintado-os de laranja. “My Beautiful Dark Twisted Fantasy” abriu as portas para que as paradas passassem a ser dominadas por artistas fazendo música nos moldes do rapper. “Channel Orange”, por sua vez, apresentou ao mundo uma forma singular que é difícil imaginar funcionar novamente partindo de alguém que não o próprio Ocean.

Assim como “My Beautiful Dark Twisted Fantasy” deu início à era de Big Seans e Pusha-Ts, é bem provável que nos próximos meses sejamos testemunhas de uma série de lançamentos regados por R&B sobre um alicerce de firmes batidas de hip-hop. No entanto, é menos provável que o disco de Frank Ocean sirva de inspiração para algo como o coletivo Good M.U.S.I.C., formado com base nas convenções e regras estabelecidas por seu pai fundador. Frank Ocean desgarrou-se do coletivo Odd Music não para fundar seu próprio clube, mas para seguir uma trajetória individual. Diferentemente do que aconteceu após o nascimento de “My Beautiful Dark Twisted Fantasy”, os hits do futuro não serão julgados a partir do critério de o quanto parecem com “Channel Orange”.

Na verdade, tudo isso nos diz menos sobre o disco em si do que sobre o que nós, em nossos papéis de ouvintes e críticos, esperamos de um lançamento hoje em dia. O fato de que um historiador – também hipotético – guiado pela imprensa pop acreditaria que houve uma Revolução Francesa musical por ano não é novidade. O que mudou na última década é que é cada vez mais difícil que um desses palpites mostre-se verdadeiro.

Se na década de 1990 o Nirvana fez história ao levar algo que pertencia a lojas de discos obscuras e shows nos locais esquecidos da cidade para a loja da Virgin Records em Orlando, hoje a iTunes Store e todas as suas alternativas lícitas e ilícitas oferecem todos os últimos cem anos de música a seu bel prazer, e um artista deixa de ser formado pelos discos que herdou de seu irmão e pelos recantos sujos que frequenta e passa a absorver quaisquer links lhe parecem mais atrativos. Nesse ambiente, achar um cantinho individual e autônomo no panorama do pop é a regra, e não a exceção.

Quer seja devido à internet, quer seja por causa da fragmentação pós-moderna, quer seja porque após “Nevermind” o pop engoliu o alternativo – porque, afinal de contas, quem não gosta de acreditar no mito do bom selvagem indie? –, está cada vez mais raro encontrar “cenas”. Do seapunk ao chillwave, os termos existentes parecem existir por um microssegundo para então se tornarem um termo guarda-chuva abrigando todos aqueles artistas autônomos que têm uma leve semelhança com o gênero incial, se é que ele existiu. E se esse é o caso, a ocorrência das supostas “revoluções musicais” passa a ser impossível: como é possível mudar “tudo” se não existe, para começo de conversa, um “tudo” coeso?

É bem possível que “Channel Orange” alcance o pódio dos rankings musicais neste ano, para a euforia de alguns e o desprezo de outros, ou talvez o posto seja ocupado por outro dos álbuns de pedigree do ano – na lista já divulgada da teen New Musical Express, Frank Ocean ficou em terceiro atrás de Grimes e Tame Impala; na lista da Pitchfork, subiu para o segundo; na lista da Q Magazine, em 17º!!! (o veterano do R&B Bobby Womack encabeça a lista desta última). Ainda assim, independente de listas de melhores do ano, o que é certo é que esse não será o último “Channel Orange” que veremos em nossa vivência como ouvintes. Já em relação a um novo “My Beautiful Dark Twisted Fantasy”, não é possível ter certeza.

– Bruno Federowski (siga @federowski) estuda jornalismo e assina o blog Blues & Sentimental

Leia também:
– A dialética Lizzy Grant – Lana Del Rey, por Bruno Federowski (aqui)
– “Nevermind” é, ainda hoje, um disco atual e sensacional, por Marcelo Costa (aqui)
– “Take Care”, de Drake, não é um disco tranquilo, por Tiago Faria (aqui)

3 thoughts on “A trilha solitária de Frank Ocean

  1. Channel Orange é um disco de grandes méritos, injetou um leque de referências e melodias muito competentes em uma época na qual o R’nB e o rap gringo perigavam cair na repetição. Entretanto é válido lembrar que grande parte do burburinho feito em cima do álbum, e do artista ocorreu – em partes – devido à declaração do próprio Frank sobre sua sexualidade apenas algumas semanas antes de seu disco ser lançado, o que acabou gerando um grande estardalhaço na mídia . Não que isso ofusque os pontos positivos do artista, mas é válido pensar se “Channel Orange” teria sido recebido com o mesmo entusiasmo ( ou mesmo chamado tamanha atenção ) apenas pela força de sua música sem estar associado à outros tipos de questões e polêmicas além daqueles que realmente importam, nesse caso a música.

  2. Bom disco. Mostra que o cara pode se tornar maior que todo o odd future junto, os quais, se não se cuidaram, vão acabar virando nada mais que uma piada contada por um bando de “moleques travessos”. Aguardemos os próximos capítulos…

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