Entrevista: Projeto Samba da Vela

por Marcos Paulino

Tia Dita, de 77 anos, Vó Suzana, de 72, e Seu Afonso, de 82, nunca imaginaram que teriam os sambas que compuseram gravados. Quando eram jovens, a despeito do talento para a música, foram desencorajados a continuar nela. Afinal, dizia-se, samba era coisa de malandro. Demorou, mas as coisas mudaram. Mais precisamente a partir de 2000, quando foi criado no bairro de Santo Amaro, em São Paulo, o projeto Samba da Vela.

No início, era apenas uma roda de samba organizada por Magnu Sousá, Chapinha, Paquera e Maurílio de Oliveira para que os compositores pudessem mostrar suas criações. Mas o movimento foi crescendo e apareceu a oportunidade de gravar as músicas em CD. Foi aí que Tia Dita, Vó Suzana, Seu Afonso e outros 27 sambistas realizaram o sonho de ter seus trabalhos registrados em disco, num total de 16 faixas.

É com o CD “A Comunidade Samba da Vela”, recém-lançado (que pode ser ouvido online aqui), que a turma de Santo Amaro pretende tornar o projeto mais conhecido fora da capital paulista, como conta Magnu nesta entrevista ao PLUG, parceiro do Scream & Yell.

Como surgiu a ideia de fazer o Samba da Vela?
O projeto surgiu de um anseio de nós, compositores, de cantarmos nossos próprios sambas. Não tínhamos artistas pra gravá-los, então tivemos que correr atrás. Começamos a nos reunir pra cantar nossas composições inéditas, mas a roda só acabava às 5 da manhã. Então inventamos um mecanismo pra acabar mais cedo. Foi aí que surgiu a ideia da vela. Enquanto ela está acesa, a gente canta; quando apaga, é uma forma gentil de mandar o povo pra casa.

Como apareceu a oportunidade pra transformar essa roda informal num CD?
Em 2010, a Petrobrás abriu um programa cultural através da Lei Rouanet. Inscrevemos nosso projeto e fomos selecionados. Só com esse patrocínio pudemos gravar um CD tão grandioso, com todo mundo cantando, os compositores mostrando seus trabalhos e arranjos bem profissionais.

De que modo foram escolhidos os compositores que entrariam no disco?
Fiz essa pesquisa num acervo muito grande que tenho, porque gravo as rodas todas as segundas-feiras. Primeiro, pegamos a-queles que frequentam a comunidade. A partir daí, determinamos quais sambas entrariam.

Houve uma preocupação em contemplar também os compositores mais idosos, certo?
Com certeza. Eles tiveram uma história de en-volvimento com a música desde muito cedo, mas foram podados porque o samba na época deles era considerado coisa de marginal. Foram fazer outras coisas na vida, e só na terceira idade, através do Samba da Vela, se descobriram como compositores. Nada mais justo que eles fazerem parte deste trabalho.

Por que a Beth Carvalho foi escolhida pra ser a madrinha do projeto?
Em 2000, tínhamos uma frequência de 20 a 30 pessoas por semana. Depois que ela foi, nunca mais tivemos menos que 200 pessoas.

Como o Martinho da Vila e o Netinho de Paula, que participam do disco, envolveram-se no projeto?
Conhecemos o Netinho de longa data, e os filhos dele frequentam o Samba da Vela. Então resolvemos chamá-lo, porque fica aquela divisão de samba e pagode, e a gente precisa mostrar que é tudo uma coisa só. O Netinho tem um trabalho fantástico e participou lindamente, da mesma forma que o Martinho, que é um ícone do samba. Ele cantou um samba do primo dele, o Mano Heitor.

Você acredita que o CD conseguirá dar uma visibilidade maior ao Samba da Vela no interior de São Paulo e até em outros Estados?
Acredito que sim. A gente tendo o recurso através da lei de incentivo pra fazer uma boa divulgação, o trabalho vai se expandir pro país todo. Fazemos parte do calendário oficial da cidade e da Copa do Mundo. Vêm pessoas do exterior que querem conhecer o Samba da Vela. Isso está sendo muito bacana.

Vocês pretendem fazer apresentações ao vivo fora de São Paulo?
É possível, mas dependemos dos contratantes. Mandamos propostas pra eventos de outras cidades, mas é difícil nos chamarem. O CD vai ser fundamental pra podermos mostrar nosso trabalho pras pessoas que contratam.

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Marcos Paulino é jornalista e editor do caderno Plug, do jornal Gazeta de Limeira

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