CDs: Silva, Leonardo e Tatá

“Claridão”, SILVA (Slap)
por Bruno Capelas

O capixaba Lúcio Silva, mais conhecido por SILVA (em caixa alta mesmo) foi uma das sensações de 2011 desse mundo estranho chamado “indie brasileiro”. Tudo graças a seu EP de estreia homônimo, que conta com canções que poderiam ter sido feitas por um cruzamento genético entre The Postal Service e o Los Hermanos dos últimos discos. É o caso, por exemplo, da fofa “12 de Maio” e da climática “Imergir” – esta última uma das melhores letras de fim de relacionamento dos últimos anos. Além de destacá-lo como promessa, o EP ainda rendeu a SILVA um convite para tocar no festival Sónar, em maio, e um contrato com o selo Slap, da gravadora Som Livre. Em outubro, o artista deu à luz a “Claridão”, seu primeiro disco completo, que conta com 12 faixas – metade delas pertencentes ao trabalho de estreia do cantor, aparecendo aqui em remixagens inferiores. Apesar da postura confortável de repetir canções, nas novas músicas o capixaba aprofunda seu trabalho de pesquisa com a eletrônica, a música brasileira e os sintetizadores. Ao longo de 50 minutos, “Claridão” alterna momentos empolgantes (como o refrão de “Falando Sério” ou as batidas espertas de “Ventania”) com passagens quase constrangedoras (o que dizer de “Agasalho é ter você”, uma das frases de “Moletom”, ou dos versos cabeçudos-concretos de “Posso”?). Não se trata do grande trabalho que a estreia via EP prometia, mas sim do retrato de uma obra em formação, de um SILVA cuja estrela pode vir um dia a brilhar. Vale esperar pelos próximos capítulos.

Preço em média: R$ 27,90
Nota: 7

Leia também:
– Entrevista: “A indústria está tentando recuperar o que perdeu”, diz Silva (aqui)

“Dia e Noite no Mesmo Céu”, Leonardo Marques (Independente)
por Marcelo Costa

O mineiro Leonardo Marques integra uma das melhores bandas da atual safra de seu Estado, a Transmissor, e disponibilizou para download gratuito no primeiro semestre sua estreia solo, “Dia e Noite no Mesmo Céu”, um álbum que choca a sonoridade do Clube da Esquina (na figura de Lô Borges) com a sensação febril dos discos de Elliott Smith. Leonardo assume quase todos os instrumentos (violão, piano, baixo, mellotron, optigan, glokenspiel e percussão) abrindo espaço apenas para Pedro Hamdan (também da Transmissor), responsável pelas baterias do álbum, e João Machala, que toca trombone na atmosférica “Não Vai Amor”, que ambienta Arnaldo Baptista (através da citação de “Será Que Eu Vou Virar Bolor”, faixa do emblemático e autoralíssimo “Loki?”, de 1974) numa suave levada bossa jazz. São nove canções emocionais em menos de 30 minutos. “Eu não sou de ninguém / Sou um pouco só”, ele canta em “Acordei”, faixa que abre o disco com bateria de marcação quebrada e bonito arranjo de mellotron, e que junto a “Across The Sea” exibe influências nítidas de Elliott. A paixão pela sonoridade de Lô Borges é refletida em faixas como “A Cor”, “Linha do Trem” e na instrumental “Vermelho da Manhã”. O jogo de ping-pong musical entre Belo Horizonte e Los Angeles rende um álbum emocional que ainda destaca um belo trabalho gráfico assinado pelo artista belga Yannick Falisse – o disco marca a estreia do selo belgo-brasileiro La Femme Qui Roule, de Leonardo e Yannick, que pretende juntar pessoas com propostas musicas e estéticas interessantes. A dupla começou bem.

Preço em média: R$ 19,90 (aqui)
Download gratuito: http://www.leonardomarques.com/
Nota: 7,5

Leia também:
– “Nacional”, da Transmissor, recupera o Clube da Esquina pela estrada do rock (aqui)

“Tatá Aeroplano”, Tatá Aeroplano (Independente)
por Adriano Costa

Um dos bons nomes da nova cena paulistana, Tatá Aeroplano atua em diversas frentes, e é conhecido por seu trabalho com Jumbo Elektro e Cérebro Eletrônico. Nesta estreia solo, produzida por Dustan Gallas e Junior Boca, ele opta por uma sonoridade mais simples, com guitarra, baixo, bateria e teclado renegando invencionices e modernidades. O flerte aqui é com o rock dos anos 70 e o brega, e essa junção valoriza o uso muito particular de teclados comuns e mellotron, que concedem um ar retrô e dramático às músicas. Logo na abertura, com “Sartriana” (que traz Leo Cavalcanti), Tatá expõe uma letra baseada em falsidade ao mesmo tempo em que insere no contexto drogas e admiração pelo filósofo Jean-Paul Sartre. A balada “Um Tempo Pra Nós Dois” é outra amplificada pelo drama, com seu personagem desconfortável em um relacionamento desgastado. Esse tom triste, e por vezes trágico, também aparece na bonita “Uma Janela Aberta” (com vocal dividido com Bárbara Eugênia), expondo uma saudade do mundo, de si mesmo e daquilo que se foi anteriormente. “Te Desejo…Mas Te Refuto” tem como foco arrependimento, culpas e orgulho, mas mantém a mesma intensidade consternada. Assim como “Cão Sem Dono”, inspirada no filme de mesmo nome do Beto Brant (que por sua vez é adaptado de um livro de Daniel Galera), outra com ar desesperado. O álbum ainda tem a circense tropicália de “Perigas Correr” e a lisergia crítica de “Tudo Parado na City”, porém o melhor fica com os 10 minutos de “Par de Tapas que Doeu em Mim”, uma odisseia noturna com bebida, porrada e sexo na famosa Rua Augusta, que mostra que Tatá tem gás de sobra para ir mais longe em sua carreira solo.

Preço em média: R$ 19,90 o CD (aqui) R$ 79 o vinil (aqui)
Download gratuito: http://www.tataaeroplano.com/site/
Nota: 8,5

Leia também:
– Namoro do Cérebro Eletrônico com Roberto, Sergio Sampaio e Tropicália continua firme (aqui)

3 thoughts on “CDs: Silva, Leonardo e Tatá

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