Cinema: “Um Alguém Apaixonado”, de Abbas Kiarostami

por Marcelo Costa

O filme começa. “Slowtrane”, de John Coltrane, no som. A antecipação da imagem: talheres, burburinho e movimentação sinalizam um bar. Assim que a imagem surge, duas mulheres e um homem conversam em uma mesa. Até que o cérebro faça a ligação de que a conversa da mesa não é a conversa que está sendo ouvida vão-se alguns segundos/minutos. Akiko (Rin Takanashi), agora focada pela câmera, está no celular conversando com o namorado, eles estão discutindo e ele não acredita nela.

Algumas coisas surgem dessa primeira cena, mas nada é jogado no colo do espectador como se fosse uma moeda de ouro. O cineasta Abbas Kiarostami mede as palavras com o máximo de cuidado, de forma que os ingredientes que formam “Um Alguém Apaixonado” (“Like Someone in Love”, 2012, nome que também dá titulo a uma canção de James Van Heusen presente no filme com Ella Fitzgerald) vão surgindo calmamente durante a trama, sem exposição prévia – e, em boa parte das vezes, sem exposição: cabe ao espectador preencher as lacunas.

Akiko, percebe o espectador, é uma garota de programa. Seu patrão a encaminha para um encontro. Ela diz não, mas entra no carro e vai. As palavras, como em outros filmes do cineasta iraniano, são as imagens, e não o que está sendo realmente falado. Nesse desencontro, valorizado por constantes jogos de espelhos, Akiko pode ser tanto uma cópia fiel de um rosto em um quadro desenhado décadas e décadas antes de ela ter nascido, assim como se parecer com a esposa do homem desta noite ou uma garota em um flyer de disk-sexo.

Assim como em “Cópia Fiel” (2010), “Dez” (2002) e “Gosto de Cereja” (1997), Kiarostami provoca o espectador com reflexos. Em todo o momento, o externo invade o interno ao ponto de tudo parecer o mesmo ambiente, embora nunca seja o mesmo ambiente – a tendência de amplificar o particular move o ser-humano. No jogo de xadrez que são os fotogramas do cineasta, as peças vão sendo movimentadas com maestria restando ao adversário observar o desenvolvimento das jogadas, e, mais do que isso, entender a profundidade de seu intento.

De forma interessante, tudo parece seguir uma rotina em “Um Alguém Apaixonado”, e o espectador vai sendo levado pelo desenrolar dos acontecimentos. Akiko namora um mecânico, que desconhece sua profissão de garota de programa, embora saiba que é enganado. Ele tenta falar com ela, mas ela desliga o celular e parte para seu encontro que, nesta noite, será com um velho professor de sociologia, tradutor respeitado, e preocupado com os gostos da menina. Akiko foge da encenação, e vai para a cama. No dia seguinte, sozinho, o professor cochila ao volante.

Tudo que acontece na tela, porém, se amplifica na cabeça de quem observa. Kiarostami cria um fio narrativo condutor, e cabe ao espectador refletir sobre. Está tudo ali, na imagem, mas elas dizem um pouco mais. Será? Um homem com idade de avô pede os serviços sexuais de uma garota que poderia ser sua neta. O namorado da garota se revolta com o fato dela nunca dizer onde está, e desligar o celular durante as madrugadas. Ele confunde o professor com o avô de Akiko, que não desmente: “Sou tão avô dela quanto sou seu avô”. As palavras, novamente, apenas disfarçam.

Ainda assim, “Um Alguém Apaixonado” é, provavelmente, o filme mais direto de Kiarostami. O cineasta brinca com seu dom de iludir, mas por mais que a trama use o artificio da repetição (como método de afirmação e provocação), as funções de garota de programa, professor, avô e neta são bastante óbvios. O que circunda essas situações (solidão, medo, mentira, traição) apenas cria um pano de fundo, uma epiderme da história, que o diretor não aprofunda e nem questiona, deixando aberto para o espectador até a cena final.

É ali, nos segundos finais, que a fronteira entre interno e externo é quebrada – de forma literal. Kiarostami não fecha a história. Tudo aquilo que o espectador vinha trazendo consigo desde o começo do filme vem à tona, e o diretor não lança luz sobre obviedades. O destino final é selado por cada um. Cada pessoa decide o destino dos personagens, e, assim, amplifica discussões pessoais sobre prostituição, relacionamento, amor e solidão. “Um Alguém Apaixonado”, no final das contas, fala mais sobre você, espectador, do que sobre si mesmo. Afinal, estávamos olhando (por 129 minutos) um espelho. Não é mesmo?

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Leia mais
– O cinema de Abbas Kiorostami, por Marcelo Miranda (aqui)
– “Dez”: Kiarostami proporciona um dos melhores pequenos prazeres da vida (aqui)
– “Cópia Fiel”: a arte de filmar um romance que não existe, e que é belo (aqui)

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