Entrevista: Andrea Echeverri

por Leonardo Vinhas

Não há dúvida: em termos de renome mundial, os Aterciopelados (“aveludados”, em espanhol) são a maior banda da Colômbia. Na década de 1990, daria para acreditar que eles iriam conquistar o mundo. Mas quantas bandas conquistam todo esse planeta?

Se houve megalomania dos fãs, não importa. O que conta mesmo é que, durante muito tempo, a banda – composta essencialmente pelo multi-instrumentista Hector Buitrago e pela vocalista e guitarrista Andrea Echeverri, que recebiam colaboradores diferentes a cada álbum – mostrava um trabalho sólido, que evoluiu do pop punk para uma mescla simples e inteligente de hip-hop, rock, pop e ritmos colombianos sem quase nunca resvalar na estética de cumbia para turista.

Da inexperiência sincera que favorece a empatia de “Con el Corazón en la Mano” (1994) até a polirritmia elegante de “Caribe Atómico” (1998) passou muita coisa – especificamente, turnês por vários países, e dois discos excelentes, o bom “El Dorado” (1995) e o fundamental “La Pipa de la Paz” (1996), um dos melhores álbuns do que se poderia chamar de “rock latino” (um termo tão vago quanto “rock brasileiro”. Ou você acha que só o idioma basta para caracterizar uma identidade musical?).

Depois disso, veio “Gozo Poderoso” (2000), um álbum “pra cima”, com ótimas canções e bem produzido, mas um tantinho menos inspirado que os anteriores. E aí, coletâneas, pausa para a maternidade de Andrea e álbuns solos (tanto dela como de Buitrago, que assinaria como Conector), até um retorno com “Oye” (2006), uma tentativa de retomar o pique mais pop dos primeiros discos. Embora tudo pareça estar no lugar, o resultado final é algo ralo, apesar de boas canções aqui e ali.

Depois dele, uma colaboração com o Pato Fu no álbum “Daqui Pro Futuro”, de 2007 (Andrea assina a depressiva “Tudo Vai Ficar Bem” com John Ulhoa, e canta com Fernanda Takai) e um disco notadamente para exportação, “Rio” (2008), quase “folclórico” (no sentido Paul Simon da coisa), mais shows pelo mundo, e uma nova pausa, em 2012, para que cada um se dedicasse aos seus projetos pessoais.

O Scream&Yell buscou falar com a banda no que deveria ser o fim dessa pausa e descobriu que o hiato será prolongado, e que Andrea (“uma rock star”, conforme suas próprias palavras) tem planos mais interessantes do que ela considera viver no passado. Mais uma evidência para confirmar o que os dois últimos discos sugeriam: as carreiras solo viraram a prioridade, e os Aterciopelados são “o trampo”.

Este ano sabático está chegando ao fim, de acordo com o que vocês haviam prometido. Você e Hector conseguiram o que queriam originalmente com essa pausa do Aterciopelados?
Olha, eu acho que esse sabático deve se prolongar um pouco. Até para que haja espaço de verdade para que cada projeto solo cresça.

Quais são, então, os planos para 2013?
Eu vou sair com meu terceiro disco, “Ruiseñora”. A ideia é trabalhar com ele.

Na sua visão, quais são as principais diferenças entre sua carreira solo e a banda?
Minha carreira solo se transformou na minha maneira de viver a musica no dia a dia, brincando de fazer todos os papeis que ela implica – composição, produção, gravação de vozes e de diferentes instrumentos, direção de arte, vídeos… Estou brincando de fazer tudo sozinha, e estou adorando. Nos Aterciopelados, muitos desses papeis cabiam ao Hector e a outros músicos.

Os intervalos entre os discos são grandes, então acredito que vocês não sofrem a pressão de ter um disco novo a cada ano.
Creio que não se pode deixar sentir pressão de nenhum tipo, e fazer tudo no seu ritmo.

Nos tempos de Delia y los Aminoácidos [banda punk que Hector e Andrea tiveram quando ainda eram um casal de namorados], vocês fizeram parte do underground. Mas os Aterciopelados se tornaram algo massivo desde o princípio. Agora, como é a relação de vocês com o underground da Colômbia?
Fomos massivos, mas já há um tempo estamos numa viagem independente total, ainda que conservemos um pendor popular e um lugar de respeito na cultura, [nota: só para esclarecer, eles fazem parte de um selo – Nacional Records, de Tomas Cookman, empresário dos Fabulosos Cadillacs, do Tom Tom Club e de Manu Chao. Não é exatamente um esquema independente…]

Os Aterciopelados estão sempre envolvidos com causas públicas e políticas, e muitas de suas canções estão relacionadas a esses assuntos. Vocês consideram que há casos em que a mensagem é mais importante que a música?
Nunca. Os dois devem estar equilibrados, e potencializar um ao outro.

Incomoda que o som de vocês ainda seja definido como “world music”? Pergunto por que, para mim, me parece uma expressão que não define nada, a não ser que é “música pop feita fora da Inglaterra ou dos Estados Unidos”.
Para mim, o “world” tem um tom folk, e adoro isso.

Em 2011, vocês fizeram shows no Brasil acompanhados pelo Pato Fu. Como foi essa experiência?
Amo a Fernanda [Takai, vocalista da banda mineira], acho que temos uma boa combinação. Ali também conhecemos o Moska e outros músicos, foi uma experiência linda.

É clara a evolução musical dos Aterciopelados a cada disco. Mas o espírito quase punk do começo tinha uma espontaneidade que era muito marcante, e que foi inevitavelmente suplantada pela experiência adquirida. Acredita que essa “ingenuidade” do começo de qualquer artista nunca mais se repete?
Ou seja, você gosta mais do que é velho? Eu não, eu gosto de fazer música, e a que fiz hoje no ensaio é a que mais me agrada. Se não fosse assim, não teria sentido continuar fazendo.

Se a evolução é uma constante para vocês, é evidente que vocês não são as mesmas pessoas de 20 anos atrás. Em que sentido todo esse tempo como artista te mudou no pessoal?
Sou uma rock star, e isso marca em todo sentido da palavra. De múltiplas e profundas maneiras.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

Leia também:
– Show: Aterciopelados e Fernanda Takai em São Paulo, por Marcelo Costa (aqui)

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