CDs: Ritchie, Gotye e Ian McCulloch

por Marcelo Costa

“60”, Ritchie (OneRPM)

O inglês Richard David Court chegou ao Brasil com 20 anos em 1972, integrou grupos que foram baluartes da sonoridade dos anos setenta no Brasil (A Barca do Sol e Vimana), mas só foi conhecer o sucesso quando seu primeiro compacto solo, “Menina Veneno”, vendeu mais de 500 mil cópias em 1983. O álbum de estreia, “Voo de Coração”, trouxe vários hits (“A Vida Tem Dessas Coisas”, “Voo de Coração”, “Pelo Interfone”), mas o cantor foi, aos poucos, se distanciando do sucesso até que, no começo dos anos 90, decidiu trocar a música pelos computadores (embora ainda tenha tentado um retorno com um álbum de inéditas, “Auto-Fidelidade”, de 2002). Em 2009, Ritchie regravou seus sucessos ao vivo em estúdio (“Outra Vez”), e agora, quando completa 60 anos, decidiu resgatar seus dias de moleque com um álbum composto apenas por covers inspiradas dos anos 60. O presente não poderia ter sido melhor. “60” é daqueles discos difíceis de tirar do CD-Player tamanha a quantidade de grandes canções em versões comoventes: “Summer In The City” foi sucesso com The Lovin’ Spoonful em 1966; “Sunshine Superman” foi um megahit de Donovan (também em 1966); a contagiante “All I Have To Do Is Dream” é da safra dos Everly Brothers, que a gravaram em 1958, embora a canção também tenha uma versão de Roy Orbison (1963). Há ainda menções a Nancy Sinatra (“You Only Live Twice”), Tim Hardin (“How Can We Hang On To A Dream”), Hal David e Burt Bacharach (“Trains, Boats and Planes”) em um álbum emocional que mais parece um belo postal enviado diretamente de algum dia encantador dos anos 60.

Nota: 8
Preço em média: R$ 25

“Making Mirrors”, Gotye (Universal)
De cara, “Somebody That I Used to Know”, o hit que bateu a marca de 5 milhões de cópias digitais vendidas (talvez o triplo de downloads ilegais), causa um choque: Sting voltou a compor grandes canções pop? E chamou Katy Perry para cantar com ele? A primeira impressão é forte, mas o cara, um belga que cresceu na Austrália, se chama Gotye, e nesta canção está acompanhado pela neozelandesa Kimbra. Passado o susto inicial, “Somebody That I Used to Know” permanece encantadora, e abre as portas para “Making Mirrors”, terceiro álbum de Gotye (os dois anteriores, “Boardface”, de 2003, e principalmente “Like Drawing Blood”, de 2006, fizeram sucesso apenas na Austrália), lançado em setembro do ano passado, e já no quinto single. O fantasma de Sting (e também de Peter Gabriel) marca presença nas outras onze canções de “Making Mirrors”, mas não diminui os méritos de um caleidoscópico álbum pop. De cara fica a impressão de que “Somebody That I Used to Know” era apenas uma das peças de um épico de quase 10 minutos formado pelas quatro primeiras canções do álbum: começa pela instrumental que dá nome ao disco e aconchega o ouvinte, passa pela pegada rock de “Easy Way Out”, cai no colo do mega-hit e, quando o ouvinte percebe, já está cantando também “Eyes Wide Open”, uma faixa poderosa e grudenta que aqui parece uma coda da canção que apresentou Gotye ao mundo. Não acabou: ele ainda brilha nos dubs atmosféricos “Smoke and Mirrors” e “State of the Art”, na bateria marcada de “I Feel Better” (difícil não pensar em Police) e no clima George Michael (?!?) de “In Your Light”, destaques de um disco pop nos moldes clássicos: referencial e, ao mesmo tempo, moderno.

Nota: 8
Preço em média: R$ 29

“Candleland – Deluxe”, Ian McCulloch (Rhino / Edsel)
“Mysterio – Deluxe”, Ian McCulloch (Rhino / Edsel)
“Slideling – Deluxe”, Ian McCulloch (Rhino / Edsel)

Os três primeiros álbuns solos de Ian McCulloch retornam em edições caprichadas e com faixas raras. “Candleland” (1989) é disparado o de melhor repertório, mas a produção (calcada em programações eletrônicas) de Ray Shulman diminui o brilho de algumas canções num álbum que soa como uma sequencia de “Echo and The Bunnymen” (1987). Recém-saído da banda, Ian abre o coração despedaçado em rock ballads emocionais como “Proud To Fall” (irmã direta de “The Game”), “Start Again” e na comovente faixa título, que conta com Liz Fraser, do Cocteau Twins, nos backings. Esta reedição traz o primeiro compacto solo de Ian lançado em 1984 (com a versão de “September Song”, de Kurt Weill) além de outras 20 faixas entre remixes, b-sides e uma bonita cover de “The Circle Game”, de Joni Mitchell. Lançado em 1992, “Mysterio”, traz três produtores e poucas grandes canções. O grande momento do álbum é uma bela versão de “Lover, Lover, Lover”, de Leonard Cohen, mas o disco bônus destaca as versões acústicas de “Proud to Fall”, “White Hotel” e “Vibor Blue”, b-sides de destaque como “Birdy”, “Ribbon and Chains” (embrião de “Rust”), a poderosa versão ao vivo de “Do It Clean” (dos Bunnymens) e os covers de “Return to Sender” (famosa com Elvis Presley), “Hey, That’s No Way to Say Goodbye” e “There Is a War” (as duas de Leonard Cohen). Onze anos depois saia “Slideling”, talvez o álbum solo de Ian com melhor som (embora o repertório seja mediano). Chris Martin e Jonny Buckland (Coldplay) participam de duas boas faixas (“Arthur” e “Sliding”) enquanto a linha de baixo de “Walk on The Wild Side”, de Lou Reed, aparece (não creditada) em “Baby Hold On”. Entre as faixas bônus, dois covers: “Jealous Guy” (John Lennon) e “Prettiest Star” (David Bowie). Nenhum dos três discos arranha a beleza dos clássicos do Echo and The Bunnymen, mas podem alegrar almas perdidas.

Nota: 8 (“Candleland”), 6 (“Mysterio”), 7 (“Slideling”)
Preço em média: R$ 60 cada

Leia também:
– Discografia comentada do Echo and The Bunnymen (aqui)
– Shows em São Paulo: Kurt, Thurston, Carl e Ian (aqui)
– “Ocean Rain”, um dos melhores álbuns já feitos (aqui)

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