Entrevista: Electric Six

por Leonardo Vinhas

Houve uma época em que a indústria do hype era menos irritante e menos voraz, você tinha tempo para conhecer a “salvação do rock” do momento e, se bobear, até vir a gostar dela de verdade. Nessa época – podemos dizer que é 2003, para efeitos de texto –, surgiu o Electric Six com seu álbum de estreia, “Fire”, uma obra de heavy disco satanista, dedicada a exacerbar todos os clichês da discoteca e do rock pesado com uma sensualidade sacana e algo grotesca. Pense no Blue Oyster Cult se lançando em um revival da disco em plena era grunge e você vai ter uma boa noção do que se tratava.

A banda de Detroit foi então ajudada pelo boato que dizia que os vocais que soavam em dueto com o vocalista Tyler Spencer no hit “Danger! High Voltage” eram do conterrâneo Jack White – o que nunca se confirmou oficialmente, mas ficou aceito como verdade graças a pequenos indícios dados aqui e ali por membros da banda. “Gay Bar” foi outro sucesso do disco, que ainda teve hits menores como “Synthesizer” e “Dance Commander”. Mas depois do fogo…

Bem, depois de “Fire” vieram outros sete discos de estúdio, um ao vivo, uma compilação de lados B, demos e sobras de estúdio, e inúmeras mudanças de formação. Só Spencer permaneceria sempre na banda, e sua força e suas obsessões ajudaram o Electric Six a se manter como uma banda cult, seguida por fãs ardorosos, idólatras dos exageros da banda, que segue explorando variantes de sua proposta inicial sem perder o gás.

Seria justo dizer que a banda poderia ser massiva, que Spencer poderia ser um compositor de hits para artistas tão díspares como Britney Spears ou Metallica, não fosse sua absoluta incorreção política. Nas letras, “evil” e “demon” aparecem na mesma proporção que “dance floor”. Versos como “garotas infectadas transam melhor”, “tenho algo para enfiar em você no bar gay”, e “posso gostar mais de você se fodermos juntos” aparecem sem constrangimento, valorizados pela interpretação grandiloquente do vocalista – que também adora jogar imagens como “estou morrendo pelos seus pecados na pista de dança” nas composições. Um primor, mas não é o tipo de coisa que cai bem nas casas de família…

Spencer – que sempre assina como Dick Valentine (“Bráulio Querido”, numa tradução livre) – ainda encontra tempo para se dedicar a projetos como o combo de hard rock Bang Camaro, a banda The Dirty Shame, o duo dançante Evil Cowards e sua carreira-solo, recém-lançada com o álbum “Destroy the Children”. E uma informação totalmente desimportante: o cidadão parece um John C. Reilly menos acabado, ou um Jack Black menos adiposo.

Foi na persona de Dick Valentine que ele respondeu as perguntas do Scream&Yell. Ou não: vai ver ele é assim mesmo.

O humor é uma das principais características da banda. Um humor bem politicamente incorreto, a propósito. Você já teve problemas com pessoas interpretando mal o que você escreve?
Nada sério, mas ao longo dos anos houve alguns pequenos desentendimentos. Não tanto com as letras das canções, mas talvez com coisas que eu postei em nosso website ou coisas que eu disse no palco. Nada demais. Foda-se. Vamos em frente.

Por falar nisso, “evil” é provavelmente o vocábulo mais encontrado nas suas letras. Tem a ver com alguma obsessão em não ser “bom”?
Não existe obsessão com nada. Eu só uso palavras como “evil” porque faz com que letras pareçam mais empolgantes do que realmente são.

O tempo passa, e tenho certeza que muitos brasileiros ignoram o que houve com a banda depois de “Fire”, porque nenhum dos álbuns seguintes foi lançado por aqui (você sabe, algumas pessoas só seguem os hypes…). Então como você apresentaria o Electric Six para esses preguiçosos que se esqueceram de vocês?
Eu os sacudiria à força e perguntaria “por que vocês são tão preguiçosos????” Então eu prenderia cada um de nossos CDs com fita aos corpos deles e os forçaria a vagar na contramão em meio ao trânsito vestindo uma placa que diz “não quero morrer.”

Sinto que “Heartbeats and Brainwaves” (2011) tem um tom meio europeu, algo mais sombrio que os anteriores, e ao mesmo tempo, tem reminiscências do tecnopop oitentista. Sei que essas influências sempre estiveram por perto, mas onde foi parar o rock com guitarras altas?
O rock com guitarras altas continua ali. Acho que deduzimos que quando chegássemos ao nosso oitavo álbum depois de sete discos de rock, teríamos permissão para ir em diferentes direções sem que nos perguntassem sobre isso. Acho que nos enganamos.

Ei, sem cobranças, é só curiosidade. Entre as coisas que você gravou, quais você valorize mais?
O que quer que tenhamos gravado mais recentemente. Porque isso significa que temos mais um ano fazendo isso profissionalmente.

O sucesso mainstream não deu as caras novamente, mas tenho a impressão que não é disso que vocês estão atrás. Se rolassem outros sucessos como “Danger! High Voltage” ou “Gay Bar” novamente, o que seria diferente?
Não sei.

O Electric Six parece viver uma turnê sem fim. Estar no palco ainda é emocionante depois de todos esses anos?
Emocionante, não. Divertido, sim. Na verdade, não estamos atrás de atenção. Se houvesse um jeito de conseguir dinheiro sem estar no palco, nós o faríamos.

A banda nunca tocou em nosso país. Tocou na vizinha Argentina, mas aqui não. A culpa é dos nossos produtores?
Há muita gente a quem culpar. Eu começaria com os produtores locais, e então me faria a pergunta: “quem está puxando as cordinhas dos produtores locais?” A resposta está lá fora… Depende apenas de quão longe você está disposto a ir… ….e o quanto você está disposto a arriscar.

Evil Cowards, Bang Camaro e discos solo… Você certamente não é do tipo que fica confortável fazendo uma coisa só. Mas com a exceção do Bang Camaro, que parece ser um projeto de hard rock bem calcado em um esforço coletivo, vejo muitos pontos em comum no seu estilo de compor para o Electric Six, o Evil Cowards e sua carreira solo. Então qual é o lance? Qual é a de manter esses projetos todos?
Você é muito perceptivo em notar que o Bang Camaro é diferente dos outros. Este é o meu projeto no qual eu intencionalmente tento dar a impressão de que não estou envolvido. Quanto a ter todos esses projetos, o lance é que é uma idiossincrasia americana ter três empregos.

A formação da banda mudou bastante. Você, por outro lado, continua no gás. O que me leva a perguntar: a) você se vê fazendo algo que não música; b) o quanto do Electric Six é Tyler Spencer, no sentido de você ser responsável pela música, imagem e tudo o mais.
Se eu fosse fazer qualquer coisa que não fosse estar na banda, eu provavelmente estaria batendo em portas aleatoriamente e entregando às pessoas uma sacola misteriosa. E sobre a b), eu realmente não penso sobre a imagem da banda nem nada do tipo. Eu realmente não penso sobre coisa alguma.

Eu meio que tentei usar um pouco de humor até agora (mal aí se não consegui), mas deixe-me tentar ser um pouco mais sério. Eu não vejo muitas bandas combinando esse senso de melodrama, humor e tantos elementos musicais diferentes – e o Electric Six é muito único e longevo ao fazê-lo. O que te mantém inspirado?
Somos maníacos por esses estilos de vida. Ele nos chama. Nós continuamos fazer música para que possamos continuar a fazer shows. Por dinheiro.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

Leia também:
– “Fire” – Electric Six: É colocar o CD no som e armar a festa, por Marcelo Costa (aqui)

4 thoughts on “Entrevista: Electric Six

  1. Apesar de Achar o cara com respostas meio-secas (minha impressão), foi legal ver a entrevista aqui. Ouvi os 3 primeiros discos deles, e gostei, principalmente do Senõr Smoke, com a cover divertida de Radio Ga Ga, que cheguei a ver uma vez, em idos tempos, o clipe na Mtv, e tive a impressão que iriam estourar, o que não aconteceu. Eles mereciam. E a entrevista me deu vontade de ouvir os discos posteriores, já meio que havia esquecido deles…

  2. O I Shall Exterminate Everything that Restricts me from being the Master (título imenso), de 2007, tem umas faixas inspiradíssimas. Dance Pattern toca no meu celular desde então.

    “Now you navigate your way around the treacherous terrain
    try not to step in the Darvocet and the Novocaine
    and you’re stuck in the corner listening to some guy talking about his screenplay
    and the crazy things he did one night in Spain”

    Um resumo das minhas frustradas noites quando eu era solteiro…

  3. Estou lendo essa entrevista em 2017. O futuro é… bem. “The future is in the future”.

    Conheci o E6 em 2010 e desde então acompanho os lançamentos deles. recentemente saiu o “How Dare You”, e eu continuo gostando do trabalho que eles fazem. Espero ter o prazer em vê-los um dia ao vivo.

    É isso. 🙂

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *