Os Argonautas do Atemporal

Sob o CEL 19
Os Argonautas do Atemporal
por Carlos Eduardo Lima

O escritor britânico Arthur C. Clarke, aquele que deu ao mundo obras definitivas no gênero ficção científica, era um sábio. Não bastasse ter feito “2001”, “Encontro com Rama”, “O Fim da Infância” e tantos outros livros legais, Clarke não escrevia histórias mirabolantes. Pelo contrário: seus livros eram cheios de pequenas previsões críveis sobre o futuro, temperadas pela presença de eventos que ainda não testemunhamos, muito mais por conta de deficiência tecnológica. Em um de seus livros menores, “Canções Da Terra Distante”, Clarke propõe um encontro entre terráqueos e humanos nascidos em outro planeta, a partir de material genético enviado da Terra, séculos antes. A história se passa no século 30, nosso planeta azul foi destruído por uma explosão solar e o futuro do milhão restante de seres humanos, levados por uma espaçonave chamada Magellan (Magalhães) passa pelo encontro com esses “primos”, num planeta chamado Thalassa. Em certa hora, lá no meio da narrativa, dois tripulantes se comunicam pelo rádio e um deles faz uma pequena reflexão sobre o quão durável é o uso das ondas magnéticas para a comunicação, a ponto de permanecer firme enquanto tantas outras maneiras de aproximar as pessoas mudaram com o tempo. Sim, o rádio, amigos, é duro de matar, mesmo que tenha sofrido tantos golpes ao longo dos últimos anos, desferido por evangélicos e gente que não entende do assunto, sempre há gente ouvindo.

Sendo assim, é de causar espanto que só agora, em pleno 2012, aos 42 anos, eu tenha decidido lançar um podcast. Atemporal é o seu nome; tocar música boa é seu conceito e falar de músicas, discos, artistas, é sua missão. Mais que tocar música legal ou descolada, o Atemporal existe para recuperar aqueles programas de rádio que me educaram como fã de música, aqueles que misturavam novidade com percepção, ou seja, inseridos naquele veículo que dava dicas, apresentava música nova e nos ensinava a ouvir. Pode parecer óbvio e necessário que unir rádio com música e informação sobre música seja o certo e ainda exista, mas esse tipo de programa acabou aqui no Rio de Janeiro. A última tentativa de fazer algo com o mínimo de inteligência, no caso, a Oi FM, silenciou há cerca de um ano. Rádio com locução, apresentação, escolha cuidadosa dos módulos? Esqueça, isso só existe hoje na… internet. E são os podcasts que – assim como o blogs em relação ao jornalismo – estão carregando essa pequena revolução nas costas.

Rádio, no entanto, não é novidade para mim. Quando eu tinha uns dez anos, dormia com um radinho de pilha Phillips, no qual sintonizava programas de futebol e noticiários na Globo AM. Aos doze, treze, migrei para o FM e me esbaldei na Fluminense, na Cidade, na Globo… Em pouco tempo, o rádio – agora bem maior – ficava na escrivaninha, sempre ligado. À sua frente, com play e rec apertados e pause baixado, um gravador National com uma fita Basf laranja e preta, no ponto para gravar alguma música que eu gostava. As fitas eram ouvidas no próprio gravador, numa qualidade de som horrível. Era o que eu tinha para ouvir naqueles tempos. Aos quinze anos, com a chegada da Bizz, a minha configuração ficou completa. Mais tarde, aos 23 anos, já na faculdade, decidi fazer um curso de locução e dublagem, pensando que poderia trabalhar em rádio. Dois anos depois, eu e meu amigo Leonardo Salomão, tínhamos um programa na Rádio Kuarup FM, em Duque de Caxias, no Grande Rio.

Era um ato de dedicação pois, em pleno 1995, não havia MP3 ou qualquer outro meio de colocar músicas no ar que não fosse via CD. Nós levávamos uma bolsa com cerca de 50 discos, de ônibus, em plena manhã de domingo, de Copacabana para Caxias (pra você que não mora no Rio, quase uma hora e meia de distância sem trânsito) para, às dez horas da manhã, iniciar mais uma edição de Os Argonautas. Sim, esse era o nome do nosso programa. Era feito no improviso, apenas decidíamos quais músicas deveriam entrar, bolávamos um ou outro módulo temático e mandávamos brasa. Ficamos um ano no ar. Eu tinha o cuidado de procurar as novidades musicais porque havia o “módulo lançamento”, que trazia três músicas inéditas. Lembro que tocamos mundo livre s/a, Skank, Pearl Jam, entre outros, nessa condição de ineditismo. O grande momento dos Argonautas foi quando recebemos nossa primeira ligação de um ouvinte, na verdade, uma menina, que sintonizava a rádio num bairro próximo ao centro de Caxias e que havia telefonado para pedir uma música. Lembro que cheguei a ficar emocionado.

Mesmo sendo legal e bem feito, Os Argonautas não durou mais que um ano no ar. A própria rádio teve problemas, mudou sua programação e acabamos saindo. Desde então, até três semanas atrás, eu nunca mais havia pensado seriamente em fazer alguma coisa que envolvesse rádio. Mesmo casado com uma jornalista que é tão fã da Rádio Fluminense FM a ponto de escrever um livro sobre ela, nós nunca havíamos pensado que poderíamos ter nosso próprio programa, do nosso jeito. Daí surgiu, glorioso, o Atemporal, na verdade, uma versão menor dos Argonautas.

Confesso que a excitação é grande. Não sei quantos de vocês já se aventuraram na produção de um podcast/programa de rádio, mas é algo muito complexo, que exige percepção e conhecimento. Montar módulos especiais, encadear sequências, se preparar para locutar com voz nítida em microfones que não são ideais, são tarefas que são muito mais difíceis do que parecem. Uma ou duas horas de duração? Parece engraçado, mas ninguém tem tempo de sobra hoje em dia e nem um desktop à disposição para ouvir. Dessa forma, quanto menor a duração e maior a compatibilidade com meios móveis de audição, melhor. Decidimos então por uma hora de duração após três pilotos com durações diferentes colocados no ar.

O grande lance, no entanto, é a música. Se eu me proponho a colocar no ar um programa com o nome de Atemporal, não deve ter nenhum preconceito, exceto a noção do que não posso/devo tocar (sertanojo, axé, pagode mauriçola, breguices calculadas) e a liberdade de montar sequências que comecem com Byrds, passem por Echo and the Bunnymen e desaguem em Picassos Falsos. E ter uns dois minutos para contar onde eu estava quando ouvi a música tal, que, em 1987, o Picassos Falsos era sucesso nas rádios cariocas ou que a versão dos Byrds para “My Back Pages”, do Dylan, não só é melhor que o original, mas confere à banda californiana a posse definitiva sobre a canção do bardo americano, especialista em “perder canções”. É tudo um grande barato e as mensagens de felicitações e elogios que vieram até agora via Facebook, são de valor incalculável.

A partir do dia 16 de agosto, o Atemporal já vai aparecer numa webradio, a RadioVitrola.net, todas as quintas-feiras, às 21h. Manteremos a postagem semanal dos programas, que estarão disponíveis todas as sextas-feiras, e você pode acompanhar toda movimentação na página do programa no Facebook: http://www.facebook.com/pages/Atemporal/266672363447710. Ainda estamos cogitando se faremos programas temáticos ou se manteremos o esquema dos módulos especiais, é algo que os ouvintes irão decidir. No player abaixo você pode dar uma conferida na playlist do primeiro piloto, que foi postado no dia 23 de julho. Ouça e, caso você goste, será um prazer escolher músicas para despertar bons sentimentos nas pessoas. Como já dizia o poeta, “música serve pra isso”.

Ah, imagino que o dileto companheiro de tantas lutas, Mac, deverá colocar links por aí, diretamente para os programas. Então, clicando na imagem à esquerda no fim do post você será encaminhando para o Programa Piloto #2 (31/07/12). Na imagem à direita, Programa Piloto #3 (06/08/12). Se não for pedir muito, sugestões sempre são bem vindas.

Abertura – Programa Piloto #1

– The Avalanches – Since I Left You
– Everything But The Girl – When Alls Well
– Roberto Carlos – Ana

– Bloco Livre

– Phoenix – Too Young
– Beatles – Helter Skelter
– Lô Borges – A Força Do Vento

– Módulo de Covers

– Counting Crows – Ooh La La (Faces)
– Ritchie – Wichita Lineman (Glen Campbell)
– Bear McCready – All Along The Watchtower (Bob Dylan)

– Bloco Livre

– Alabama Shakes – I Found You
– Joe Walsh – Analog Man
– Almôndegas – Canção da Meia-Noite

– Bloco Novo Nacional

– Marina Wisnik – Na Rua Agora
– André Mendes – A Cidade Que Eu Digo Não

– ruido/mm – Índios

CEL é Carlos Eduardo Lima (siga @celeolimite), historiador, jornalista e fã de música. Conhece Marcelo Costa por carta desde o fim dos anos 90, quando o Scream & Yell era um fanzine escrito por ele e amigos, lá em sua natal Taubaté. Já escreveu no S&Y por um bom tempo, em idas e vindas. Hoje tem certeza de que o mundo como o conhecíamos acabou lá por volta de 1994/95 mas não está conformado com isso.

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8 thoughts on “Os Argonautas do Atemporal

  1. Que iniciativa legal. Parabéns mesmo. E quanto ao setlist do Piloto… você conseguiu reunir algumas de minhas músicas favoritas do EBTG, RC e Beatles, além de destaques de excelentes novidades (Alabama S. e o cover dos Counting Crows). Longa vida ao Atemporal!

  2. E amanhã tem a estréia do Atemporal na RadioVitrola.net. A duração será de uma hora e segue o esquema dos pilotos: música legal e conversa sobre música. Vamos que vamos.

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