Livros: O Torreão, Jennifer Egan

Transcendência para quem precisa
por Gabriel Innocentini

A publicação da obra de Jennifer Egan no Brasil não ocorre de forma cronológica. Primeiro conhecemos “A Visita Cruel do Tempo”, prêmio Pulitzer de ficção de 2011. Agora é a vez de “O Torreão” (“The Keep”, tradução de Rubem Figueiredo, também pela editora Intrínseca), romance de 2006. Egan deve atrair as atenções na décima edição da Feira Literária Internacional de Paraty, onde dividirá uma das mesas com Ian McEwan.

O capítulo inicial de “O Torreão” põe em funcionamento as engrenagens que moverão o romance. Danny vai visitar o castelo de seu primo Howie, mas fica preso em uma caverna e relembra a situação que transformou a vida de ambos. Se fosse simples assim não seria um romance de Jennifer Egan. O leitor descobre que o narrador autoconsciente, à procura de uma forma que seja fiel à ação ocorrida, é um presidiário que está tentando escrever um conto: “Aconteceu mais depressa do que estou fazendo parecer: Howie olhou para Danny e Danny fechou os olhos e empurrou-o para dentro da piscina. Mas mesmo assim está lento demais: Olhar. Fechar. Empurrar”.

Está explicado: o que parecia um exercício de oficina literária afinal é mesmo um exercício de escrita. Não muito diferente da linguagem habitual de Egan, é verdade, apenas um pouquinho mais exagerada em seu artifício. No entanto, o objetivo da quebra da ilusão ficcional não é investir no caráter artificial da história, mas sim conferir realismo à narrativa.

Este é o ponto de partida para o jogo paródico de gêneros, o gótico e o memorialístico, que acabam por se interpenetrar ao final. Características pós-modernas gritantes em “O Torreão”: a fronteira entre ficção e realidade, a narrativa autoconsciente, o jogo entre o fantástico e o metaficcional, o tema do duplo, a presença constante da paranoia. Ao questionar os códigos comuns de representação da realidade, base da narrativa gótica, Egan consegue transformar o que poderia soar como mais um enredo bocejante do tipo um-escritor-escrevendo-uma-história (e pior, em uma oficina literária!) em uma convincente busca por transcendência na era dominada pela tecnologia.

Danny é obcecado por gadgets que o mantenham permanentemente conectado, mesmo que tal conexão sirva apenas como conforto: a segurança de saber que as coisas e os outros estão a um clique de distância. Ao ficar isolado na propriedade gótica de seu primo, ele tem de lidar com outra lógica em suas relações pessoais e enfrentar cicatrizes abertas de seu passado. Ao mesmo tempo, essa nova lógica não é tão diferente assim da sobrenatural: se alguns precisam acreditar em lendas fantasmagóricas, outros necessitam de pessoas que jamais encontraram pessoalmente. Esta é a primeira grande sacada de Egan no livro.

Esta questão do isolamento e do enfraquecimento dos laços, também presente em “A Visita Cruel do Tempo”, se intensifica aqui, seja pela estrutura menos dispersiva e exuberante, seja pelo gênero escolhido, que proporciona a oportunidade de nos comunicar o terror de viver em uma sociedade de massa. A associação do gótico com o pós-modernismo oferece como resposta um retorno para realidades que deixamos de lado ou desconhecemos, perturbando noções de identidade e de cultura. O questionamento de medos inconscientes e preconceitos e a exploração do desconhecido, por parte de Howie, o estranho primo de Danny, reforça o tema.

O que era aparentemente uma história desgastada e banal de fantasma (claro, quem acredita em fantasmas hoje em dia? Claro, os fantasmas aqui não são da esfera do sobrenatural) se converte em uma comovente tentativa de dar sentido a uma existência pobre de acontecimentos (um presidiário-escritor que precisa recorrer ao imaginário para transformar, em alguma medida, o cotidiano imutável): “depois que Holly falou da tal porta dentro da cabeça da gente, alguma coisa aconteceu comigo. A porta não era real, não havia nenhuma porta de verdade, era só linguagem figurada. Quer dizer que era só uma palavra. Um Som. Porta. Mas eu a abri e saí por ela”.

O desdobramento da narrativa, que termina enfocando Holly, a professora da oficina textual, dá outra volta no parafuso, amarrando as pontas, oferecendo uma curiosa e rara transcendência para uma obra do período pós-moderno, em que tudo é líquido, e até mesmo o material se desmancha no ar. Esta é a segunda grande sacada: criar um espaço transcendente como contrapartida irônica da narrativa gótica. A terceira grande sacada é camuflar uma história de amor sob tudo isso.

Parece um mérito maior do que todas as pirotecnias juntas de “A Visita Cruel do Tempo” que Jennifer Egan tenha conseguido trabalhar tais questões sendo sofisticada e autêntica sem ser enfadonha e piegas. Vale dizer: essa transcendência não tem tanto a ver com uma crença em alguma entidade divina, mas em ultrapassar a realidade imediata e abrir um caminho para a liberdade e para uma sensibilidade mais conectada com o que de fato importa.

Explorar o evidente papel simbólico que a água tem neste estranho romance chamado “O Torreão” exigiria outro espaço que não este. Vamos terminar então com uma canção do Radiohead que poderia ser a trilha sonora do livro:

– Gabriel Innocentini (siga @eduardomarciano) é jornalista e já escreveu para o Scream & Yell sobre Tom Waits (aqui), Thomas Pynchon (aqui), Charles Bukowski (aqui) e Jorge Ben

Leia também:
– “A Visita Cruel do Tempo”, de Jennifer Egan, é um prodígio, por Gabriel Innocentini (aqui)
– Festa Literária Internacional de Paraty, Site Oficial -> http://www.flip.org.br
– “Amnesiac”, do Radiohead, a vanguarda do rock, por Marco Tomazzoni (aqui)
– De Tarantino a Iggy Pop: pequenas histórias sobre Jennifer Egan (aqui)

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