Entrevista: The Ugly Club

por Andressa Monteiro

A vontade de lançar discos e projetos musicais de bandas novas e/ou independentes, tanto no Brasil como em outros países, pode ficar apenas no papel se o artista não possuir renda suficiente para a produção e distribuição de um trabalho, que geralmente leva tempo e custa dinheiro. Claro, é possível fazer coisas caseiras, gravadas no quarto de casa, mas nada como um bom estúdio.

Pensando nisso, o site norte-americano de compartilhamento Kickstarter criou um meio de financiar ideias vindas de orçamentos limitados. Aparentemente, grupos de artistas tem se beneficiado com a ferramenta, pedindo ajuda de fãs para arrecadar uma quantia definida e assim transformar um sonho em realidade. Pode ser a gravação de um disco, o financiamento de uma turnê ou mesmo a gravação de um DVD.

É um primeiro passo, mas a banda precisa ir atrás, chamar a atenção de alguma forma. Assim, dia desses chega um e-mail (com o inglês passado para o espanhol por um tradutor de internet): “Ola, se trata de Ryan de The Ugly Club, una banda psicodélica / indie-rock de New Jersey, USA. Que quería enviar un correo electrónico con el fondo de la banda porque me encanta Scream & Yell”. Em seu site, eles assumem influencias: Wilco e My Morning Jacket.

Ou “psych indie-rock”, como eles se definem. Ryan é vocalista e guitarrista do The Ugly Club, banda formada em Nova Jersey há cerca de três anos, e que conseguiu um apoio de 6.500 dólares no Kickstarter, montante que deverá ser direcionado para os gastos de seu primeiro disco. “Ficamos completamente emocionados e comovidos com o apoio dos fãs”, confidencia.

Além de Ryan, estão presentes no grupo Joe Stasio (guitarra e engenharia de produção), Rick Sue-Poi (baixo), Taylor Mandel (piano) e Ryan McNulty (bateria). O álbum de estreia já tem nome: “You Belong to The Minutes”, previsto para sair em julho deste ano, mas os dois primeiros EP’s, “Sing What You Want” e “Visions of Tall Girl”, podem ser ouvidos no Bandcamp (http://theuglyclub.bandcamp.com/) do grupo – ou logo abaixo.

Em entrevista por e-mail, Ryan fala da emoção de tocar no festival SWSX, de sua paixão por escritores latino-americanos e da vontade de visitar o Brasil. “Desculpe por não entrar em contato originalmente em Português”, diz ele no primeiro e-mail. Tudo bem, as canções falam por si. E elas são boas. Com vocês, The Ugly Club.

Como e quando vocês começaram?
A banda começou há cerca de três anos quando peguei uma guitarra e comecei a compor canções com Taylor, nosso tecladista. Tínhamos acabado de sair de outra banda e precisávamos recomeçar. Depois de dois anos, nós não havíamos definido ainda essa formação, mas depois desse período, tudo se encaixou perfeitamente.

E por quê o nome The Ugly Club?
Na época em que estávamos gravando com o nosso antigo guitarrista, ele deu o nome “The Ugly Club” a uma música. Eu e o Taylor adoramos e perguntamos se poderíamos usar em nossas novas composições. Com sorte, o nome vingou e acabou virando uma banda.

Li que vocês gostam de bandas como Wilco e My Morning Jacket, certo?
Com certeza. Somos muito ecléticos em nossos gostos. Cada integrante tem uma bagagem musical distinta. Gostamos de Prince, Stevie Wonder, Jeff Buckley, Miles Davis e muitos outros. Música é música.

Como funciona o seu processo de composição e no que você se inspira?
Não há formas de escapar de sua vida pessoal quando o lápis se encontra com o papel. O nosso disco foi escrito em cinco anos e durante esse período eu estava apaixonado, depois não estava mais. Também via amigos meus lidando com os seus vícios, morte, etc. Foram temas sobre os quais acabei escrevendo. Além disso, o nosso single, “David Foster Wallace”, é uma homenagem a um escritor já falecido. Eu estava lendo um de seus livros, enquanto escrevia as músicas.

Vocês lançaram dois EP’s, “Sing What You Want” e “Visions of Tall Girl”, produzidos também pelo guitarrista Joe Stasio. Como são esses trabalhos?
Nós gravamos “Sing What You Want” em um porão, sendo as primeiras canções escritas com participações de vários músicos. Já o segundo EP, “Visions of Tall Girl”, foi gravado e produzido por Joe alguns meses depois de nós definirmos a nossa nova formação. Foi uma época ótima, pois mergulharmos no processo de autoprodução do álbum e conseguimos separá-lo em fragmentos, criando o som que procurávamos. Nós temos muito orgulhos dos dois EP’s, de maneiras diferentes.

Tem alguma música favorita?
Provavelmente “Visions Part I”. Essa é a primeira parte de uma história dividida em duas, que fala sobre uma pintura que tenho no meu quarto. A percepção que tive da obra foi de uma garota gigante deitada em uma floresta e acabei criando uma história em cima disso. Essa foi a minha primeira composição fictícia, o que me divertiu bastante.

O primeiro álbum de vocês está em fase de produção…
Nós queremos que o disco seja lançado em julho deste ano. Será completamente diferente dos dois EP’s, porque essas canções já estão amadurecidas e a banda como um todo realmente gostou do que foi feito. Nós estamos apaixonados pelo material e nome do disco será “You Belong To The Minutes”.

Se vocês pudessem escolher um lugar para tocar e uma banda para sair em turnê, quais seriam as opções?
Brasil. Nós fizemos uma pequena turnê pelo nosso país e foi fantástico. Tocamos em cidades como Nashville e Austin, mas adoraríamos sair dos Estados Unidos e viajar para a América do Sul e Europa. Tomara que isso seja possível um dia. Nós também gostaríamos de sair em turnê com bandas como Wilco, My Morning Jacket, The Walkmen e The Arcade Fire. Seria ótimo!

Vocês tiveram sucesso com a campanha feita pelo site americano Kickstarter, onde os fãs te ajudaram a arrecadar 6.500 dólares para as despesas do álbum. Quem teve essa ideia?
Todos do grupo. Nós nunca poderíamos imaginar quanto conseguiríamos arrecadar e por isso ficamos completamente impressionados e comovidos. O apoio dos fãs foi realmente inacreditável.

Você considera a internet uma ferramenta poderosa na divulgação de novos artistas?
A internet é com certeza o meio mais importante na divulgação de novos artistas, sem sombra de dúvidas. Onde as pessoas estão? Online ou em seus iPhones. Você tem que ir onde o público está e esse lugar é a internet.

Qual a sua opinião sobre a pirataria online?
A pirataria online tem suas falhas, mas quero apenas que as pessoas escutem e amem a música que fiz. Pessoalmente, tento expor cada vez mais o nosso trabalho ao público. O nosso EP, “Visions of Tall Girl”, por exemplo, pode ser baixado gratuitamente no site da banda.

Ainda falando sobre internet, vocês têm um link no site de vocês sobre a campanha Kony 2012 (baseado no documentário polêmico criado pela Invisible Children, Inc que mostra as atividades de Joseph Kony e da Lord’s Resistance Army, que incluem, entre outras coisas, rapto de crianças e jovens para atuar como soldados e escravos sexuais)
Não sei muito sobre o assunto, mas Joe teve vontade de postar em nosso site para apoiar a campanha. De qualquer forma, a ideia me parece óbvia. Se estivesse vivo em 1940, eu seria anti-Hitler também.

Como foi a experiência de tocar no festival SXSW?
Posso falar por todos ao dizer que foi a melhor experiência de nossas vidas. Tocar no SXSW é um sonho para nós músicos. Toda a indústria e comunidade musical estavam em Austin. Nós conhecemos diversas pessoas em nossos shows, e acabamos conhecendo mais ainda, porque estávamos tocando nas ruas.

Tem vontade de visitar o nosso país? Conhece música brasileira?
Eu realmente gostaria de conhecer mais, mas adoro, por exemplo, Jorge Ben. Sou mais ligado na literatura da América Latina. Alguns dos meus livros preferidos são de escritores como Roberto Bolaño, Pablo Neruda e (Gabriel Garcia) Márquez. Nós mal podemos esperar para tocar no Brasil!

O que vocês andam escutando ultimamente?
Ando ouvindo bastante Antibalas e outras músicas afrobeat. Sempre fui um grande fã do Fela Kuti e do gênero musical, então estou escutando isso e juntamente tocando guitarra.

Vocês estão em turnê agora? Tem outros planos, além do lançamento do disco?
Estamos tocando em Nova Jersey e Nova York. Esperamos viajar para outros lugares assim que o disco for lançado e continuar com a divulgação. Sair em turnê pode ser bem caro, então estamos juntando dinheiro e recursos para que isso aconteça. Esperamos que todos curtam a nossa música e que divulguem o nosso trabalho para todos os amigos.

***
– Andressa Monteiro (siga @monteiroac) é jornalista e assina o blog Goldfish Memory

Você encontra mais infos sobre The Ugly Club no site oficial (www.theuglyclubmusic.com), no Twitter (@theuglyclub) ou no Facebook (www.facebook.com/theuglyclub)

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