Livros: Olhando os ídolos de perto

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por Leonardo Vinhas

Por que gostamos tanto de música pop? A pergunta pode surgir numa mesa de bar, numa conversa na sala de um amigo, durante a leitura de “Alta Fidelidade” (ou depois de assistir à sua adaptação cinematográfica). Independentemente disso, a questão acaba sendo: por que nos baseamos tanto nas emoções proporcionadas por uma pecinha musical de três minutos?

Talvez isso possa ser respondido sem muita reflexão se simplesmente citarmos Milan Kundera: porque a música, ao contrário do cinema e da literatura, é a única arte capaz de nos emocionar várias vezes com a mesma peça (citação de memória, as palavras exatas podem ser outras). Isso, porém, abre espaço para outra questão: por que damos tanta importância a quem cria essas pecinhas?

Neil Strauss é um jornalista que dedicou mais de vinte anos de sua carreira a entender isso – mesmo que, no começo, não soubesse que esse era seu objetivo. Fazendo parte das redações de publicações como o jornal The New York Times e a revista Rolling Stone, e colaborando como freelancer para Esquire, Details, Maxim, Interview e outras, Strauss entrevistou mais 3 mil personalidades, algumas mundialmente famosas, outras tão obscuras que mal poderiam ser chamadas de “cult”. E ao longo dessa trajetória, entregou textos que atendiam exatamente às necessidades de cada publicação, mas não necessariamente refletiam a essência ou realidade do entrevistado.

Em busca dessa essência, Neil passou dois anos revisitando as gravações e anotações de cada entrevista, em busca “do único momento de verdade ou autenticidade” de cada entrevistado, nas palavras dele. “Afinal”, esclarece Strauss, “você pode sacar muito de uma pessoa ou situação em um minuto. Mas apenas se você escolher o minuto certo”.

“Everyone Loves You When You’re Dead: Journeys int Fame and Madness” (editora !t, 520 págs. importado) traz 228 desses minutos, organizados em capítulos que se montam a partir de fragmentos de seus encontros com pessoas como Leonard Cohen, Bono Vox, Lady Gaga, Dave Navarro, agentes da CIA, Tom Cruise, racistas, Hugh Laurie, Courtney Love e muitíssimos outros. Mesmo sem uma narrativa convencional, cada capítulo conta uma história, cujo mote já é explicitado a partir de seus respectivos títulos, como “Esfaqueando sua mãe por um álbum no número 1″, “Caras malvados com cabelos compridos”, “Leve seu traficante para o expediente”, e assim por diante.

Há, evidentemente, histórias desconcertantes (por exemplo, quando Omar Rodriguez-Lopez revela ter sido vítima de incesto), fofocas divertidas (o insuspeito homoerotismo em bandas “machonas” como Incubus e Korn), momentos de sinceridade assombrosa (a asquerosa arrogânica de Joni Mitchell). Mas nada disso, isoladamente, é razão para você atravessar as mais de 500 páginas do livro. A verdadeira razão é a resposta para as duas perguntas formuladas no começo deste texto.

“Ao reportar, editar e ler as entrevistas incluídas neste livro – e examinar quem é infeliz, quem é feliz e por que – acabei aprendendo tanto sobre mim e sobre minhas escolhas de vida quanto sobre as vidas e filosofias dos artistas e celebridades sobre quem estava escrevendo”, afirma Strauss no epílogo. E com essa experiência, é capaz de concluir que “o inferno é chegar ao fim da sua vida e perceber que você errou por pouco e que suas prioridades estavam erradas”.

Nunca se configurando como autoajuda (até porque as conclusões do autor só aparecem no breve epílogo) nem abusando do juízo sobre seus entrevistados, Neil Strauss nos permite poder entender um pouco mais sobre o que há por trás da persona que admiramos e chegar mais perto da pessoa que não conhecemos. E com isso, fica aberto o caminho para que cada leitor tire suas conclusões. É um caminho fascinante e, por vezes, doloroso. A pungência de vários trechos, a banalidade de outros e até a iluminação de alguns - todos incomodam. Como deve incomodar o bom jornalismo, como deve incomodar a urgência por mudança.

“Everyone Loves You When You’re Dead” é o mais próximo que você vai chegar dos seus ídolos. E em cada página, você será forçado a se perguntar se realmente precisa deles.

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- Leonardo Vinhas assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell e já escreveu sobre O Rock Argentino Depois De Cromañon (aqui) e sobre o show de Noel Gallagher (aqui)

Leia também:
- Somos os neo-reprimidos?, por Eduardo Fernandes (aqui)
- De volta ao mundo de Rob Fleming, por Marcelo Costa (aqui)

Texto publicado na(o) Domingo, Maio 13th, 2012 e arquivado na seção Música. Você pode acompanhar os comentários postados aqui através do FEED RSS 2.0.


5 Responses to “Livros: Olhando os ídolos de perto”

  1. Carlos Alberto Farias

    Boas questões. Deu vontade de ler.

  2. daniel

    vendido.
    me empresta?
    :D

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