Guilheme Arantes e a Amnésia do Pop

Guilheme Arantes e a Amnésia do Pop
Sob O CEL #13
por Carlos Eduardo Lima

Houve um tempo, distante, em que as trilhas sonoras de novela eram parte importante da formação das pessoas que se interessavam por música. Víamos as novelas – que eram mil vezes mais interessantes do que o lixão que vai ao ar hoje em dia –, ouvíamos as músicas e comprávamos os discos. Eu tinha 10 anos em 1980 e já colecionava alguns títulos nacionais e internacionais como “Espelho Mágico”, “Dancing Days”, “Coração Alado”, “Saramandaia” e continuaria comprando, logo adquirindo “Baila Comigo”, “Água Viva”, “Os Gigantes”, “Pai Herói”. A diferença não estava só nas novelas, mas também nos frequentadores dessas trilhas, gente como Elton John, Genesis, Bee Gees, Alan Parsons Project, Chic, entre outros medalhões gringos. No terreno nacional, só consigo me lembrar da onipresença de Guilherme Arantes. O sujeito emplacava canções desde 1976, quando “Meu Mundo E Nada Mais” surgiu na trilha de “Anjo Mau”. Isso foi só o começo. Esse texto, no entanto, não é sobre as novelas e suas trilhas – que bem poderiam ser assunto um dia – mas sobre a importância da obra deste cantor e compositor, criminosamente esquecido pela imprensa musical nacional, essa interessante classe de pessoas com problemas de memória.

Guilherme sempre teve uma grande habilidade para a música pop de matriz anglo-americana. Nunca houve algum regionalismo ou mistura de estilo nacional em sua verve, apenas o idioma. Não duvido que Arantes seria um popstar mundial se fosse inglês. Pianista talentoso, cantor competente (sempre fez muito com a voz curta que tem), arranjador criativo, ele começou no Moto Perpétuo, grupo de progressivo paulistano, que hoje é mítico como as boas bandas prog nacionais desbravadoras devem ser. O Moto durou um ano (1974/75) e acabaria sem muito alarde. Seguindo uma tendência mundial, Arantes migrou do estilo para o pop refinado, cheio de nuances instrumentais e cuidados técnicos. Ele já havia decidido deixar a faculdade de arquitetura para trás e viver de música. Em um ano sua aposta renderia os frutos, até além do esperado. O sucesso nacional de “Meu Mundo E Nada Mais” o credenciou para novas trilhas sonoras, como a de “Duas Vidas”, novela de Janete Clair, que trouxe a bela “Cuide-se Bem”. Também foi assim com “Baile de Máscaras” em “Espelho Mágico”, “Amanhã” em “Dancing Days”, “Deixa Chover” em “Baila Comigo”, enfim, o homem não conhecia limites para emplacar hits.

Na virada dos anos 70/80, a Globo tentou ressuscitar os festivais musicais. Uma das memórias mais presentes é a participação de Guilherme Arantes no II MPB Shell, com “Planeta Água”. A canção foi aclamada pelo público e grande parte dos jurados e emplacou nacionalmente nas rádios. A letra falava de ecologia com leveza e pertinência, num tempo em que a preocupação com o meio ambiente era algo embrionário. “Planeta Água” ficou com a segunda colocação, perdendo para a chatíssima “Purpurina”, cantada por Lucinha Lins, alvo de uma vaia de dez minutos após a decisão ser anunciada. Arantes tocou “Planeta Água” e saiu ovacionado do Maracanãzinho lotado. Isso só o credenciou mais e mais para o patamar dos grandes compositores nacionais, sendo até requisitado por Elis Regina, que acabou gravando “Aprendendo a Jogar” e “Só Deus é Quem Sabe”.

Guilherme Arantes também era figura fácil no Cassino do Chacrinha, que, a partir de 1982, voltou para a Rede Globo. O programa iria se transformar na grande vitrine das bandas de rock nacionais em pouco tempo, fato que não prejudicou a frequência de aparições de Guilherme no elenco de atrações. Havia espaço para o pop rock melodioso do sujeito e novas canções como “Lance Legal”, “O Melhor Vai Começar”, “Pedacinhos”, “Fã Nº1”, “Cheia de Charme”, “Coisas do Brasil”, entre outras, grudassem inapelavelmente no ouvido popular brasileiro. O público do Teatro Fênix, local de gravação do Chacrinha, era composto por estudantes da rede pública do Rio de Janeiro e todas cantavam as músicas de Guilherme Arantes, mostrando que o alcance de suas canções era bem amplo, como deve ser o do artista pop por excelência. Pouco tempo depois, em 1987, viria um sucesso avassalador na carreira de Guilherme, incluído na trilha sonora da novela “Mandala”. Sem pedir licença, “Um Dia, Um Adeus” assaltou as paradas de sucesso e aumentou ainda mais sua lista de hits globais. Da mesma época ainda são dignas de registro “Ouro” e “Marina No Ar”, além da bela “Muito Diferente”, todas devidamente assíduas nas rádios e programas musicais da época, ainda na fronteira entre a apresentação de playback (Chacrinha e Globo de Ouro) ou ao vivo (Perdidos Na Noite) ou ainda em clipe (Clip-Clip, FM TV).

A história começa a ficar chata a partir de agora. O Brasil mudou, Fernando Collor assumiu a presidência e se valeu de um falso apelo popular – corroborado pela mídia que compactuava com sua presença no governo – que atingiu em cheio a música pop, a programação das redes de televisão e a própria visão sobre o que se fazia por aqui. Um nacionalismo de araque promoveu a ascensão de cantoras baianas, duplas sertanejas, grupos de pagode romântico e, mais tarde, conjuntos de axé. A contrapartida disso foi a acolhida dada a grupos que faziam rock com tinturas musicais regionais, como Chico Science e Mundo Livre S/A, entre muitos outros. Como se fosse um dinossauro após o grande meteoro bater contra a Terra, a produção musical anterior ao período foi imediatamente vista como ultrapassada, sem graça, inadequada e foi deixada de lado. Nem todos os hits de Guilherme Arantes lhe concederam alguma isenção. Mesmo que lançasse discos na década de 1990, nada que foi feito por ele mereceu algum tipo de destaque e as canções não chegaram a ser ouvidas como acontecia antes. O caminho mais rápido para o esquecimento, como sabemos bem.

Vejam bem, nada contra novos artistas terem chance e emplacarem seus sucessos junto ao público. O que é irritante é a anuência de uma mídia sem vergonha, pensando apenas no lucro fácil, sem se importar com nada além disso. Parece que os bons músicos, os compositores pop inteligentes, a preocupação com arranjos, timbres e sons deixaram de ser importantes na hora de gravar um disco. Essa lógica foi dominando a produção musical nacional e, salvo exceções aqui e ali, possibilitou a perpetuação do mau gosto na televisão e rádios pelo país a fora. O golpe final e mais recente foi a quase inviabilidade do rock nacional ser fértil em termos de artistas e bandas com novas ideias e possibilidade de atingir um público maior. O que se vê é a restrição destes à Internet, algo que, se rende certa divulgação entre pessoas, por outro restringe o conhecimento de outras tantas. Nesse terreno crescem o hype, o indie estatal e tantas mutações irritantes entre a música e o ouvido.

E o que o Guilherme Arantes tem a ver com isso? Nada, ainda bem. O sujeito se mudou em 2000 para a Bahia e vive lá, gravando aqui e ali. Vieram registros ao vivo, CD/DVD para a série “Intimidade”, da Som Livre e um novo disco, “Lotus”, ambos gravados em 2007. Além disso, Guilherme vem sendo redescoberto por gente interessante da atual cena musical como Marcelo Jeneci e, principalmente, o cantor e compositor paulistano Fábio Goes, cujos dois discos, “Sol no Escuro” e “O Destino Vestido de Noiva”, são duas grandes exceções à mesmice ou à falsa esperteza. Com influência direta da poesia aranteana e de uma atmosfera anos 80 em bons termos pop, Fábio Goes é um bom cara a ser ouvido. Quanto a Guilherme Arantes, ex-progressivo, hitmaker, pianista, paulista, gente boa e onipresença nas boas listas de gente criminosamente esquecida-redescoberta, que ele continue compondo, teimando em ter bom gosto e, sobretudo, se cuidando bem “pra nunca perder o riso largo e a simpatia estampada no rosto”.

Discografia
Alguns de seus primeiros LPs chegaram a ser relançados em CDs, mas a grande maioria da discografia de Guilherme Arantes precisa ser garimpada em sebos (a série Pop Local recolocou nas lojas em 1995 quase toda discografia do músico nos anos 80). Dois grandes álbuns, “A Cara e a Coragem” (1978) e “Coração Paulista” (1980), foram recuperados por Charlie Gavin, que os remasterizou e os lançou na série Dois Momentos, da Warner. Em 2011 foi a vez de uma nova série, “Sucessos em Dose Dupla”, reunir discos raros de Arantes: A Cara e a Coragem” (1978) foi novamente o escolhido, aqui ao lado do raríssimo “Guilherme Arantes”, de 1982 (que traz a música “O Melhor Vai Começar”). Seu bom disco de estreia, de 1976, foi lançado com capa modificada em 2001, pela Som Livre, e pode ser encontrado com facilidade. “Ronda Noturna”, de 1977, permanece inédito, mas “Guilherme Arantes”, de 1979, foi relançando no começo de 2012. Vale ainda citar os álbuns “Ligação” (de 1983, relançando em 2001 pela Som Livre e que traz canções como “Rolo Compressor” e “Pedacinhos”), “Desperdar”, de 1985 (relançado em CD em 1995 e que conta com os mega-hits “Cheia de Charme” e “Brincar de Viver”) e “Meu Mundo e Nada Mais”, ao vivo duplo gravado em 1990 que reúne 21 hits de Guilherme Arantes (muita gente saberá cantar quase todas as canções) mais um cover de “Hello, Goodbye”, de Lennon e McCartney.

CEL é Carlos Eduardo Lima (siga @celeolimite), historiador, jornalista e fã de música. Conhece Marcelo Costa por carta desde o fim dos anos 90, quando o Scream & Yell era um fanzine escrito por ele e amigos, lá em sua natal Taubaté. Já escreveu no S&Y por um bom tempo, em idas e vindas. Hoje tem certeza de que o mundo como o conhecíamos acabou lá por volta de 1994/95 mas não está conformado com isso.

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Leia também:
– Matérias Antológicas: “Hoje sou exatamente o que sonhei ser”, por Guilherme Arantes (aqui)

33 thoughts on “Guilheme Arantes e a Amnésia do Pop

  1. po, cel! fico muito feliz de ver nosso “papo de buteco” após o texto do Capelas sobre o Pública virar esse texto bonitão! Arantes tem a manha e é triste ver grandes hits como o dele serem esquecidos na cara dura.

  2. timo texto, como sempre! Acho engraçado (no mau sentido) o fato de muitos sujeitos dizerem que o rock brasileiro dos anos 80 começou com a Blitz, como se “Você Não Soube Me Amar” fosse um tipo de Big Bang (inclua-se aí o autor do livro BRock…). Esquecem de forma conveniente para eles (que têm memória curta e dirigida por suas referências pessoais) que o ambiente propício para a propagação do tal BRock tinha sido preparado pelo sucesso radiofônico e popular, no final dos 70 e início dos 80, de artistas como Rita Lee, Guilherme Arantes, 14 Bis, Marcos Valle e outros praticantes do pop rock da época. Quiseram fazer uma divisão artificial entre o tal BRock e tudo que veio antes só para imprimir a lenda. Já passou da hora de corrigir esse erro de interpretação da história.

  3. Concordo, Zeca! Acho que o problema é inserir as referências punk – não da Blitz, claro – mas das bandas subsequentes, tipo Titãs, Ira etc como divisor de águas. Acho que o pop rock era riquíssimo e foi convenientemente deixado pra lá. Hoje as pessoas nem sabem que isso existiu. Triste.

  4. Assisti a um show do Guilherme Arantes há uns 3 ou 4 anos atrás, numa festa do interior de São Paulo, e foi um barato, daqueles shows de cantar junto do começo ao fim. E ainda teve como bônus o fato de ele cantar Nosso Lindo Balão Azul, que o meu filho então com 2 ou 3 anos adorava, e ficou super feliz quando dissemos que a música era pra ele.

  5. Pegando o gancho do Tiagão e do Ronaldo, um artista que consegue emocionar várias gerações tem seu mérito.
    Do Guilherme só conheço as clássicas e gosto de todas. Inclusive, certa vez até ouvi um disco dele inteiro, acho que era um álbum do final dos 70 pra começo dos 80. e achei alguns arranjos bem intricados. Diferentes daqueles que ouvia no rádio.

    PS: Discordo da sumidade Funk/Soul Zeca Azevedo e do Cel – tava com saudde, cara. :>)
    Acho a Blitz como ponto inicial bem posto. É claro que outros vieram antes, mas o estouro do pop/rock como fenômeno de massa foi com a Blitz e seus contemporâneos.

  6. Guilherme ainda conseguiu um hit no fim da era Collor, a bla “Sob o Efeito de um Olhar”. Mas ele é um artista que caiu no esquecimento mesmo, infelizmente. Seu texto aponta um momento quando começou a vigorar a ideia de que, para vir o “novo”, o “velho” deve ser exterminado. Segue até hoje esse nefasto vício. Pena.

  7. Fenômeno de massa abraçado pela mídia. Porque a Blitz era um grupo visual, egresso do teatro, com uma linguagem visual que caiu como uma luva naquela época. O Guilherme nem tava preocupado com visual, era um músico talentoso e não se ligou nisso como um Lulu Santos ou um Ritchie, egressos da mesma cena que o Guilherme, mas com preocupações sobre imagem e tal. Enquanto esses caras faziam clipes e apareciam no Mixto Quente, Arantes ficou um pouco mais “adulto”. Musicalmente, a linguagem pop rock no Brasil foi assimilada via trilhas de novela uns quatro anos antes da Blitz.

  8. Fiquei surpreso ao ver a foto e matéria do Guilherme Arantes aqui no S&Y. Sempre gostei do cara, desde a infância…viagens de carro com a família com trilha sonora dele…As lembranças ficaram muito vivas. Era uma época bem boa. É a referência nacional de pop-rock perfeito. Já vi um pocket show dele há uns 12 anos atrás e foi emocionante. Parabéns pelo artigo, CEL.

  9. CEL, há tempos estava pensando em escrever sobre o guilherme arantes…nem tanto por algumas das canções pós 80 que citaste, mas justamente pelo período anterior, os seis primeiros discos. são neles que estão cuide-se bem, a cidade e a neblina, águas passadas, antes da chuva chegar, baile de máscaras, sos… O primeiro disco e o ‘A cara e a coragem’ são impecáveis. o segundo talvez seja um dos melhores discos a falar sobre angústias da transição adolescência/idade adulta já feitos no brasil. a faixa título, mais Brazilian Boys e 14 anos são marcos. Sem contar a crítica ácida contida em ‘show de rock’ e ‘brincos na orelha’. E o guilherme ainda contava sempre com alguns dos melhores músicos do período, como o Carlini, da guitarra, por exemplo. os arranjos eram muito bons tb. E ele era um baita letrista. valeu mesmo a lembrança que faz justiça ao cara.

  10. Poh Cel muito bom ter alguém mais velho (não é ofensa ser velho e experiente, devemos ter a mesma idéia) escrevendo por aqui porque as vezes a gente lê coisas na internet e fica apavorado.
    Grandes épocas mesmo a dos festivais, nem lembro da Purpurina (justiça foi feita pelo público e pela memória) mas lembro dela quase chorando ouvindo as vaias e lembro mais ainda do Guilherme, tocando todo suado, de roupa branca aquela bela música assim como as outras e como tu bem ressaltou, baita cara, animado, sempre feliz bonito de se ver.
    Os discos de novela meus amigos até hoje brincam comigo que eu me lembro de todas as trilhas, toco no violão as vezes e etc mas eram bons tempos, sempre tinham coisas ótimas nestas trilhas, Som Livre faturou mas fez um bom trabalho naquela época.

  11. Foi nada, Cel. Final dos anos 70 e 80/81 era a MPBzona quem dava as cartas.
    O próprio Gilberto Gil(sempre aberto ao pop) certa vez disse que a MPB tinha levado uma Blitz.
    E se a gente for ficar puxando fios de meada vai parar em Celly Campello.
    É claro que existem fios condutores(as coisas não são soltas) mas é importante frisar marcos.

  12. Zé Henrique, eu vivi a época e me lembro bem do que aconteceu. Talvez o Gil tenha feito essa análise sob o efeito do momento. Se olharmos pra trás, veremos que há registro de um formato muito mais plural que a MPBzona. O próprio Gil já apontava para novas direções com o Realce. Além dele havia gente como Tavito, Dalto, Kleiton e Kledir, o próprio Guilherme Arantes, Roupa Nova, Lulu Santos, todos fazendo pop rock. Claro, era um pop rock com parentesco forte com a música nacional mas era novidade e relevante. A Blitz foi um passinho à frente e depois.

  13. Ahh, tá, Cel, por essa definição – “pop rock com parentesco forte com a música nacional” – eu concordo.
    Eu não defino Kleiton e Kledir, Dalto e o próprio Guilherme como pop/rock.
    Enfim…

    PS: Seus textos são sempre muito bons de ler, cara.

  14. Legal o texto. Só não concordo com essa crítica repetitiva à “mídia malvada”. Não que a grande mídia seja boa, muito pelo contrário, só não justo ela pagar conta sozinha pelo sumiço do Guilherme Arantes. O fato é que ele perdeu a mão de sua máquina de hits a partir dos anos 1990. Vários artistas sobreviveram aos anos Collor e voltaram a brilhar tempos depois… Abs.

  15. hahaha, Tiago Cachoni, eu SEMPRE comento isso, cara!
    Corpo Fechado é “Loucas Horas” do Pública. eu acho a voz (e a estrutura de várias músicas) bastante parecida. o que muda é a produção.

    esse texto do CEL, inclusive, surgiu por conta de uma conversa sobre esse tema, depois que o Capelas publicou o texto sobre o Pública.

  16. Acredita que voltei a este post?

    Olha a sincronicidade: ouvi agora um clipe novo do Fábio Góes (ele é muito foda!) e, não sei por que, me deu vontade de ouvir Guilherme Arantes.

    CEL, vê se comenta qqr dia a discografia do homem que ele merece…

    Abs!

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