Entrevista: of Montreal

por Wagner Ximenes

Fala-se muito na morte do rock e na falta da experimentação de bandas mais novas, no entanto, nem tudo está perdido. Não no que depender de Kevin Barnes, a mente criativa por trás da banda norte-americana of Montreal, que por sua natureza musical não aceita involuntariamente definições de gênero, passeando do rock experimental á la Flaming Lips até um pop quase FM dos Bee Gees. Formada em 1996, e hoje com 11 álbuns na bagagem, a banda teve seu nome inspirado em um relacionamento de Kevin com uma mulher de Montreal, no Canadá, que deu errado. No recém-lançado “Paralytic Stalks”, a vida pessoal e as ideologias do vocalista e líder da banda são a coluna vertebral do álbum.

“Há muita contemplação espiritual neste álbum, acho que estou passando por algum tipo de crise existencial”, desabafou Kevin ao falar sobre uma das faixas. Performático no palco (quem os viu no Planeta Terra deve lembrar) e excêntrico em seus discos, ele não lembra com nostalgia dos anos 90 e também não entende o que as bandas atuais enxergam numa época em que as rádios e as emissoras de TV ditavam o que devia ser sucesso nas paradas: “A década de 90 foi uma droga e eu odiava os anos 90. É tão estranho ouvir novas bandas que soam como bandas daquela época, eu não consigo ver romance lá, mas cada um na sua”.

Apesar dos anos de estrada e diversos registros em estúdio, o of Montreal foi ganhando notoriedade nos últimos anos com direito a participações em programas de auditórios e trilha sonora em comerciais do Outback. Os últimos três álbuns da banda entraram na famosa Billboard 200, talvez a parada musical mais cobiçada no mundo por boa parte dos artistas. Mesmo com a alta exposição que a conquista lhe garante, Kevin não demonstra deslumbramento com o sucesso. “Eu me comprometo a só fazer arte pela arte, ou seja, para a alegria e satisfação que o processo criativo me traz. Se eu tivesse um disco que vendeu milhares de cópias e foi extremamente comercial, mas eu não achasse que ele era bom eu não me sentiria bem com isso”, explica.

“Paralytic Stalks” ganhou edição nacional via Deckdisc e é um álbum cheio de nuances, com momentos mais densos e psicodélicos, e outros bem pop. Todas as faixas foram escritas por Kevin e o disco foi bem recebido pela crítica especializada em geral. O primeiro single, “Dour Percentage”, talvez umas das faixas mais acessíveis do disco, foi apresentada pela banda no programa Late Night With Jimmy Fallon, mas ainda não possui videoclipe oficial. Abaixo você confere na íntegra a entrevista feita por e-mail com Kevin Barnes exclusivamente para o Scream & Yell, onde o músico fala sobre o processo de composição de “Paralytic Stalks”, suas influências (que incluem até Os Mutantes), e a passagem pelo Brasil em 2010, no festival Planeta Terra. Com vocês, Kevin Barnes:

Como foi o processo de composição e gravação de “Paralytic Stalks”?
Comecei a escrevê-lo no início de 2011 e terminei por volta de abril do ano passado. Gravei a maior parte no meu estúdio caseiro em Athens, Geórgia, e basicamente juntei os instrumentos um de cada vez. Contei com a ajuda de um casal de “músicos sérios”, Kishi Bashi e Zac Colwell, nas sessões mais instrumentais do álbum. Eles tocaram os instrumentos que eu não sei tocar, como violino, flauta, clarinete e saxofone. Contratei também um guitarrista, um baixista, um tocador de foles, um harpista e um oboísta. Eu quis usar um monte de instrumentos orgânicos em vez de apenas utilizar versões de software dos mesmos. Eu estava passando por alguns problemas mentais pesados no momento e criar o álbum me ajudou a canalizar toda a energia negativa em algo mais positivo. Isso meio que salvou minha vida.

O que significa “Paralytic Stalks” e qual o conceito da arte do álbum?
“Paralytic Stalks” pode ter um diferente número de significados. Gosto do título por essa razão. Uma das possibilidades de interpretações é como essa gravação foi um renascimento para mim, mas ao mesmo tempo prejudicou minha carreira, a partir do momento que decidi não ser comercial e não seguir tendências. Meu irmão David fez a arte do álbum, ele quis refletir toda essa angústia e sofrimento no álbum. Acho que ele fez um grande trabalho capturando de uma maneira geral o espirito das músicas nas ilustrações.

O single “Dour Percentage” já ganhou referências de Bee Gees à Pink Floyd, o que você acha disso? São influências?
Não diria que essas bandas sejam minhas maiores influências, apesar de gostar de algumas de suas músicas. Inspiro-me em tantos diferentes estilos de música, sou um grande fã dos Beatles, mas também sou grande fã dos clássicos do funk e do soul music nos anos 70 e do synth pop e hip hip moderno. Tento combinar todas essas influencias em um grande pote e ver como ficará. Uma grande influencia minha é a banda brasileira Os Mutantes. Eu me apaixonei por eles desde a primeira vez que os ouvi, eles me inspiram a arriscar e experimentar com arranjos distorcidos e produção.

Qual a maior diferença desse álbum para os anteriores?
Uma das diferenças é que nenhuma música foi escrita sob a perspectiva de um personagem, todas as músicas estão conectadas diretamente na minha vida pessoal. Eu quis fazer algo bastante cru e emotivo e ao mesmo tempo aterrorizante e belo. Eu compus músicas mais longas em uma tentativa de criar uma experiência mais densa e complexa para as pessoas ouvirem. Percebo que este é um álbum bastante desafiador e que realmente não é para o consumo da massa, mas que é uma espécie de ponto. Sinto como se boa parte das músicas hoje em dia se destinassem a ser apreciadas de imediato, e então rapidamente ignoradas, as pessoas realmente não possuem mais tempo para mergulhar no meio de um álbum, é meio patético, tudo está ficando tão superficial e descartável.

Em 2010 a banda se apresentou no festival Planeta Terra e agora em “Wintered Debts” você cita São Paulo. Que recordações você tem da passagem pelo Brasil?
Tenho ótimas lembranças daquela viagem. Era a minha primeira vez no Brasil e eu estava apavorado. A referência em “Wintered Debts” é de uma experiência que tive na noite após o festival. Eu tinha um DJ set e estava meio bêbado e estraguei tudo, isso foi meio decepcionante. Mas ainda acho que a experiência foi bem positiva, dá próxma vez que eu for ai vou me assegurar de praticar um pouco mais minha auto-concentração.

Há uma história por trás da faixa “Gelid Ascent”?
Penso na canção como um diálogo entre eu e Deus. Muitas pessoas acreditam que somos criados à imagem de Deus, mas se realmente for esse o caso Deus é extremamente selvagem e psicótico. Eu estou dizendo a Deus que ele fala comigo através de seus atos violentos e de como isso é desmoralizante para todos nós, povos amantes da paz, termos que entrar em acordo com a brutalidade em tudo. Há muita contemplação espiritual neste álbum, acho que estou passando por algum tipo de crise existencial.

Onze discos em menos de vinte anos é algo incomum para artistas atuais. Há alguma preocupação de um trabalho superar o outro e estar sempre gravando?
Nunca estou definitivamente satisfeito com o meu próprio trabalho. Eu sou movido a provar ao mundo e sou capaz de grandes coisas, pois quero ser considerado um grande artista, mas simplesmente não consigo fazer um grande álbum, então eu tento e eu tento e eu não vou desistir. Talvez um dia eu tropece em cima de uma idéia muito grande e então eu serei capaz de morrer feliz, por enquanto eu ainda estou lutando. A música é uma forma de arte incrível, existem tantas possibilidades diferentes, tantas formas diferentes de comunicar temas universais, bem como os mais abstratos e oblíquos. [A música] é uma besta muito misteriosa.

Cada álbum costuma ter uma sonoridade bem particular, flerte com outros ritmos. Essa é uma necessidade de reinvenção?
Não estou interessado em seguir fórmulas, estou sempre tentando explorar artisticamente um novo território, cada álbum é uma viagem de auto-descoberta para mim, no entanto, uma vez feita uma descoberta eu troco minha pele e me aprofundo na minha psique. Todos nós temos tantos níveis diferentes para o nosso “eu”, eu amo essa capacidade da música em ajudar a descobrir estes novos aspectos e examiná-los e compreendê-los.

“Paralytic Stalks” vazou praticamente um mês antes do lançamento oficial, isso te preocupa?
Isso realmente não me incomoda. Do jeito que as coisas são agora não importa se um álbum vaza um pouco mais cedo. Fiquei feliz que ele vazou apenas um mês antes para ser honesto, nós tivemos alguns registros que vazaram com muitos meses de antecedencia. Um dos nossos álbuns, “Hissing Fauna”, vazou quatro meses antes da data de lançamento e ele é o nosso álbum mais vendido. Sendo assim não acho sinceramente que prejudique tanto as vendas.

Em “False Priest“ você contou com a participação de Janelle Monaé e Solange Knowles. Existe alguém que você gostaria de fazer uma parceria?
Não estou trabalhando com ninguém no momento, mas amaria trabalhar com Little Dragon, Sufjan Stevens, Fiery Furnaces, Dirty Projectors, Damon Albarn, Erykah Badu…

Os últimos álbuns da banda foram conquistando posições mais próximas do topo da Billboard, logo ganharam mais visibilidade. Isso interfere na forma de fazer uma música mais acessível e pop para agradar um público maior?
Não, me comprometo a só fazer arte pela arte, ou seja, para a alegria e satisfação que o processo criativo me traz. Se eu tivesse um disco que vendeu milhares de cópias e foi extremamente comercial, mas eu não achasse que ele era bom eu não me sentiria bem com isso. De certa maneira é uma espécie de luta contra as possibilidades comerciais, seria fácil para mim escrever um monte de músicas super pegajosas e simples, mas não é onde minha cabeça está. Eu quero escrever músicas complexas e imprevisíveis para as pessoas que amam a música como uma forma de arte e não como apenas um acessório descartável.

Como acontece a gravação de uma faixa tão extensa, como “Authentic Pyrrhic Remission”, que tem mais de dez minutos de duração?
Levou um bom tempo para desenvolver essa [faixa]. Trabalhei nela muito mais que nas outras músicas. O brilhante arranjador de cordas Kishi Bashi me ajudou com a parte do meio, fomos muito inspirado pela composição “Threnody to the Victims of Hiroshima”, bem como “The Unanswered Question”, de Charles Ive. Eu queria criar um novo híbrido de música que combinasse funk, soul e pop com música clássica de vanguarda, mas de uma forma que fizesse justiça a todos os generos e não fosse apenas uma novidade. Em minhas músicas eu posso fazer qualquer coisa que eu queira, eu sou completamente livre, não tenho regras ou restrições, se eu decidir desafiar o senso comum e transformar uma canção funk pop em uma cacofonia uivante terrível de sete minutos e depois devolvê-la a uma balada de piano calmo, eu posso fazer. Por alguma razão a maioria dos músicos não se permite ter muita liberdade, cumprem regras, modelos e arquétipos, eu digo foda-se os arquétipos! Preciso fazer algo vivo e apaixonado, e não uma imitação de algo que outra pessoa já obteve sucesso com.

Você acha que as pessoas hoje ainda se dedicam em apreciar um álbum mais denso e sofisticado? Digo, na Era da internet, de uma maneira geral, tudo é muito rápido e analisado de uma forma mais rasa. Concorda?
Eu concordo plenamente, e isso é realmente triste. Acho que se resume a pessoas sem paixão, sem força de alma. Eles não esperam que a arte vá tocá-los profundamente, eles não esperam para ter esse tipo de relacionamento com ela, eles só querem ser superficiais, dançar e se divertir. Mas não acho que diverão seja a busca mais importante na vida. Eu sei que sou um desajustado e uma aberração, mas ainda mantenho a arte como algo sagrado e poderoso.

Para você, qual a maior diferença entre fazer música nos anos noventa e agora? Sente falta de algo?
A década de 90 foi uma droga, eu odiava os anos 90. É tão estranho ouvir novas bandas que soam como bandas daquela época, eu não consigo ver romance lá, mas cada um na sua. Na década de 90 eu rejeitei completamente tudo o que era moderno na época e só ouvia bandas da década de 50, 60 e 70. Eu não conseguia me identificar muitos com os meus contemporâneos. Mas agora me sinto de mais conectado aos meus colegas. Acho incrível como é fácil descobrir novos artistas hoje em dia, os artistas não precisam de uma gravadora para assiná-los e dar-lhes um orçamento para gravação, a fim de fazer um bom som. Equipamento de gravação é tão barato e acessível agora. Eu acho que é um grande momento para ser um artista na verdade.

Quais os planos para a turnê? Pretendem voltar ao Brasil?
Nós amaríamos voltar ao Brasil. Estamos atualmente em negociação com um produtor no Chile e Argentina, esperamos haver a possibilidade de voltar ao Brasil de novo também! Isso me deixaria muito feliz.

– Texto por Wagner Ximenes (siga @rockastico), jornalista e editor do Portal RockLine
– Fotos de Kevin Barnes no show do of Montreal no Planeta Terra por Liliane Callegari

Leia também:
– Balanção Planeta Terra 2010, por Marcelo Costa e Vladimir Cunha (aqui)
– “Hissing Fauna, Are You the Destroyer?”, of Montreal, por Marcelo Costa (aqui)

2 thoughts on “Entrevista: of Montreal

  1. Of Montreal é foda. Mas eu preferia muito mais os primeiros discos, quando eles estavam ligados ao pessoal da Elephant 6. De qualquer forma, continua sendo uma grande banda: inquieta, honesta e criativa.

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