Literatura: A Visita Cruel do Tempo

por Gabriel Innocentin​i

“A visita cruel do tempo”, romance que deu a Jennifer Egan o prêmio Pulitzer de ficção em 2011 (edição nacional da Intrínseca), é uma espécie de “White Album” da ficção contemporânea. O disco clássico dos Beatles apresentava uma diversidade de gêneros, anunciava o isolamento dos integrantes e dialogava com a produção cultural de seu tempo.

E quanto ao livro?

Bem: está lá a diversão na variedade de formas (quer um capítulo narrado em slides? ou prefere o perfil de uma celebridade, parodiando David Foster Wallace e escrito por um presidiário que conta uma hilária tentativa de estupro? quem sabe um capítulo narrado em segunda pessoa? tudo bem, que tal uma sátira política protagonizada por uma assessora de imprensa? e o que me diz de um capítulo sobre paranóia tecnológica?); está lá o isolamento das pessoas (uma garota de 12 anos que se comunica com sua problemática família pelo computador, o irmão de 13 anos obcecado pelas pausas nas canções pop); está lá a reflexão sobre a cultura contemporânea: as celebridades, o marketing, os aparelhos de comunicação que deixam todos online em tempo integral.

Milagre: funciona!

Jennifer Egan tem a mão segura e certeira para comandar a pirotecnia técnica. O catálogo de ficção contemporânea e pós-moderna (paranóia, novas formas de contar uma história, narração em primeira, terceira e segunda (!) pessoas, preocupação com as novas tecnologias de comunicação, questionamento sobre a linguagem) é tão bem amarrado quanto as melhores séries televisivas. Não à toa, Egan confessou ter se inspirado em “Pulp Fiction” e “The Sopranos” para estruturar sua história.

Ela tem a seu favor a brevidade – menos de 350 páginas – ao passo que os Beatles se estenderam demais no “White Album” – o dispensável lado quatro do LP duplo. Se o álbum às vezes pode soar desorganizado e condescendente, despretensioso e imperfeito, o livro de Egan jamais exibe tais características.

Sim, mas e o enredo?

A trama começa a girar em torno de um produtor musical cuja banda com amigos de adolescência fracassou. Bennie Salazar é separado, pai, tem uma ajudante cleptomaníaca e suspira pelo tempo em que a indústria era analógica. É a partir desses dois personagens que a história se desenrola. O SOPA e o PIPA censuraram o resto da sinopse sob risco de spoiler.

Se alguma canção do “White Album” pudesse resumir o livro seria “Happiness is a Warm Gun”: nada faz crer que o início irá conduzir ao final, tamanhas as reviravoltas de ritmo (mudanças de andamento entre 9/8 e 12/8) e de autonomia das partes. O rumo imprevisível confere encanto e graciosidade ao romance, que transita por três continentes ao longo de um período de meio século (mais ou menos da década de 1980, em São Francisco, até algum ano indefinido da década de 2020, em Nova York). Ao final de cada capítulo o leitor se pergunta: o que a autora vai aprontar agora?

Como um belo disco, os capítulos de Egan vão se gravando em nossa memória e quanto mais a agulha gira, mais forte fica a impressão. Como é o caso do capítulo 5, singelamente intitulado “Vocês”, um dos contos mais pungentes produzidos neste milênio, com um desencanto típico dos melhores contos de Raymond Carver – “Por que não dançam?”, por exemplo. Ainda no terreno dos adultos de meia-idade com vidas despedaçadas, o capítulo “De A a B” faz crer que Stephanie é vizinha da Nancy de “Quer ver uma coisa?”, outro conto de Carver.

Destaca-se ainda o capítulo distópico “Linguagem pura”, em que a tecnologia atua como um vírus na própria linguagem da narração. Jennifer Egan infiltra a sátira com muita habilidade, como no caso dos capítulos iniciais, em que o vocabulário da terapia psicanalítica torna os dramas dos personagens um tanto quanto cômicos.

“A visita cruel do tempo” é um romance sobre o rock, portanto, sobre autodestruição. Personagens que abandonaram seus sonhos ou se deixaram corromper ou que buscaram um caminho deliberado de sabotarem a si mesmos. Personagens trágicos que estão na “desolation row” de Bob Dylan. Personagens vencidos pelo tempo, a se indagarem: como chegamos até aqui?

Mas não é apenas sobre rock, é também sobre uma cultura pervertida pelo marketing e pela tecnologia. E, se quisermos ser ainda mais precisos: não é apenas sobre rock, autodestruição, marketing e tecnologia, mas também sobre a dificuldade de comunicação. Em todas as épocas. Entre casais, entre pais e filhos, entre melhores amigos.

Daí o impacto do capítulo narrado em segunda pessoa, cuja mudança de foco narrativo nas frases finais irrompe com a força da memória e do desejo mixados, para usar o verso de Tom Waits. Daí também o impacto das 70 páginas em slides, feitos por Alison, uma pré-adolescente que poderia ser amiga do Oskar de “Extremamente Alto & Incrivelmente Perto”. Daí o impacto ainda maior da obsessão de Lincoln, irmão de Alison, pelos tempos silenciosos na música: a intuição de uma consciência precoce sobre a morte.

Mas acima de tudo, acima das pirotecnias de storytelling de Jennifer Egan, está a preocupação com o tempo. Alguns críticos dizem que todo romance é sempre sobre o tempo; outros, que é sempre sobre o desejo. “A visita cruel do tempo” flutua em tom de elegia, na união proustiana entre tempo, memória e desejo. O tempo não perdoa, ao contrário da autora, que trata seus personagens de forma delicada e sensível.

Jennifer Egan não adota a sintaxe tortuosa nem a análise psicológica aprofundada de Proust, preferindo a regra do “show, don’t tell”, com cada capítulo funcionando quase como um conto. Em entrevista, ela afirmou que o princípio organizador do livro foi a descontinuidade. É a experiência simultaneamente fragmentária e intensa da memória que lhe permite as acrobacias olímpicas de técnica narrativa.

“A visita cruel do tempo” é um prodígio. De arquitetura formal, de técnica e da capacidade de tocar o coração do leitor, que certamente fechará o livro com a vontade de fazer uma releitura – um prazer semelhante ao de ouvir um grande disco no repeat. Se quiser saber onde está e aonde pode ir a ficção contemporânea, sente e leia “A visita cruel do tempo”.

– Gabriel Innocentini (siga @eduardomarciano) é jornalista e já escreveu para o Scream & Yell sobre Tom Waits (aqui), Thomas Pynchon (aqui), Charles Bukowski (aqui), Jorge Ben (aqui) e Bob Dylan (aqui)

Leia também:
– “Extremamente Alto & Incrivelmente Perto”, de Jonathan Safran Foer, por Jonas Lopes (aqui)
– “Álbum Branco”, dos Beatles, virou lenda com brigas e tragédia, por Marcelo Orozco (aqui)

11 thoughts on “Literatura: A Visita Cruel do Tempo

  1. Gosto das suas críticas. Entretanto, essa profusão de referências buscando semelhanças com outras obras, antes de trazer uma sensação de pedantismo, parece-me esvaziar a obra em questão de um valor próprio.

  2. Discorando do Fábio, a enumeração de outras obras, que inclui álbuns de música, e totalmente coerrente com a estrutura do próprio livro, que cita e utiliza várias fontes e referências.

  3. não vej problema em um livro que é todo estruturado em características claras do pós-modernismo sustentar debate em referências. elas podem te sinalizar um caminho.

  4. O livro tem pontos altíssimos, mas também outros muito fracos. Os melhores capítulos, para mim, são o 9 e o 10, não o powerpoint (mas não é ruim).

    Dizer que ela é uma grande autora, que sua obra já é um clássico, é um exagero. Pra ser isso, o livro deveria ter uma constância de qualidade, coisa que não tem. Uma resenha madura tem que mostrar também os defeitos do livro. No conjunto, na ideia, parece algo exemplar, mas é na leitura de frase a frase, da realização de cada capítulo, que se percebe os problema do texto de Egan..

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