Cinema: “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres”, de David Fincher

por Otávio Augusto

Após ver sua carreira ir pro água a baixo, o jornalista Mikael Blomkvist (Daniel Craig) é convidado por um misterioso ricaço sueco chamado Henrik Vanger (Chirstopher Plummer) para investigar o caso de uma sobrinha desaparecida a mais de 40 anos. “Você vai investigar as pessoas mais detestáveis que se pode encontrar”, anuncia Vanger com prazer: “Minha família”. Mikael acaba se envolvendo em uma sinistra história de assassinatos em série em uma Suécia que teria simpatizantes nazistas.

Rooney Maara (a namorada de Mark Zuckerberg em “A Rede Social”) é a traumatizada Lisbeth, uma garota antissocial de 23 anos, com visual punk, tatuagem de dragão, que foi abusada sexualmente por homens, transpira raiva e é tutelada pelo Estado por questões psicológicas – e que também é um hacker profissional prestando serviços de investigação de pessoas públicas.

Quando abordada de surpresa em sua casa pelo jornalista, Lisbeth se interessa em ajuda -lo a desvendar o mistério por trás dos assassinatos cheios de misoginia e ódio. A frase que a “seduz” é direta: “Eu quero que você me ajude a pegar um assassino de mulheres”, diz Blomkvist. Será a primeira vez que ela consegue olhar para cima e encarar nos olhos o jornalista.

Remake do filme sueco dirigido por Niels Arden Oplev, também baseado no primeiro volume dos best-sellers de Stieg Larsson (1954-2004), “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” (“The Girl With The Dragon Tattooo”, 2011), de David Fincher vai além do filme original: é violento, visceral e ainda por cima traz Rooney Mara em uma atuação assustadora.

Vale também a excelente trilha sonora, assinada pela dupla Trent Reznor (“o” Nine Inch Nails) e Atticus Ross, ganhadores do Oscar ano passado pela trilha de “A Rede Social” (também de David Fincher). A tensa seqüência inicial traz uma pulsante cover de “Immigrant Song”, do Led Zeppelin, interpretada pela cantora Karen O, do Yeah Yeah Yeahs.

No decorrer da trama, com Lisbeth descobrindo mais e mais sobre as mulheres assassinadas, é impossível não recordar do clássico “Se7en” (1995), de David Fincher. Logo nos primeiros minutos de filme fica claro a admiração do diretor por um material escuro que permite ao cineasta mostrar uma magistral habilidade técnica, exibindo características típicas de um filme de autor, a começar pelos créditos de abertura.

Fica claro que Mikael não chegaria nem perto do enigma sem a ajuda da sua assistente Lisbeth. É ela que da a força total para a história, seja quando consegue recuperar sua bolsa roubada, quando escorrega por uma escada rolante e entra em um trem quase em partida, seja quando castiga um estuprador que pensava que poderia se aproveitar dela. Lisbeth/Rooney Mara é a grande estrela do filme (será uma provocação: hackers são as grandes estrelas do mundo moderno?)

O roteiro de Steve Zaillian é quase idêntico ao do filme sueco de 2009, o que parece um curso normal da adaptação. Ao menos isso mostra que em qualquer idioma a história de Stieg Larsson tem um poder como poucas. Ainda assim, David Fincher, mais uma vez, deixou sua marca. A exemplo de “Se7en” (1995), “O Clube da Luta” (1999), “O Quarto do Pânico” (2002) e “Zodíaco” (2006), o diretor mostra novamente em “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” sua capacidade de criar historias/suspenses quebradas por questões fantásticas ou extremamente violentas.

– Otávio Augusto (siga @otavioacunha) é historiador e fã de cultura pop

Leia também:
– Melhores de 2010 Scream & Yell: Filme Internacional – “A Rede Social” (aqui)
– “Zodíaco” não inspira, não instiga, não causa empatia nem medo (aqui)
– “O Quarto do Pânico” é cinema-pipoca da melhor qualidade (aqui)
– “A Conquista da Honra” e “Cartas de Iwo Jima”, por Marcelo Costa (aqui)
– “Clube da Luta”: um segundo de sua vida se foi no segundo que passou (aqui)

2 thoughts on “Cinema: “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres”, de David Fincher

  1. Otávio,

    Acho que esse filme não passa a ideia de hackers como estrelas. Apenas comprova como os anti-heróis são as grandes estrelas porque, além de hacker, a garota tem uma intensa necessidade de independência, é sozinha, não tem boas maneiras e não está nem aí pra budega nenhuma.

    Nesse caso, a mensagem teria um tom mais personalista da personagem mesmo. Realmente, é dos anti-heróis que gostamos! Tanto que a editora da revista, que até tem um aspecto de boa moça inteligente e sagaz, fica absurdamente ofuscada pela Lisbeth.

    Um grande filme!

    Abs!

  2. Verdade Tiago. A provocação dos Hackers como estrelas se deu por que, na semana em que o filme estreava por aqui, diversos sites mundo a fora estavam sendo derrubados por ” Hackers” reais como protesto ao SOPA E PIPA.

    Eu não li os livros, pretendo ler, mais a personagem da Lisbeth é sensacional por ser um anti-herói cheio de razões – ela é triturada pela sociedade e isso da á ela uma força e um poder de si muito grande. Ontem no Oscar o Rubem Ewald disse não gostar do filme, até ai tudo bem. Mas afirmar que Rooney Mara não estava bem neste personagem, ai já é demais!

    Abraços Tiago

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